Floriano Martins.....
A vertigem influída

Via Política, 1.02.09
http://www.viapolitica.com.br/principal.php

O rosto na televisão lhe chamou a atenção. Estava vendo a si mesma, na mulher cujo noticiário revia os crimes que cometera ao lado de outros. Assustava-lhe a semelhança do olhar. Era como se toda a representação de um mundo se revelasse, e algo arrebatador legitimasse a emoção. Irrefreáveis imagens golpeavam a memória, cenas de crimes antes mesmo que apenas enumerados no telejornal – minúcias do que não podia suportar. Quem era aquela mulher tão dentro de si? E que estranha galeria se manifestava, quase corpórea, com o mobiliário trágico e tão íntimo? Era recobrada por velhos dilemas. Retorcia-se misteriosa dentro daquele olhar que não conseguia identificar. Os dois rostos como que tomavam o caráter de um só.

[Onde estou, no íntimo do que desconheço? Esta mulher me atrai por tudo o que não suspeito faça parte de mim. Como esfaquear tanta gente e dançar em volta de cadáveres?]

Costumava ligar a televisão acompanhada de papéis, anotando a ambigüidade de realidade e ficção em que a vida humana foi sendo aprimorada. Já estamos bem perto do instante em que vislumbraremos nosso sorriso no espelho sem saber ao certo do que ele está rindo, em contraste com o pesar que sentimos interiormente. Criada pelos avós, aquelas anotações eram vistas como um capricho da menina dedicada aos estudos, que vivia um pouco solitária, mas que era um carinho só.

[A morte não nos deixa nenhuma pista do caminho que traça dentro de nós, nem sabe ao certo se pode contar conosco para garantir a existência.]

O avô ria daqueles estilhaços de reflexão. Porém, em meio aos cadernos tantos de apontamentos, é impossível não considerar que a mãe sempre esteve conectada com a filha. A vertigem conhece seus pontos fracos. Quem era aquele rosto na televisão? Ela estava só em casa, nem houve como gravar para depois indagar aos avós.

[Há 20 anos uma mulher foi condenada por crimes brutais, e agora uma retrospectiva na tv mostrando cenas da prisão e do julgamento. O que tenho a ver com esta mulher?]

Desde então a memória vem alinhavando desavenças, e o noticiário progride implacável na decisão de inutilizar a vida humana. Qualquer coisa que sonhe. O que quer que goze. O prazer é uma ameaça constante ao cotidiano.

[Há 20 anos interrompeu-se um largo período ditatorial no país. Não se iniciou movido pela ganância do poder, mas sim por um sentido extremo de proteção aos ideais vigentes. Ao encerrar-se, tampouco se verificou alguma conquista, mas antes uma compreensão de que tais ideais estavam a salvo.]

Todos os crimes são idênticos. Haverá um ponto em que a indecisão anula toda perspectiva de liberdade? Decerto que há uma hierarquia de modelos.

[A concentração de renda tem sido anunciada como um grande inimigo das democracias. Esta é, na verdade, uma distorção célebre, e bastante funcional. O princípio da massificação suprime qualquer liberdade individual. Um simples cartão de crédito tiraniza a vida muito mais do que se imagina. Em todo dicionário encontramos que ditadura é: “Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, dum grupo, duma assembléia, dum partido, ou duma classe”. Mas todos os poderes sempre estiveram enfeixados nas mãos de um desses elementos, em toda a história da humanidade. A soberania popular é uma falácia? Porém em seu nome não estamos a suportar desfigurações as mais virulentas?]

Há páginas e páginas, repletas de voracidades.

[Um país que comemora 20 anos de libertação do regime militar tem sido tão tragado por uma vaga de corrupção que não sabemos ao certo qual a longitude da fé na espécie humana. Ao mesmo tempo, este mesmo país vem sendo penalizado por um processo de estagnação sistemática.]

