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O DIABO DA MEMÓRIA
arte: Hélio Rola / poema: Floriano Martins /
traducción: juan calzadilla

  
Haverá um verbo dentro de outro que o contradiga?
Uma locução de enganos que cunhe moedas de face única?
Por onde nos desfazermos da astúcia da memória que teima em doer?
Vozes gravadas sob tortura não são enigmáticas: são apenas dor,
a dor mais sangrenta e dilacerante que se possa imaginar.
Não estão ditas em outro idioma ou de trás para frente,
como se fossem registros demoníacos candidatos a exorcismo.
Qual será a terceira ordem menor do desespero de quem sangra sob tortura?
Para nós que assistimos a tudo impassivelmente diante do telejornal,
quanto exatamente dói a memória dissipada a cada nova edição diária?
Se tortura é apenas o que se sente, estamos dispensados da dor.
Que a memória se cale. Nada nos dói. Não precisamos saber de nada.
Deus se instala no mais absoluto vácuo e o Diabo vive apenas no casebre da memória.
Tratem de não se lembrar de nada, e tudo estará bem.
 

¿Existirá un verbo dentro de otro que lo contradiga?
¿Una locución de engaños que acuñe monedas de rostro único?
¿Por dónde deshacernos de la astucia de la memoria que termina por doler?
Las voces grabadas bajo tortura no son enigmáticas: son apenas dolor,
El dolor más sangriento y lacerante que se pueda imaginar.
Voces que no están dichas en otro idioma o de atrás para adelante como si fuesen registros demoníacos listos para el exorcismo.
¿Cuál será la tercera orden menor del desespero de quien sangra bajo tortura?
Para nosotros que asistimos a todo impasiblemente delante del noticiero
cuánto exactamente duele la memoria disipada a cada nueva edición matutina?
Se tortura es apenas lo que se siente, estamos dispensados del dolor.
Que la memoria se calle. Nada nos duele. No precisamos saber nada.
Dios se instala en el más absoluto vacío y el Diablo vive apenas en el
chomizo de la memoria.
Traten de no acordarse de nada, y todo estará bien.

   
   

 

 

 


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