::::::::::::::::::::::::Floriano Martins:::::::

EM CONTRASTE:
UMA CONVERSA COM FLORIANO MARTINS
Erico Baymma

Durante três anos, no mínimo, tive o privilégio de contar com o desenvolvimento de uma grande amizade e compartilhar a grande paixão pela música com Floriano Martins. Seu raciocínio ágil, suas articulações “inter-discursivas”, seu conteúdo vívido, além da nobre e querida pessoa, sempre me instigaram a vir, formalmente, a fazer uma “ entrevista/ bate-papo” um pouco mais sério do que normalmente costumávamos encadear em nossos desvarios musicais. Sempre tivemos como pauta discussões sobre vida, cultura, arte, música e mercado, chegando mais próximo a esclarecimentos no desenvolvimento de arte e linguagem, movidos pelo instigante mundo que nos orienta, fascina e apaixona. A conversa a seguir é fruto de ambições e pesquisas pessoais em torno do grande acervo musical a que temos acesso, na perspectiva da representatividade de obras e a que elas induzem e/ ou, mais importante, de que modo é cerceada uma elaboração mais completa de uma rica produção cultural, mais condizente com um processo de elaboração eficaz de linguagens artísticas. A observação paira no mundo da epifania ou da tradição morna a que a música é forçada a se encarcerar. Certamente, foi um grande prazer contar com a paciência de Floriano Martins e podermos nos desafiar ao encontro de um ponto comum ou completamente divergente, que é próprio da indústria cultural, das linguagens e da vida. [EB]

 

EB Oscar Wilde diz que a “arte é essencialmente inútil”. O que você fala sobre um século que chegou ao limite do desprazer e desencanto, recheado de arte e poesia pelo e através do ser humano?

FM Ora, mas o século também teve picos de grande encanto e de grande prazer. Um balanço em tais proporções será sempre leviano, demasiado parecido com essas edições retrospectivas, ao final de cada ano ou década, de revistas semanais ou do telejornalismo. O que se passa é que aceleramos a vida de uma maneira mais veloz do que nossos sentidos poderiam captá-la.

EB Inquestionáveis os momentos de encanto e prazer (?)… Em que ponto houve uma profusão em que o balanço é lucrativo? Você fala então que as pessoas estão atualmente alienadas, dentro de um arsenal de encantos e prazeres que não encontraram público (ressonância, para um melhor aproveitamento da informação gerada)? Não há possibilidade de pegar estas informações e desenvolvê-las? Há uma defasagem entre história feita e a ação de reconhecimento desta memória, para solucionar estas hipóteses jogadas no tempo? Há alguma atividade humana em que se estabelece um equilíbrio, ou pelo menos uma “atualização”, com respostas desenvolvidas, uma inteireza?

FM A música que tanto nos define, a começar pela Bossa Nova, que tens como um gênero de preferência… Toda a tecnologia que nos permite estar aqui neste momento, realizando esta entrevista pela Internet… O cinema, hum, o cinema… Mas olha, talvez o ideal fosse evitarmos falar de um período tão extenso, que é sempre ardiloso, e nos determos no momento atual, onde se verifica, sim, um largo processo de alienação, de embotamento de sentidos. Evidente que a história é pautada por aspectos positivos e negativos. Eu sou um pessimista produtivo, ou seja, me recuso a ter uma visão catastrofista do mundo. Agora, a tecnologia foi utilizada no sentido de aceleração da história, criamos uma falsa vertigem que é operada de maneira a nos deixar tontos, privados da percepção. O espaço urbano, por exemplo, está tomado por uma avalanche visual que conduz à cegueira. O ruído que se produz em uma cidade como Fortaleza, por exemplo, conduz unicamente à surdez. Os canais vitais de comunicação entre as pessoas estão sendo estancados. Somos expectadores paralisados pela grande alegoria do mercado. Uma boa indagação é se teríamos como frear a propaganda. O equilíbrio que mencionas funciona como um sinal de resistência, sim, porém pautado por ações isoladas, sem poder de impacto algum. Essencial, claro, porém ainda carente de exercer influência.

EB Sim, essa poluição “existencial” tem sido um caos. Até a realidade “comum” está pautada na maior tragédia. Vê-se que a percepção humana a respeito da tragédia e da miséria tem sido forçada ao nível de caos, numa necessidade da experiência visual, para que cada indivíduo entenda “Olha, que absurdo aconteceu”. Estamos recorrentemente acorrentados à ilusão da realidade virtual que a TV projeta e pensamos que está resolvido, pois está “lá”. E isso se vê em todos os níveis, inclusive da propaganda. Lembro-me ter visto em New England pequenas cidades lindas, limpas, bem cuidadas e suas lojas “limitavam-se” a um nome discreto na fachada. Eu achei isso sensacional, mesmo porque tive que apagar meu cigarro e não sabia onde apagar… rs… Mas, voltando, essa questão da cega percepção é uma de minhas grandes preocupações e tenho atestado em minhas aulas o quanto nós temos que reeducar o aluno a ver e sentir o mundo, na dimensão humana - principalmente pelo “fazer artístico”, já que lido com pessoal de teatro. Então, nesses pontos, o que poderia ser feito em termos de “revolução cultural”, mesmo que saibamos que tenha que ser a nível individual, mas que a conscientização do indivíduo vai torná-lo um multiplicador desse provável crescimento cultural?

FM O mais urgente seria reeducar os professores. No geral, quando não são falsários disfarçados de vítimas do Estado são uns pobres diabos que se caracterizam unicamente por aquela boa intenção de que o inferno está lotado. As exceções seguem apenas confirmando a regra. Estrategicamente falando uma grande urgência seria reparar o mal feito ao dissociar cultura e educação, separando os ministérios e criando assim uma impossibilidade de conexão entre as duas pastas. Filiando a cultura ao turismo, institucionalizamos uma relação promíscua. Revolução cultural? Não haveria nada como livrar-se da semântica casuística de nossa casta intelectual e política. Envolvimento, querido, há que envolver-se com o que se faz. Claro que não se pode decretar envolvimento, porém o Estado pode dar o exemplo, pode envolver-se seriamente com a situação concreta, real e alarmante da indigência cultural deste país, pode mover ações no sentido de se criar um sentimento de urgência sociocultural. Alguém neste país tem que descer do palanque e lidar seriamente com o estado de miséria em que nos encontramos.

EB O indivíduo se resgata onde? Há meios? Vejo um crescimento pelo menos “editorial” (econômico) em lançar informações e mais informações… O tal do mercado… Há um Tao para isto tudo?

FM Não há receita, justamente por se tratar de uma ação individual. Inclusive quando falas de “realidade comum”, ora, toda realidade é incomum. Há um falso mito da realidade comum, geralmente um doping da propaganda que lida maquiavelicamente a seu bel prazer com os conceitos de igual e distinto, manipulação grotesca que visa apenas ampliar o volume de negócios. O mercado não despeja em público um caudal de informações, mas sim de opções de negócio. Esta é sua função. Como o mundo já está irremediavelmente vulnerável às ações de mercado, sua influência se torna menos ou mais violenta a depender do nível de educação de cada sociedade. A cultura é o único obstáculo possível à volúpia destrutiva do mercado. Claro que não falo aqui de cultura resumida a entretenimento, como insistem mídias e determinados governos.

EB Você diz então que a solução para um “indivíduo” se fundamenta na educação? Que tipo de educação? Você diria, por exemplo, que Paulo Freire teria dado um passo importante, com suas teorias sobre educação? O que você acha da arte-educação? E o que você acha da educação que se faz com arte, através dela (ou pelo menos através do estímulo da criatividade e, em conseqüência, do senso crítico).

FM Nós perdermos o trem da história em diversas ocasiões e seguimos nisto, com um talento muito especial. De maneira que não cabe lastimar o que ficou para trás, e sim tratar de compreender o que temos pela frente. Eu falo em criar pontos de resistência cultural em um país que visivelmente reverencia o medíocre e descarta seus potenciais mais consistentes. Pensemos na riqueza musical deste país, no aspecto fundamental que seria propiciar uma educação musical para todas as crianças, tornar a música de ensino obrigatório, o ensino de instrumentos e também da história da música. Imagine o efeito multiplicador do amor pela música passado de um Hermeto Pascoal para seus músicos e a maneira como este amor foi desdobrado, citando aqui o exemplo da Itiberê Orquestra Família. E garantir a diversidade, sempre. Somos um país essencialmente mestiço e agora se discute cotas de negro na universidade, que é uma forma de acentuar nosso racismo. A grande riqueza deste país está em sua condição mestiça. Não temos brancos ou pretos. Somos todos mestiços. Temos que aprender a lidar com isto. Temos no Ministério da Cultura um preto de alma branca, um esperto que advoga em causa própria. E um governo sem projeto cultural algum. Claro que não se trata de uma característica deste governo, mas sim de uma condição endêmica da administração pública no Brasil. A chamada arte-educação, da maneira como é praticada entre nós, não vai além da irradiação de uma pobreza espiritual, repetimos mecanismos gastos, preconceituosos, racistas.

EB Concordo com você que a arte-educação também está viciada no que prevalece uma disciplina de aceitação que nem ecoa da nossa própria cultura. Mas, isso pode ser extenso à maioria de nossos “fazeres”. Visivelmente vemos que não há um projeto cultural do governo, até porque se está confundindo produção cultural com ação social, também - e nenhuma das duas funciona legal. Está sendo aprovada uma lei que torna obrigatória a educação musical no currículo escolar. Mas, aponto para um [des]norte que é a decaída da formação cultural e musical, durante os 20 últimos anos, por exemplo. Isso já nos traz uma geração inteira completamente à parte de sua história e de uma “condição estética” para avaliar criticamente a realidade e produzir coisas boas. Hoje, quais são seus referenciais culturais, quais os que você vê equivocados dentro de toda a indústria de informação e quais ainda são possíveis observar como “saudáveis” para uma geração que está fazendo 20 anos agora (ou pra qualquer pessoa).

FM Ora, se o brasileiro possui algum talento especial é justamente o de burlar a lei. Aquele toque magistral de malandragem que nos irmana a todos, para o bem e para o mal. Quantas leis não se fazem cumprir neste país? Além disto, tens razão em um aspecto ainda mais preocupante: nossa deformação cultural chegou a um ponto tão alarmante que hoje o risco maior seria educar-nos a partir dos atuais parâmetros. Seria algo ainda pior do que pôr a educação do país nas mãos desses formadores de guias nas tais visitas guiadas de museus de arte. O país vive uma grande mentira em termos de formação histórica, de distorções provocadas por interesses cartoriais, onde claramente a arte mal consegue sobreviver a tal vandalismo sistemático. Críticos, jornalistas, formadores de opinião que pautados por preconceitos ou lucro estratégico, se puseram a supervalorizar aspectos de menor importância em nossa cultura e seu revés. Ora, novas gerações foram formadas com base em tal giz. E hoje os mais novos são educados justamente por eles. Círculo vicioso completo. Não se trata de quais são as minhas referências culturais, mas sim de entender que é fundamental não induzir crime algum. Todos nós devemos ser educados na diversidade e com a máxima honestidade possível. Há que transmitir informações, técnicas, instrumentos, tudo, com uma grande liberdade de opção. E fazê-lo de forma íntegra.

EB Qual é a sua visão sobre a impactante ação de revivals, sobretudo a respeito deste mega-lançamento de Love, dos Beatles. Qual a contribuição que eles deram à nossa existência?

FM Cultura de fetiches. A indústria de fetiches é um fato e atua no mundo inteiro. Eu gosto muito do fato de que os Beatles em um dado momento tenham se separado. Foi saudável para eles e para nós. Esta insistência em remontar bandas da época é uma coisa patética, parece sempre aquilo de artistas em fim de carreira que começam a reduzir cachês e aceitam tocar em clubes de subúrbio. Os Rolling Stones ainda não chegaram ao ponto lastimável de um Deep Purple ou de um Pink Floyd, mas é só uma questão de tempo. A sobrevivência estética ao longo de décadas é algo que se verifica em pouquíssimos casos, fazendo hoje um balanço do rock. Acho que um grupo como o Jethro Tull soube envelhecer com certo frescor, algo raro no meio. Evidente que o trabalho do George Martin que mencionas está em outro contexto, e merece uma atenção especial pela alquimia que propõe. O resultado é fascinante, sim, porém pode ser lido como da seara dos revivals, como a edição anterior do Let it be… Naked, o que não cabe aqui. Contribuições? Olha, os anos 60 são um grande buraco, ao que parece a América toda meteu os pés pelas mãos, confundiu liberdade com indolência, e para muitos até hoje o efeito da maconha não passou. É duro ter que voltar até os anos 60 para reconstruir uma série de situações, porém eu vejo isto como algo necessário. Como uma lacuna imperceptível que leva alguém a fazer análise.

EB É interessante esta sua visão sobre os anos 60, pois de alguma forma combina com a minha e, na verdade, pra mim, se concretize nos anacronismos gerados pela importação de cultura e costumes. Claro que a importação sempre houve e sempre haverá, mas as identidades andam muito “desandadas”, não? E, também, tem o fato do mito dos anos 60 terem sido libertadores em comportamento, apesar da ditadura - baseado no Woodstock…

FM Há uma distinção a ser feita entre importação e diálogo. É óbvia, claro, mas da maneira como te referes a importação parece haver aí algum sentimento xenófobo. Thomas Merton alertava nos anos 60 para outra distinção, entre solidariedade e coletivismo. Perdemos este sentido, e coletivismo hoje é um eufemismo para a brutalidade social em que nos convertemos. A idéia do artista como um testemunho da liberdade, que tanto evocava um Albert Camus, também foi destroçada, e o artista hoje é submisso ao sistema que então contestava, naturalmente ampliado graças à adesão de um cúmplice tão nobre. Ou seja, quando o sentido impopular de rebeldia é absorvido pela simpática propaganda de uma velha calça jeans desbotada, a indignação se dilui em espectros, alucinógenos e romances astrais. Agora, a ditadura militar no Brasil não freou substancialmente nenhum processo cultural.

EB A mesma visão sobre o rock internacional pode ser aplicado à música brasileira? Há os que critiquem o termo “Música Popular Brasileira” e ainda dizem que está em processo de falência. O que você acha dessa questão? O que você acha das veias alternativas por onde estão escoando novas produções musicais - que já tomam vulto e agregam medalhões? Instrumentistas e compositores que não têm mais vez no grande mercado já se articulam num processo de produção alheio à indústria e, também, à sua revelia, já conseguem fazer a distribuição com eficiência. Como você citou, temos a ótima Família Itiberê e mais tantas e tantas outras! Sem nos preocuparmos com rótulos, o que vem a somar este tipo de produção, que não tem uma grande mídia sobre elas? A que ponto você indicaria a Internet como responsável pela difusão deste “conhecimento específico” (o acesso às obras musicais) ou você vê algum processo em andamento que dê uma boa referência?

FM Isto que propões é um mundo de reflexão. A chamada MPB é uma marca de conveniência. Atendia, na época, a uma classificação que se foi denegrindo, e que hoje comporta o que há de mais medíocre no ramo. Outro aspecto é o empenho editorial de alguns novos selos, que essencialmente buscam formas de sobrevivência em um mercado insano, onde a adesão que acabam conseguindo de alguns medalhões - como mencionas - é impossível saber se decorrente de algo que não seja o espelho de uma oportunidade. Não há processo de produção alheio à indústria. Há, sim, apropriações em escala menor de processos industriais. É distinto, porém não tanto. Tudo tende a crescer, por lei natural. Portanto… A itiberê Orquestra Família é um caso muito particular, porque implica não somente no resultado musical, de difusão da obra pronta, mas antes, essencialmente, põe em discussão o próprio processo de criação e de comunicação entre músicos. Seja como for, não há dúvida de que a música instrumental no Brasil hoje se destaca em relação à sua contemporaneidade na área da canção popular. Não há percepção de mídia porque o país é excludente por natureza, o que é uma aberração se consideramos a grande fortuna mestiça de nossa cultura. Padecemos daquela síncope nevrálgica dos teclados eletrônicos de festas de buffet, ou seja, programamos boleros, sambas, forrós, merengues, para uma pasteurização rítmica, o tudo que é nada e se aplica a qualquer circunstância. A Internet não se responsabiliza por nada, porque não passa de um instrumento. É como um pincel ou um violão, nada mais. Se não me indagas agora coisas bem específicas, eu vou acabar passando pelo chato de quermesse.

EB Êpa, não se “emburre”, não! (risos) Você fala de coisas específicas, enquanto eu vejo esse arsenal agrupado no nome MPB - que não configuro como marca, contrário a você, mas como um título, como se fala “música instrumental brasileira”… a MPB agrega, no meu conceito, canções. Por isso vejo a questão por outra ótica. Vejo que depois dos “Finos da Bossa”, a Elis Regina, por exemplo, começou a cantar mais “o Brasil” e foi uma grande propulsora desta máquina chamada de indústria da música popular brasileira. Depois, tivemos algum reconhecimento no samba, que tinha Clara Nunes, entre outras. Nos anos 90 a Rede Globo fez um especial chamado “Homem 90”, que me espantou assombrosamente porque os que estavam lá eram os “homens 60” - todo o pessoal que “construiu” essa indústria que começou a se espatifar desde o início dos anos 80 - o que coincide com a morte da Elis e que pra mim é um indicativo e tanto desta “desgraça” na música brasileira. Pois é… ao largo vieram Caetano, Gil, Chico que dirigiam o caminhão da MPB - não estou falando sobre qualidade. Mas, agora falando, em que termos os medalhões tipo Caetano, Gil, Chico, o rock nacional e outras “levadas mais” representam algo de nosso (sem purismos)? E os “outros grupos” incluídos Alceu Valença, Geraldo Azevedo e tantos outros mais… Como é que você constitui esse quadro, sem levar em conta a péssima qualidade musical da música tragicamente comercial? Digo tragicamente pois, pra mim, é um verdadeiro absurdo falar em “mercado alvo”… O que tem de artístico nisso?

FM Acho valioso o trabalho do Almir Chediak, de grande importância em um país onde não se percebe a presença de um projeto estético em quase nenhum de nossos intérpretes. Todos atiram a esmo à espera de uma aprovação do mercado. Chediak sistematizou uma série de valiosos encontros entre bons intérpretes e alguns de nossos melhores compositores. É uma lástima deparar-se com a lassidão ou negligência de repertório em intérpretes como Alcione ou Gal Costa, além do desperdício imenso de talento em uma Paula Toller ou na Cássia Eller - esta, a exemplo da Elis Regina, deixou-se estupidamente morrer. Aos poucos a chamada MPB foi se tornando essa pasta babosa que inclui todo um musak preparado para atender à pista de imbecilidade da televisão. O curioso é que boa parte do elenco que poderia ao menos conduzir este processo com um pouco menos de indulgência, fez questão de tornar-se seu propagador, quase um emissário. Não há rock nacional. Esta é outra bobagem. Há apenas rock. Mesmo que um chinês componha um bom tango, ninguém na China o entenderá como um tango nacional. Será sempre tango. Como sempre jazz. Como sempre samba. O Cazuza se aproximou melhor do blues do que propriamente do rock. A essência da cultura brasileira é a mestiçagem. O que temos de mais rico está baseado justamente na mistura. O choro ou a bossa nova, por exemplo, vêm desse sentimento nato de mestiçagem.

EB Concordo plenamente tanto com a idéia da “natureza da música” não ser tão assim ou assado - embora possamos falar da diferença de qualidade do rock inglês e do americano, por exemplo - como o imediatamente citado Cazuza que esteve tão perto do blues. A Cássia Eller possui um CD inédito com o Victor Biglione, que não foi lançado em vida pelo preconceito “mercadológico”… Não iria vender. Há alguém que escape desta artimanha que é o “como estar na indústria e realizar o que quero”?

FM Sim, claro que sim, são em grande parte identificados com os planos da indústria. Não há como pensar em um Stevie Wonder, por exemplo, de outra maneira. É uma grave contradição. São entendidos como figuras alheias a este mundo, porém se utilizam do mesmo mecanismo quando surgem com um novo trabalho - um novo, a rigor, bastante discutível. No Brasil, há sobremodo o caso do Chico Buarque. Obra póstuma, por referência ao CD inédito da Cássia Eller, pode ajudar em reconsiderar a integridade estética de um artista. Espólios podem também desbancar prestígios. Só não sei o que é isto de rock inglês ou estadunidense. Pensemos no canadense Leonard Cohen ou no estadunidense Tom Waits. Não são propriamente rock. A variante do rock aclimatada como pop - um híbrido que hoje permite o acasalamento de vários instrumentos e tradições musicais - tomou cursos diversos. O equívoco maior foi justamente a catalogação de uma world music. Isto não evita que um de seus mentores, Peter Gabriel, tenha oscilado entre o melhor e pior desse novo gênero.

EB Mas, Floriano, pelo que sei o projeto World Music do Peter Gabriel é profunda e essencialmente diverso do que veio a ser a world music como veio comercial. Peter Gabriel lançou vários discos por seu selo, com uma profunda pesquisa musical em um momento em que ele, de alguma forma, se mesclou ou apresentou novas músicas regionais. Não seria equivocado, por exemplo, colocar este caráter ao projeto do Peter Gabriel ao do não menos talentoso Paul Simon - um pouco tendencioso, mercadologicamente, e divergente da concepção - no álbum The rhythms of the saints, que é um bom trabalho, mas que ganha em seu corpo marcas explícitas demais de oportunismo?

FM Sim, porém identificado e não rejeitado por ele. A “profunda pesquisa musical” não garante a valiosa resultante estética que se espera da arte. Acadêmicos e pesquisadores quase sempre são artistas equívocos. Esta condição explosiva da arte pode em muitos casos ser ofuscada ou deteriorada em nome da “profunda pesquisa musical”, que em muitos casos assume uma conotação professoral, arrogante, como artifício para legitimar sua frigidez. Basta pensar na distinção existente entre José Miguel Wisnik e Chico César - aliás, o Chico César possui talvez a obra mais consistente de toda a sua geração. Não vejo sinceramente em que Peter Gabriel e Paul Simon se distingam no âmbito em que propões. A diluição de Paul Simon em The rhythms of the saints era previsível. Por sorte ele se recupera em Songs from the Capeman, que é uma dessas grandes aventuras da unidade, cada vez mais raras em termos de canção popular. O Peter Gabriel é um belo indicativo dessa unidade a que me refiro, porém o resultado quase sempre me parece algo insípido. Esta é naturalmente uma questão de opinião. Nenhum dos dois pode ser incluído no rol dos grandes canastrões da música pop, ou world music, ou canção popular, ou qualquer outro rótulo mercadológico que se busque. Nenhum dos dois pode ser comparado, por exemplo, a essas debilidades narcisistas que são um Rod Stewart ou um Caetano Veloso, uma Madonna ou um Elton John. O pior é que essa trupe ainda é modelo para muita gente.

EB Bem, eu sei que você não é adepto à xenofobia e é um “pesquisador voraz”, tanto quanto eu, das músicas todas desse mundão. Quem ou em qual região, ou estilo, está produzindo “melhor”, musicalmente, a seu ver? Como e qual seria uma representação cultural mais significativa desse vão contemporâneo?

FM Não, não. Os exemplos podem ser inesgotáveis, considerando o dentro e fora do mercado. Eu teria que explicar as circunstâncias de cada tradição, de cada país. Isto que me pedes é uma loucura. No Brasil, sim, a canção enfrenta seu pior momento, é uma excrescência do ponto de vista formal e no significado, na expressão de uma crítica ao ambiente que a define. A música instrumental ganha, por outro lado, uma força imensa, porque reconhece a tradição e se põe a dialogar com ela. Este é o grande dilema que temos que enfrentar: a ruptura se define em face da tradição, o que significa dizer que não há ruptura sem tradição. Parece óbvio, não? Então por que raramente consideramos no Brasil nossa tradição?

EB Sei que é impossível fazer uma síntese do universo musical, por sua complexidade - ou talvez pela própria complexidade, seja um quadro favorável ao momento após, neste caminho irrefreável em que a Internet joga todos os conteúdos musicais, com a deficiência mercadológica em se tornar acessível em certos tipos de trabalho. A que ponto essa profusão de linguagens e a complexidade de suas locações são algo viável para a vida?

FM Todos levamos uma vida de aparência. A mídia se aproveita disto. Governos se aproveitam disto. A arte se aproveita disto. A religião. A ciência. Não se trata de complexidade das locações, mas sim de seu desnortear. Herdamos sempre o pior, o aspecto mais maquiavélico de cada nova descoberta. No que mais a espécie humana tem se especializado é no ludíbrio do outro, sem que perceba que isto se trata do aniquilamento de si mesma. Não importa a profusão de linguagens. Esta não é a questão. Já sabemos a quanto estamos dispostos. O que não sabemos ainda é quanto suportaremos.

EB Agradeço sua paciência e sua generosidade em dividir esse arsenal de informações dentro da paixão essencial que é a música. Há algum ponto que o motive a acrescentar algo a este nosso bate-papo?

FM Sempre há. Sempre há. E sempre recordo Fellini ao comentar, ele mesmo em cena, ao final de um de seus filmes, sobre a nossa obsessão por um raio de sol. Como a vida não se conclui nem mesmo na morte, de que me serve um raio de sol em seu sentido de apontar uma nova direção, sim, mas que seja sempre uma esperança? Simplesmente porque viver é a grande esperança. Sim. Porém viver é conviver. Há que saber mesclar os pratos dessa balança, o que é dádiva, o que é conquista. Quem faz música é um de nós. Deveria sentar e cantar pra nós. Um raio de sol?

 

Érico Baymma (Brasil, 1961). Músico e compositor. Gravou os CDs: Artesanato (1997) e ImageShadow (2003). Trilhas sonoras: Conto Logo, Quanto Louco (1991 - Prêmio de Melhor Trilha Sonora), O Alvo (1993), Eu chovo, tu choves, Eles chovem (1996 - Prêmio Destaque do Teatro Cearense, Direção Musical), A Guerra dos Bárbaros (2003),  Inferno 1932 (2004), e Ballet Espaço Vazio (2004).

Contato: erico@ericobaymma.com.br.

 
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