Quando a casa foi invadida pela polícia não havia ninguém. O rosto daquela mulher condenada que lhe aparecera na televisão, decerto lhe dera pistas suficientes para que compreendesse que o ideal perdido mal recupera a si mesmo. O mundo da memória é um mundo fora do tempo. O tempo, a extradição da memória. Todas as guerras são cínicas. Onde estava agora o olhar dentro do olhar que lhe aclarara tantas coisas? A seguir os passos de sua mãe? Por que escrevera tanto sobre fraudes de sistema?

[A incriminação é o mais poderoso dos artifícios. Cometer um crime é o ato menos comprometedor, de menor interesse social. A maneira mais prática de desabilitar alguém é incriminá-lo, indiscriminadamente.]

Não vou abrir parágrafos para este caso. Aceitei anotá-lo desde que fui procurado pela suspeita. Segue foragida, embora se comunique comigo, confie em mim, não, não trairei minha intuição.

[Tudo o que vou relatar tem a ver com o dia de hoje, o presente na vida de todos nós, a maneira como somos refreados em face de acontecimentos que se deram e podem influir em nossa vida, marcar-nos, por assim dizer, de maneira a que não sejamos de todo o que devemos ser sem a presença incômoda dessas ranhuras do passado.]

Enquanto eu gravava o depoimento não podia deixar de pensar em meu país, na situação que enfrentamos hoje, de uma realidade forjada com poderes concentrados em um congresso que desafia a todos. O que esta jovem garota tem descrito é uma vinculação de crimes. Não sabemos onde estão seus avós. Ela não se ausenta da assinatura dos crimes que vem cometendo. Sobre alguns corpos deixa páginas de seu diário. O noticiário é uma fonte de indícios, pistas, mas quais as relevantes? Quais as verídicas? Eu próprio não sei o que represento aqui. Será que ela está certa? Mesmo considerando que tenha se identificado como a filha de uma assassina em série e que deveria, 20 anos depois, seguir a exaltação de sua mãe, um distúrbio, sim, porém convidativo a ser encarnado. Tudo em nós está repleto disto. Algumas causas são tornadas magnânimas quando não passam de exploração da ignorância alheia. E agora esta jovem sentindo-se como alguém tocada pelo mistério de seguir a trilha daquele olhar desperto na tv. O mundo não passa mesmo de uma falsa ilusão. De tal maneira que quando o delegado me procurou com uma carta a mim dirigida, ao abri-la, descri por completo da legitimidade. Seguindo as indicações, encontramos os três lugares onde, retalhados, foram localizados os corpos dos avós. Porém aquele manuscrito não era ela. Idêntico o estilo da escrita, porém o motivo se me revelava outra autoria.

[Os três poderes desacreditados são como corpos esquartejados cujas postas não voltam jamais a se encaixar. Ao confundir-se a pátria com a imagem-mãe, como não mutilá-la quando quer nos absorver, nada mais?]

Imaginei encontrar algo, página do diário que elucidasse o cenário tripartido. Rabisquei o que poderia ser o desdobramento do motivo. Uma nebulosa, sim, mas algo me dizia que havia sido plantado: uma pista falsa, a artimanha da incriminação.

[Incriminai-vos uns aos outros. Nenhuma verdade deve sobreviver.]

O charuto do delegado também contribuía para dissipar algum raciocínio. Insistia que eu lhe desse o paradeiro de minha cliente, mas se a metêssemos na cadeia decerto as remissões se perderiam, os engates entre situações apenas aparentemente desconexas. A mãe integrava um grupo rebelde de anarquistas pirados, figuras patéticas que amontoavam vítimas ao acaso, observando apenas a classe social a que pertenciam. Defendiam paz e amor sem restrição, aniquilando disposições em contrário.

[Todo poder é cancerígeno. A realidade humana se destrói de uma maneira ou outra. O que chamamos de vida não passa de uma atividade extrema de sobrevivência. Isto não quer dizer que se tenha que sair a matar gente a todo instante. Contudo, para eliminar certos riscos sistêmicos, torna-se inevitável que liquidemos os focos de infecção.]

