PÉTALA
a noite um olhar descoberto
como uma pétala
no escuro.
MÓBIL
Pregueada no tempo
desenvolta em cenários
deslizando nos móveis
quando correm os olhos
parados
a tua imagem caída
camuflada silêncio
nas horas
estancadas memória
movediça.
OUTRA FATIA
ouço tua voz
no intervalo das sílabas mais mudas
do rastro
da tua língua
UM AMONTOADO, DE TELHA
o teu rastro me assinala
como um amontoado de telha
com sombras, musgos, raios
quedas folhas cócegas
cantam por baixo dos pés.
BECOS DE PELE
Pisou a espinha como um corpo mormaço
Fundou folhas secas como esquinas
E partiu
como passos nas costas.
A CIDADE, O SER
a cidade está curvada
como uma taça seca
esquecida
e vulnerável
como uma mão
bebida.
A NOITE
a noite termina
com lâmpadas acesas
como uma ausência
à porta.
NA VOZ DAS JANELAS
Eu posso te tocar o lábio, te soprar o olho, te rimar a face
Eu posso te sonar a espera, te afinar a busca, te entornar a ordem
Eu posso escandir teu som, libertar teu verso, rasurar tua língua
Eu posso entupir de letra toda a partitura de teu gozo cru
Eu só não posso esperar as portas ritmarem ilesas os verbos das tuas mãos
enquanto
o vento morre gasto nas outras janelas.
BREU
Algo com que turvo
Com que força
Escuro e léu
Rasga com que pinça
Com que broto
Piche desintegra
Uma flor negra
Com que rega
Sepulcros no céu
AGORA,
há tantos postes tateando a ausência
como pelos na superfície dos gestos
poemas: dheyne de souza
Imagens: floriano martins
hospedagem Cyberdesigner: Magno Urbano