Maria Estela Guedes
Magia e rito florestal em Herberto Helder
Palestra no Edifício da Sé, São Paulo, em Agosto de 2005, promovida por Claudio Willer e pelo Conjunto Cultural da Caixa, durante uma viagem de estudo ao Brasil patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Publicado na revista Boca do Inferno, Cascais, Câmara Municipal, nº 10, 2005.

1. Jardinar na floresta

Herberto Helder é um poeta fascinado pelo poder encantatório da linguagem, decorrente do uso ritual da palavra. Disso dou conta no meu livro, "Herberto Helder, Poeta Obscuro" (1). Maria Lúcia dal Farra fá-lo também, no ensaio "A Alquimia da Linguagem (2). Tem de haver uma predisposição afectiva, uma conivência com o sagrado, ou o símbolo não passaria de cântaro vazio, incapaz de nos tocar. Porém não é obrigatório que esse mundo mágico decorra de uma opção religiosa do poeta ou da sua filiação em alguma sociedade iniciática. Como diz Alexandrian,

"O pensamento mágico é inerente ao inconsciente, o pensamento pragmático resulta do consciente. A filosofia oculta é de todos os tempos porque ela sistematiza o pensamento mágico que cada um transporta em si, quer o aceite, quer o negue, quer o cultive, quer o reprima. Este pensamento mágico aparece sem entraves na fabulação infantil, no sonho e na neurose" (3).

Alexandrian esquece-se, nesta passagem do seu ensaio, de dizer que o pensamento mágico também é inerente às obras de arte, caso das aparecidas com o Surrealismo, movimento de que ele é um dos mais clássicos historiadores, e Herberto Helder um dos representantes. Di-lo-á sem dúvida noutros passos, a menos que entenda a arte como sócia da efabulação infantil, da neurose e do sonho, e neste caso é com toda a razão que entende, e nada de novo como o Surrealismo, para o comprovar.

O que distingue o símbolo do signo é o terreno em que se movem: o símbolo representa o sacral, é a cisterna da afeição religiosa. A propósito das zonas arborizadas, comenta Barthélemy, em "Forêts Sacrées", que "os desastres acumulados fazem temer uma desertificação, não apenas de numerosas terras, mas sobretudo dos nossos espíritos" (4). Neste diagnóstico estão representados os dois ambientes de Alexandrian: o espiritual, que se exprime de forma simbólica, como nos sonhos, e o material, cuja linguagem é a corrente. A simbólica é universal, pode exprimir-se por palavras, mas a sua substância vem da percepção sensorial. No livro "As Magias" (5) há muita imagem sonora encantatória, cujo mistério é cerrado para os estranhos à cultura que produziu tais nomes, sons, mantras ou invocações: "Iniji", "Rorraá Roá Roarrá Rorrãã", e tantos outros.

Diferentemente da linguagem que usa signos, da qual esperamos informação prática, voltada para a nossa capacidade de a compreender, a linguagem simbólica dirige-se à emoção, a áreas religiosas do ser. Não é preciso compreender a língua de um ritual para sermos tocados por ela. Isso era muito claro no tempo em que a missa se dizia em latim, e a mesma experiência do sublime encontramo-la ainda hoje no canto corânico.

Porque os símbolos são o verbo da percepção sensorial, a sua linguagem não tem fronteiras étnicas, linguísticas nem temporais; é conhecida de todos, e tanto a encontramos em Rabelais como na ornamentação exterior das catedrais, se bem que não exista em todos os escritores, tal como não existe em todos os templos cristãos. Aparece na poesia medieval e junto de nós, no Surrealismo, mas quase desaparece em autores como José Saramago. E há modos vários de falar a língua simbólica: o modo naïf e o modo próprio de uma escola, o dos iniciados numa ordem.

Em todos os livros e poemas de Herberto Helder está presente um tipo de magia fundada no trabalho poético sobre palavras que, na linguagem comum e científica, descrevem ou referem o Reino das Plantas , para usar a classificação dos antigos naturalistas. Porém essas palavras não são só palavras, tal como um insulto não é só uma frase, uma condenação à morte não é só um texto, e um registo de casamento não é só uma declaração de notário. Toda a nossa vida é abalada pela palavra. No Evangelho de São João, Jesus é a encarnação da Palavra, é Verbo feito carne. Mas essa Palavra não é o signo.

A religião impressa numa frase de Herberto Helder, como esta, retirada do prefácio de "As Magias" , é o naturalismo:

“Mas as palavras não são apenas palavras. Têm longas raízes tenazes mergulhadas na carne, mergulhadas no sangue, e é doloroso arrancá-las”.

O naturalismo, ou religião natural, presta culto à Natureza como princípio supremo, e nega a existência do sobrenatural. O que eu vou analisar hoje é um aspecto do naturalismo, o que diz respeito ao culto do mundo vegetal, na poesia de Herberto Helder. Também vou comparar a visão fitomórfica do corpo humano na poesia herbertiana com a mesma homologação do homem à árvore, na ritualística dos Carvoeiros e Lenhadores. A Maçonaria Florestal Carbonária conserva rituais muito ligados ao mundo vegetal, em alguns casos herança dos druidas, como afirma Jacques Brengues (6). O código OGAM, cujo nome tem a particularidade de ser um anagrama de MAGO, é um alfabeto atribuído aos druidas, outrora usado pelos carbonários para codificar mensagens secretas.

Respondendo a quem se espante deste ponto de vista para a exegese da "Poesia Toda", direi que há anos venho fazendo investigação sobre os textos de História Natural. Um dos ensaios sobre o assunto, "Carbonários", publicado por Luiz Pacheco na sua editora Contraponto (7), levou-me a entabular relações com uma sociedade secreta que julgava extinta, a Carbonária, precisamente. A Maçonaria Florestal, através de Walmir Battú, Sereníssimo Grão-Mestre da Grande Loja Carbonária do Brasil, tem vindo a colaborar no TriploV (www.triplov.com), webpage em que é consultável quase todo o meu trabalho.

A diferença entre os rituais carbonários e a poesia, no caso de Herberto Helder, pondo de lado a funcionalidade numa associação, é apenas formal, como se notará depois de lidos os fragmentos que apresento, na maior parte traduzidos por mim a partir dos divulgados por Jacques Brengues. Na essência, os procedimentos e a semântica são os mesmos. Reduzem-se, na sua expressão mais simples, à concepção do homem como ser da mesma natureza das pedras, animais ou plantas. O meu ensaio seria diferente apenas nos exemplos, se, em vez da fitomórfica, tivesse optado pela visão geomórfica ou zoomórfica do corpo humano em Herberto Helder. Como é natural, nos poemas coexistem as três, artificial é a subtracção que resolvi fazer. Nos rituais maçónicos, a argótica designa os humanos como se fossem pedras e animais, de resto qualquer maçon é pedra do Templo . Na Maçonaria Florestal, o núcleo lexical mais forte assenta na área semântica da floresta, com o canteiro (a loja ou oficina), os jardineiros , os carvoeiros ou carbonários , o tronco , a raíz ( prancha , obra escrita), a floresta (e os seus lobos maus, que terão de ficar entre parêntesis) e outras designações, muito mais privativas de cada época ou de cada canteiro, como se deduz dos exemplos finais.

O homem faz parte da Natureza, espelha-a, é parte dela, e portanto é um reflexo dela como Ente Supremo. Diferentemente então de religiões como o catolicismo, em que o humano e o divino estão separados, na religião natural, ou na cosmovisão mágica do poeta, o homem é parte do divino.

As palavras têm raízes, disse o poeta, na citação que fiz de "As Magias". Se as palavras têm raízes, é por serem árvores. Mas o poeta acrescenta que as raízes das palavras estão mergulhadas no nosso sangue e na nossa carne, e então, concluímos, o homem é o solo e o húmus da árvore das palavras. Mais simplesmente, o homem é uma árvore, como é bem claro na versão do poema Os grandes feitiços , de Blaise Cendrars (5):

Um tosco troço de pau

Dois braços embrionários

O homem rasga-lhe o ventre

E adora o seu membro erecto

[...]

Nó de madeira

Cabeça em forma de bolota

Duro e refractário

Rosto glabro

Jovem deus assexuado e cinicamente hilare

[...]

O pão do sexo que ela coze três vezes ao dia

E o odre cheio do ventre

Vergam-lhe

O pescoço e as espáduas

Na iconografia dos alquimistas, a árvore dos filósofos mostra um homem deitado na terra com uma árvore a crescer-lhe no lugar do sexo. No fragmento mais longo de ritual carbonário, vemos que o homem é interpelado quanto à sua condição vegetal, com tocas em vez de mãos, uma árvore em vez de sexo, folhas e flores em vez de cabeça, etc..

"As Magias" é um livro recente, na linha de "O bebedor nocturno" (8), ou de "A máquina de emaranhar paisagens" (9), cujo discurso poderíamos ser tentados a recusar a Herberto Helder, por se tratar de um conjunto de poemas de origem diversa que o poeta verteu para a nossa língua. Ou são rituais de povos africanos, índios ou australianos, ou poemas considerados mágicos, exemplo dos de Blaise Cendrars, Stephen Crane, José Lezama Lima, e outros. O livro fecha com um soneto do Conde Saint-Martin, bem conhecido das ciências ocultas.

N' "A máquina de emaranhar paisagens" reescreve-se um dos textos fundamentais da maçonaria em geral, ou Maçonaria de S. João, o "Apocalipse", dominado pela fortíssima imagem da figueira que deixa cair os seus figos verdes, abalada de um grande vento. Tudo isso é herbertiano, não podemos negar a Herberto Helder o que justamente não pertence a ninguém em particular, negro, índio ou poeta surrealista, por habitar o inconsciente de cada um de nós.

Já nos seus mais antigos poemas encontramos identificações universalmente praticadas pelos poetas, entre o corpo humano e o vegetal, em imagens como "boca de sabor antigo e silvestre" (10). Mas há algo menos universal, e por isso mais invulgar e mais herbertiano, no conjunto de sete poemas publicados na revista Arquipélago , fonte da citação anterior e seguinte. Tal ocorre na "Ode fúnebre" (11), dizendo respeito a sucessivas imagens do cadáver como obra de madeira , alterável por produtos da madeira derivados. Essas imagens correspondem a alguns símbolos na ritualística da Maçonaria Florestal, organizados numa área semântica relativa à sua matéria-prima, a madeira. Maçonaria da Madeira é outro nome de uma ordem que engloba não só a Carbonária como outras sociedades secretas. Eis o que a propósito ensina Gautrelet:

”A Maç.'. florestal comprehende os Carbonários, ou Bons companheiros rachadores, os Prodigos convertidos, os menos Diabos que nós, os Serradores, os Carpinteiros, os Amigos do povo, os Trabalhadores igualitarios, os Francos Juizes, os Invisiveis, os Vingadores d'Alibaud , etc.”

“A Joven França, a Joven Europa, a Joven Italia, o Tugenbund, os bons Primos não são senão formas diversas da mesma instituição.” (12).

Temos assim, em "Ode fúnebre", o barco ("como se nua e casta fosse boiando/ por cinzento e indeciso rio"), a cruz ("e põe uma cruz sem sentido entre os seus dedos"), e não faltam os óleos a sacralizar, e por isso a alterar a natureza do cadáver, com um estatuto de matéria vegetal vinda do húmus e que ao húmus regressa.

Quem conhece os livros de Herberto Helder, sabe que o vinho e a videira são nomes que o acompanham de longe, postos na mesa ritual. Data de 1952 o poema "O tempo e o vinho", um entre vários publicados n' A Briosa (13). É interessante, porque o copo, e o gesto de beber um copo, participam de rituais na Maçonaria da Madeira, eventualmente codificados com outros nomes ("manequim", por exempo, como se lê nas notas de Brengues).

Logo no segundo verso de "O tempo e o vinho" se reclama a situação de rito: "Fulge na mão ritual o copo". O corpo do poeta ergue-se diante da entidade invocada, a mulher, numa sugestão de árvore: "Ah! por ti, tempo igual às raízes castas/ tempo de cantar/com os pés no estrume florido!" Rematando, verifica-se a função sacerdotal da poesia: "- As palavras nascidas sobre as coisas/ são mitos ou sinais...".

Também sabe, o leitor de Herberto Helder, que um dos seus temas obsessivos é o canto e o instrumento que o produz, a voz. Nos poemas antigos, já encontramos o embrião do que viria a ser a poesia de Herberto Helder na sua fase áurea, adulta, os anos setenta e oitenta. Aliás, ela parece desenvolvimento e aperfeiçoamento da arte implícita em primeiros poemas ainda de aprendiz, em comparação com aqueles de que foram a mãe, e depois dos anos oitenta o poeta entra numa fase de segundo aproveitamento dos poemas já publicados. Confesso que prefiro a edição da Plátano da “Poesia Toda”, como aliás o leitor atento já terá reparado.

A poesia parece um corpo único, que nas mãos do poeta se vai transmutando. É sempre o mesmo bocado de matéria, ou de madeira: as diferentes edições correspondem a diversas fases do trabalho. Há um percurso na sua lírica, a vivência do ciclo: algo que sai da erva e à erva regressa, cumprida a vida e a reprodução, conforme a imagem desse poema antigo em que já o canto se identifica com a vegetação, e se fala justamente de um ciclo contido entre nascimento e morte: "Voz como erva" (14). Nele encontramos tópicos muito conhecidos do poeta, enquadrados no tema que para hoje elegi: "Só cantando. E a voz é erva/ com água ao rés do mistério/ e fome de luz pelas folhas."; "E a tua voz que canta leva, /ao cantar como sabe/com uma raíz terrível de sombra" - a raíz e a sombra fecham a árvore da base à copa.

Passando agora para um poema bem conhecido, "O amor em visita" (15), nele encontramos uma obra levada ao Forno - expressão carbonária com referência à obra alquímica -, porque a semântica do vegetal não ficaria completa sem o diálogo da madeira com o fogo. E retenha-se o termo madeira , da família de matéria : a madeira é a matéria-prima do lenhador ou do carbonário (carvão), tal como a pedra é a matéria-prima do pedreiro-livre.

São muitos os exemplos n' "O amor em visita" de transmutação alquímica da madeira, na sequência da identificação dos amantes com os elementos vegetais, e sobretudo com a árvore: "Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/encantarei a noite."; "Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher". Ambos ardem, porque ambos são árvores: "seu corpo arderá mansamente"; "cantarei o seu sorriso ardendo".

Como seria de esperar, a identificação total com a matéria-prima carbonária ocorre nos versos: "arde a madeira - para que tudo cante/ por teu poder angélico e fechado".

Todo o poema é um hino ao mistério da criação centrado na deusa, essa mulher jovem como resina, que dá mesa e banquete com a carne transcendente. Também estava nas expectativas ver a mulher, a madeira que ele afeiçoa, ser declarada a matéria-prima da obra literária, ao surgir como canto:

- No entanto és tu que te moverás na matéria

da minha boca, e serás uma árvore

dormindo e acordando onde existe o meu sangue

Princípio sexual, princípio primeiro, a madeira revela o desejo de o homem ser árvore: "L'homme a toujours eu envie d'être l'arbre haut, fort, solide, noble aussi", como escreve Jacques Brengues.

Por aqui me despeço, deixando agora o leitor com alguns símbolos vegetais na ritualística da Maçonaria Florestal, em especial a imagem do homem arborescente, advertindo que esta matéria só é divulgável por já não ser usada. Os rituais activos são secretos.

 
 
   
   

 

 

 


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