Vivemos em sociedades competitivas – treinados desde crianças em táticas de concorrência, eliminação, conquista. Onde ela estaria agora? O maldito charuto me dispersa, e o imbecil do delegado não pensa senão em desfazer-se dessa tarefa. O crime é mera burocracia aos olhos da polícia. A justiça melhor detém-se na astúcia, entende melhor de ardis e malícias, talvez por administrar outra natureza da rotina. No fundo, trata-se apenas de uma relação entre o flexível e o inflexível. O que fazemos todos é seguir padrões. Matar é um ato extremo? Não, não mais, temo o que digo, mas hoje o inaceitável é ferir um padrão. O crime pode ser ocasionalmente visto como uma flexibilização das relações sociais.

[Estes mortos são indispensáveis. Estamos anestesiados pela democracia. O país à míngua. A casta intelectual, uma agregação de nossa miséria. Pequenos focos de resistência são retrógrados. Filhos não há mais. Urgente dispensar formalidades de praxe.]

O telejornal expunha a pilha de corpos, dirigentes na câmara, no senado, entidades de classe, grupos contrários ao governo, ministros. A nação praticamente acéfala. Já não posso com ela. Sei que jamais mataria os avós, porém não posso mais aceitar isto. Disse ao delegado que engolisse seu charuto, ao desistir do caso. Em que estes 20 anos de democracia se parecem com a maneira como fui esquecida por meus pais? Onde estão? A reação diante do rosto de minha mãe na televisão é a própria face de uma nação apaziguada por atenuantes. Não se espera que transgressões ingênuas do passado se repitam. Um de nós amadureceu. Não faço a menor idéia de quem sejam eles. Quem fundou este grande abismo? A quantos senhores serve a inocência de minha mãe? Tão ingênua que, da prisão, recorre a foragidos de seu bando de imbecis para matar meus avós. Um crime-imagem, sim, porém falsa imagem que apenas incrimina sem atentar para a essência. O usufruto do símbolo é que está nos derruindo. Entrego-me ou não? Crer em julgamento justo é a pior das canduras. Julgar o outro ou a si mesmo é um ato essencialmente injusto. Entrego-me ou sigo empilhando corpos?] Durante toda a semana a imprensa praticamente não tocava em outro assunto. A constante não era simplesmente a morte. Os corpos anunciavam a razão do crime tanto no estilo dos golpes quanto nas folhas de um diário, deixadas quase sempre sobre eles. Voz discordante da situação delicada a que chegou o regime democrático em nosso país? Voz consciente dos riscos de credibilidade de seu discurso? Não fosse o combinado de distúrbios entre uma ponta e outra do ardil, tudo não passaria de mais uma página da crônica criminal. Para qualquer um, repórteres, lidar com a delicadeza incendiária do tema é fascinante, quando muito. Os olhos saltam. Sim. Mas tudo isto é tecido morto para a direção dos jornais. Há muito escrevo sobre esportes, pois de outra maneira estaria me desgastando na profissão, sempre em confronto com a administração. Li em outro jornal um detalhe sobre a matança operada pela jovem de 20 anos, cuja vida estava em bom curso, criada pelos avós, dedicada aos estudos, e de repente um sinal televisivo a desperta para uma onda de crimes, a partir da furtiva transmissão cria um padrão de reação que difere das mortes cometidas pela mãe tão-somente porque às suas imputava uma crença política. O assassinato convertido em represália. A coincidência do hiato entre dois pontos fundamentais: a mãe criminosa que a abandona, para que seja criada pelos avós; o país fictício que evoca, que viveu idêntico período açodado por uma falsa constância. De um momento para outro quer recuperar a verdade sobre as duas malogradas conjunturas. Descobre então que a verdade é a perfídia institucionalizada. Para onde encaminhar uma alma assim? O mundo será mesmo um desastre pleno? Sinais de corrupção, degredo, avaria existencial… Nem precisaríamos de seu diário extraviado sobre as vítimas. Quantos somos dentro de cada uma delas? Quem muda isto? O que ela pensa haver despertado? Quantos saberão identificar o país a que se refere? Qual? Onde ela? Onde o olhar dentro de mim? Quem me escreve? Quantos se confundem nas mesmas anotações? Quem nos prende? Quem nos julga? Não cortem o sinal. O que houve? Alguém responda. A transmissão se foi… O personagem vai se desmaterializando na medida em que reflete sobre um duplo enredo refém do tempo. As vozes se misturam de tal forma, dentro e fora de si, que já não se arrisca a entendê-las sob este prisma ambiente. É provável que enlouquecesse ainda mais ao delinear o tempo de origem dos fantasmas que lhe assaltam. Quem anda a cometer os crimes? Serão mesmo múltiplas as vozes? Não nos vemos mais diante de nada.

