Floriano Martins & Claudio Willer:
O Brasil que temos e o que não queremos
20/11/2007 20:25:00

Costuras, enlaces, intercâmbios culturais, em épocas e ambientes geográficos distintos, sempre foram enormemente facilitados e em muitos casos de maneira isolada pelas revistas literárias e revistas de cultura. São mecanismos comprovadamente eficazes nas aproximações de ambientes que até então se desconheciam. A seu lado, com menor freqüência, porém com acentuada influência, encontram-se antologias e compilações. Atuando nos dois casos e também ampliando este mapa de uma generosidade (não é outra a matriz desta avizinhação, deste reconhecimento do outro em si mesmo) apresentam-se os tradutores. Em último termo, é através da leitura e consequentemente do livro, da publicação periódica, impressa ou virtual, que os povos se conhecem e reconhecem entre si.

 

Essas ações, que em muitos casos são gestos solitários, além de solidários, por vezes se chocam com interesses de classes dominantes, o que inclui tanto o autismo de governos que supõem limitar-se ao plano econômico todos os matizes que caracterizam a essência humana quanto os mecanismos até certa medida pérfidos (ou radicalmente pérfidos) de uma ala da grande imprensa que ainda vê nos despojos ideológicos uma maneira de afirmar sua incapacidade de aceitar o mundo a tentar refazer-se de um amplo saldo de restrições onde ela também ocupa relativa parcela de responsabilidade. A rigor, o mundo (até onde existe, apesar das distâncias encurtadas pela tecnologia) carece de vida própria, aos olhos desta imprensa, que trata de camuflá-lo com variáveis quase imperceptíveis, de viciá-lo em enfadonhos lugares-comuns, de induzir-lhe fórmulas de apreensão da realidade, anulando assim a capacidade de percepção, o diferencial entre indivíduos, povos e culturas.

 

Pode-se dizer que sejam antagônicos os desempenhos, em linhas gerais, de revistas, compilações, tradutores, de um lado, e governos e grande imprensa de outro. Como não estamos em um campo de batalha, não é nada agradável ou cômoda tal constatação. Não nos interessa a ninguém, em circunstância alguma, manter a tônica do assunto situada na afinação de instrumentos bélicos, na confirmação de um princípio conflituoso. Deve ser outra a reação a ser esboçada em nosso tempo. Velhos maquinismos aplicados à discórdia perene não devem mais ser aceitos entre nós. Há que entender que as mudanças terão obrigatoriamente que implicar em um gesto crítico de observação atenta à capacidade de cada parte envolvida reconhecer sua função valiosa dentro de uma remoção de vícios.

 

Difícil panorama a ser revisto, sobretudo em um país como o Brasil, que sempre foi um completo ausente no que se possa referir a um diálogo, de qualquer ordem, com o que lhe é exterior e, pior, interior. A nossa vergonha de aceitar o que somos nos levou sempre a inventar um mundo pleno de fantasias, idealizando um ambiente internacional no qual éramos aceitos de forma mágica, código delirante acentuado pelo futebol, o carnaval e o esplendor inexplicavelmente inatingível de uma cultura que continua forjando magnitudes estéticas de assustadora grandeza. Claro que já não percebemos, a olhos cegos pela grande imprensa, onde dormem essas pedras mágicas contemporâneas, quase todas banidas de um cânone vorazmente mundano e exibicionista.

 

A cena política, por exemplo, contamina toda e qualquer possibilidade de diálogo com a cultura hispano-americana. Há uma presunção mirabolante da parte do intelectual brasileiro de sentir-se superior ao ambiente cultural que lhe é vizinho. A grande imprensa explora este nosso complexo e agita a tensão velhaca dessa polaridade. Assim eliminamos, por exemplo, qualquer possibilidade de aceitar vida cultural substantiva, historicamente consolidada, participante ativa de todos os processos artísticos, em países como Cuba, Bolívia e Venezuela. Os hermanos – termo vulgar e desrespeitoso com que até mesmo escritores brasileiros tratam seus pares vizinhos de língua espanhola – são recebidos no Brasil por uma contingência do mercado editorial internacional (sobremaneira pela entrada no país de grupos editoriais espanhóis). Não são seus autores mais expressivos (e mesmo os que são ali não estão por esta razão) e sim aqueles que seguem uma maquiavélica cartilha estética que restringe a códigos mínimos de gênero e estilo o aceitável em termos literários.

 

Exemplos desta ausência de diálogo acobertada por um diálogo de mídia é possível localizar nos espaços de média e grande imprensa dedicados à literatura hispano-americana, e nas festas literárias, eventos que funcionam ecologicamente como simbiontes, organismos que tomam parte em uma simbiose, que se apropriam dela, uma forma de violação de um processo de mudança. Caso a imprensa (de qualquer porte) se desse ao trabalho de indagar dos autores convidados para tais eventos como se sentem participando de um processo declarado de aproximação cultural, seguramente a resposta apontaria para um mal-estar muito grande, um desencanto, uma surpresa angustiante, considerando a expectativa imensa, a felicidade intensa e indisfarçável, da parte de todos eles de virem ao Brasil. No entanto, aqui são tratados com alheamento, exceção dada às carrancas de proa do ambiente de livro-mercado internacional.

 

As distinções traçadas pela curadoria desses eventos ou pela cartilha de imprensa dos periódicos são todas de ordem mercadológica (em alguns casos até bem determinadas por uma limitação política), e não abrangem, em circunstância alguma, como elemento decisivo, o ambiente estético, a valoração autoral, e menos ainda se mostram interessadas em estabelecer a integração cinicamente evocada. Ao vivo, também nossos escritores, prima-donas já aclamadas ou a caminho da glória, seguem dando ao mundo um ar caipira de alheamento. É uma equação curiosa esta: não fazemos parte do mundo, mas queremos que o mundo faça parte de nós. Muitos desses escritores rezam pela cartilha da grande imprensa e se julgam no direito de referir-se a um delicado ambiente político vizinho como de restrição das liberdades, orgulhosos de seu gesto democrático de reconhecer o outro apenas de forma circunstancial.

 

Há culturas pobres e ricas, bem sedimentadas ou violadas por aspectos inúmeros, porém o que se passa no Brasil é um caso estranho de vulgaridade, de indescritível talento para o medíocre, o desprezível do ponto de vista humano, para a insociabilidade perene se entendida como ânsia de enriquecimento existencial através do diálogo. É vergonhosa a maneira como lidamos atualmente com este modismo mal dissimulado do que chamamos de aproximação da cultura hispano-americana. Não compreendemos – porém o pior é que não temos interesse algum em compreender – o que se passa nesta relação acima referida entre duas partes: os que atuam na construção de uma identidade cultural e os que se empenham no fortalecimento de barreiras que impedem a visibilidade de novas conexões de enriquecimento humano.

 

Especificamente no que diz respeito aos escritores brasileiros, já é suficientemente sem relevo nosso grau de comprometimento com a tradição lírica e suas relações ambientais em planos políticos, estéticos etc., o que nos obriga moralmente a rever toda a nossa história, com seus fascinantes heróis da modernidade, em muitos casos uns facínoras… Agora temos diante de nós uma nova oportunidade: o desafio de transformar este modismo em um momento muito especial de conhecimento e reconhecimento, não somente da realidade cultural hispano-americana, como também de nosso papel em tal ambiente, o que somos, o que realmente representamos. Isto inclusive nos ajudará a entender melhor até mesmo aqueles autores que incorporamos ao nosso cotidiano de mesmices ou simplesmente deixamos para trás.

 

Editores da Agulha têm participado de eventos dentro e fora do Brasil onde comprovadamente se verifica este hiato persistente, uma relutância incivil, estúpida e excessiva da parte de nossos escritores de manifestarem-se, de deixarem de ser dissimulados, de apontar o que lhes dói, as suas razões de ser. De outra maneira, ao menos que parem de dizer que são parceiros deste claro modismo: o interesse da grande imprensa pela literatura hispano-americana.

 
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