[Eu quero parar de matar. Não posso levar a vida inteira a cumprir um capricho do destino. Resquícios insanos do que venho cometendo se revelam cada vez mais freqüentes, sem que eu me recorde de uma única cena por inteiro.]

Há poucos dias um militar da reserva declarou que era impossível ter uma idéia geral da insurgência e suas inúmeras faces. Íamos amofinando os focos mediante as informações que recebíamos. Não deixávamos escapar nada, mas a todo instante surgia uma nova denúncia. Era uma operação incansável e os corpos se amontoavam no vazio, pois tínhamos instruções de não deixar nenhuma pista. Como dizer agora que uma maluca influiu nos atos de uma filha que não conheceu e fez dela uma assassina em série cujas vítimas são indicativos que nos incriminam? Nossos mortos não são frutos de uma insanidade. Defendíamos a nação de um perigo imensurável. O governo se via infiltrado por uma demência ideológica. A ordem se perdia em manobras falaciosas. Era preciso reagir, estancar aquele vazamento, sim, desfazer-se de tantos rebeldes, uma gente incompreensível. O general falava em meio a uma explosão de retinas em que os corpos esfacelados na instância criminal se convertiam em despojos de um regime de exceção. Quando havia algum ruído, um aceno de dúvida, surgia uma tábua virtual que, em sua indagação, concentrava todo o sarcasmo do mundo: quem fala? Mas todos falamos sem abrir a boca e o que dizemos sai sempre dos lábios de outro. Para onde vamos ao sair daqui? Para outra comemoração, outros 20 anos de alguma virtude perdida. A repetir tudo, sempre. Alguém liga a tv no momento em que se noticia o desaparecimento dos integrantes de uma comissão que investigava subornos na esfera governamental. Na semana seguinte os membros do congresso receberam correspondência contendo a fotografia de um dedo. Distintos dedos para cada um, todas as mãos da comissão cujo paradeiro desconhecíamos.

[Jamais eu ligaria a tv. Não sei a que espécie de fatalismo ela recorria, minha mãe. Haverá um ponto em que a indecisão anula toda perspectiva de liberdade? Decerto que há uma hierarquia de modelos. Os meus avós me diziam o bem acima de tudo, mas quem assimila uma herança tão vaga? Se os vivos já não se compreendem, apenas o extermínio os identifica.]

Este é o inferno para onde todos, os que vivem a celebrar datas, pautar a vida às expensas de pequenos vícios ordinários, crenças simplórias no mito da experiência. Será sempre isto, a mesma cena. Em pleno estado de repouso. Nenhuma estática. Nenhum êxtase. Todos nós. Como ventríloquos uns dos outros.

Floriano Martins (Brasil, 1957) é editor da Agulha – Revista de Cultura (www.revista.agulha.nom.br), e curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará.
 

 

 




 



hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano