Procurar textos
 
 

 

 

 

 







:::::::::::::::::::::::::::Maria Estela Guedes:::

DOIS CASOS SECRETOS EM CIÊNCIAS NATURAIS
Lisboa, 1994
(Trabalho apresentado para concurso a Assessor, no Museu Bocage. Distribuição restrita)

INDEX
Onde se pergunta se todos os lagartos são M. coctei e se conta como o tipo sofreu tanta manipulação que nem parece ter sido empalhado em Portugal

Para voltar a eles, aos três M. coctei, e à questão levantada acerca da fiabilidade das convicções de Bocage, segundo as quais teriam pertencido ao lote do Euprepes e sido montados no Gabinete da Ajuda: qualquer particular ou colector de passagem pelo arquipélago cabo-verdiano os podia ter oferecido ao Museu da Academia Real das Ciências, após o recebimento das colecções da Ajuda, o que excluiria Feijó, 1784 como data de colheita, ilhéus Branco ou Raso, para nos deixar com ilhas menos inóspitas e com uma data de colheita mais recente.

Se optarmos pela hipótese de já estarem em Portugal antes de aberto o Gabinete da Ajuda, ao qual teriam sido oferecidos como estímulo, pois nobres então mantinham, além da Academia, gabinetes de história natural, então a data de colheita pode recuar a princípios do século XVIII ou mesmo XVII, e a proveniência dos animais tanto pode ser Santiago ou ilha do Fogo, por exclusão das mais tarde povoadas, como qualquer ponto da Costa da Guiné, de onde a espécie teria entretanto desaparecido.

Se quisermos voltar a Carrère, que estava em Lisboa em 1796, ficamos a saber que gabinetes de história natural existiam em Lisboa. De algum deles podiam ter transitado para o Gabinete da Ajuda os quatro exemplares de M. coctei:

Também Lisboa possui um pequeno jardim botânico, fazendo parte do palácio real de Belém [leia-se Ajuda], que ardeu em 1794; além de ser mal povoado, não serve para o ensino - não são ali dadas lições, nem feitas demonstrações. Está encerrado ao público, só se podendo ali entrar mediante autorização. Este mesmo palácio possui um gabinete de história natural, que escapou ao incêndio de 1794. Não passa, porém, de uma miniatura, contendo apenas alguns objectos mais próprios para brincar que para instruir. Também ele está encerrado ao público, só sendo admitidas pessoas munidas de licença.

Existem ainda algumas pequenas colecções no mesmo género da que pertence à Academia das Ciências: a do Mosteiro de São Vicente de Fora, de monges regulares de Santo Agostinho, a das residências dos Srs. George Rey e Jacinto de Araújo e do advogado Francisco Martins Sampaio. Estas colecções são muito restritas e unicamente destinadas ao deleite dos seus possuidores.

Castelo Branco Chaves, tradutor e anotador de "Panorama de Lisboa no Ano de 1796", de Carrère, refuta as desconhecedoras opiniões do viajante francês, dando-nos uma enorme lista só acerca de gabinetes de história natural, uma vez que os de curiosidades vêm à parte, seguidos dos gabinetes de física. Destas instituições, como a de Mayone, cuja colecção foi oferecida à Academia, é provável que existissem exemplares no Museu de Lisboa. Mas passemos à lista:

Além do Jardim Botânico da Ajuda e do Gabinete de História Natural, a ele adstrito, havia ainda em Lisboa os seguintes museus e colecções de história natural: o do marquês de Angeja, na Junqueira; o do conde de Vimieiro, em Alcoentre; o de Luís Vasconcelos e Sousa, na Calçada da Glória; o de Luís Máximo de Pinto de Sousa Coutinho, na Junqueira; o do padre João Faustino, na Casa do Espírito Santo; o de António Jacinto de Araújo, no Carmo; o de Jorge Rei, nos Mártires; o de Miguel Angelo Lupe, em casa do marquês de Louriçal; o Museu Mayonense, no qual há aula pública de História Natural e Botânica, instituída pelo padre frei José Mayone, e por ele deixado à administração da Academia Real das Ciências, com beneplácito régio, no Convento de Nossa Senhora de Jesus; o da Academia Real das Ciências, onde há demonstrações públicas, no Calhariz; o Jardim Botânico de Suas Altezas, em PaIhavã.

Bocage identificou os quatro exemplares como pertencendo ao mesmo lote e provindo do Gabinete da Ajuda, pela semelhança que apresentavam no modo de preparação. Em Paris, quando viu o tipo do Euprepes, não deu conta de ser só uma pele, o que significa que o animal estava montado. Montados estavam então os quatro, mas Bocage não refere por que modo de preparação. No primeiro quartel do século XIX aparece a taxidermia, antes dela recorria-se à mumificação e ao empalhamento. Ora o exemplar de Paris sofreu demasiadas manipulações para não se danificar, o que põe o problema de as técnicas de mumificação ou empalhamento serem perfeitas de mais, donde parece absurdo abandoná-las. Vejamos: esse exemplar foi desmontado, por ordem de Cuvier, para extracção do crânio e esqueleto, que foram levados para a Galeria de Anatomia. Sabemos que com o crânio descreveu ele o lagarto como Lacerta scincoides Shaw. Aparentemente, Saint-Hilaire ficou com o resto do esqueleto. Às mãos de Duméril e Bibron foi parar, vinte e tal anos depois, um exemplar remontado, sem esqueleto, portanto só uma pele, que classificaram como Euprepes coctei. E porque ao exemplar faltávam os dentes, não os puderam observar. Daí o erro de classificação. É o que a Bocage (1873), que na visita a Paris, em 1868, não se apercebera de que o Euprepes era uma só pele, causa a maior perplexidade:

L'examen de Ia bouche de l' E. Coctei aurait dû convaincre Duméril et Bibron que cet animal n'est pas un Euprepes, en leur faisant voir, 1º qu'il n'a pas de dents au palais; 2º qu'il porte aux deux mâchoires des dents à courone très-comprimée, légèrement arrondie et très-distinctement dentelée sur les bords. Les dents des E. Coctei, diffèrentes de celles de tous les Scincoidiens connus, rappellent celles des Iguanes, tout en conservant des caractères particuliers.

Tão perfeitas foram as manipulações sofridas pelo animal, que Duméril e Bibron (1939) não se esquecem de referir na diagnose este pormenor: inter-nasale en losange élargi, divisée longitudinalement (peut-être accidentellement) par le milieu. Foi com certeza a única ferida resultante da desmontagem e remontagem do exemplar.

O que pergunto é o seguinte: no Gabinete da Ajuda havia técnicas tão excelentes que um exemplar montado em 1784 (os naturalistas não montavam animais no ultramar, a preparação definitiva fazia-se na metrópole) pudesse, vinte ou trinta anos depois, ser desmontado e remontado sem sofrer outros danos além de uma lancetada na inter-nasal?

Não padece dúvidas que o Euprepes foi levado para França por ordem do general Junot, em 1808. Apesar de desmontado e remontado, o seu modo de preparação era idêntico ao dos três deixados na Ajuda. Donde, a tese de Bocage é correcta, e inválida a minha hipótese de que os três encontrados por ele no Museu de Lisboa pudessem ter vindo do Museu da Academia Real das Ciências, em época posterior a 1808. Uma conclusão se retira daqui, nesse caso: as técnicas de preparação no Gabinete da Ajuda, antes das taxidérmicas praticadas no Museu de Paris, em nada ficavam a dever a estas. Vandelli tinha óptimos preparadores.

Vamos então admitir que, apesar da falta de etiquetas, Bocage identificou correctamente os exemplares, pelo modo de empalhamento, como provindo do Gabinete da Ajuda e não de outro museu, nem época posteriores. Porque não se demonstra que não fossem anteriores à chegada de Vandelíi a Portugal. A lista de gabinetes citada já nos deu a imagem do que em Lisboa podia ter sido local de preparação dos exemplares. Podiam até provir dos destroços do gabinete de curiosidades de D. João V, destruído no terramoto. As viagens filosóficas organizadas por Vandelli não foram as primeiras, e esta informação é rara, como é raro todo o depoimento que abone em favor do italiano, vale a pena por isso insistir nela: Padre Martinho confiou em Vandelli na selecção de Alexandre, de Feijó, Donati e Galvão da Silva. Confiou-lhe ainda a elaboração do plano das viagens ao Brasil, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Em 1785, Manuel Galvão da Silva está em Goa, houve problemas, e Donati morre. Mas como dizia, a estas viagens não correspondem os primeiros estudos mineralógicos, florísticos e faunísticos ultramarinos. Já havia obra anterior, os gabinetes de curiosidades estavam cheios de material exótico. Se quisermos recuar ao séc. XVI, temos um Padre José Anchieta, no Brasil, a pela primeira vez descrever o mecanismo de inoculação de veneno das cobras e a estudar os possíveis antídotos, um Garcia da Orta a falar das plantas medicinais e drogas da índia. Havia uma tradição de estudo e de remessa de exemplares; o que naturalmente foi mudando foi a filosofia natural, de acordo com as prioridades políticas e grau de avanço científico em cada época. Mas quem remete um rinoceronte (integrado num cortejo de homenagem de D. Manuel I ao Papa, em Roma) também remete quatro estranhos lagartos, eis o que queria deixar como possibilidade, importante na medida em que é importante saber de que parte do globo teriam partido esses animais, de forma a povoarem ilhas vulcânicas, situadas a quinhentos quilómetros do continente, inacessíveis portanto a espécies sem capacidade de voo nem de as atingirem a nado. O Macroscincus coctei é dito exclusivo dos ilhéus Branco e Raso, mas é evidente que esta exclusividade é epocal. Antes de ali se confinar teve mais larga distribuição no arquipélago, e antes disso existiu algures, nesse algures continental se tendo extinguido. Eis o problema-chave das minhas digressões, às vezes pelo que na aparência nem se relaciona com o animal. Esta a razão por que se discute a possibilidade de Bocage se ter enganado.

Aceitemos porém que não se enganou, que o Euprepes e os outros três lagartos são parte da colecção herpetológica enviada por Feijó. Mesmo assim, não lhe bastando preferir o Branco a outras ilhas, Bocage ainda teve de imaginar que esses dois lagartos que Feijó refere na lista das Desertas, em 1784, realmente não deviam ser lagartos.

Dúvida que ao leitor já se deve ter levantado é precisamente esta: por que motivo um nome tão vago como lagarto leva os zoólogos a tomarem-no pelo do táxone Macroscincus coctei, que não é sequer um Lacertidae? Pois bem, a herpetocenose de Cabo Verde é pobre, só inclui tartarugas marinhas e sáurios. Por isso, antes de prosseguir, chamo a atenção para o mapa (segundo Mertens, 1955; escolhi um autor em vez de completar o mapa com informações actuais, porque isso levantava problemas de sistemática, e para o meu objectivo, mais passado que presente, basta o seu catálogo), no qual figura a distribuição dos Sauria no arquipélago. Reduzem-se a duas famílias, cada uma com dois géneros. Os Gekkonidae estão representados por cinco formas:

1. Hemidactylus bouvierí bouvieri (Bocourt, 1870)
2. H. bouvieri boavistensis Boulenger, 1906
3. H. brookii angulatus Hallowell, 1852
4. Tarentola delalandii rudis Boulenger, 1906
5. T. delalandii gigas (Bocage, 1875)

Apenas Mabuya e Macroscincus representam a dos Scincidae:

6. Mabuya delalandii (Duméril & Bibron, 1839)
7. M. fogoensis (O' Shaughnessy, 1874)
8. M. stangeri stangeri (Gray, 1845)
9. M. stangeri salensis Angel, 1935
10. M. stangeri spinalis (Boulenger, 1906)
11. M. stangeri maioensis Mertens, 1954
12. Macroscincus coctei (Duméril & Bíbron, 1839)

Quer isto dizer que, quando se fala de lagartos, não há muito por onde errar: se excluirmos os Gekkonidae, vulgarmente designados por osgas, os lagartos a que os colectores e cabo-verdianos se referem só podem ser ou o Macroscincus ou a Mabuya. A inexistência de crocodilos no arquipélago também facilita o trabalho, pois em várias regiões africanas (Guiné, v. g.), a interdição religiosa de pronunciar o nome destes animais leva a que por eufemismo também sejam chamados lagartos. Veremos mais tarde que, mesmo dando este nome a Mabuya (anterior Euprepes), para certos autores isso não altera grande coisa.

Tomemos uma ilha como exemplo para testar a competência científica de Feijó. Em S. Nicolau, só estavam assinaladas até agora duas espécies herpetológicas: Tarentola delalandii e a Mabuya fogoensis. A primeira é um Gekkonidae. Feijó seria capaz de chamar lagarto a uma osga? Vários se enganam, chamando cágados às tartarugas ou vice-versa. Mas vê-los-emos emendar a mão, em se tratando de viajantes-naturalistas e não apenas de viajantes.

O grau de conhecimentos destes homens é inferior ao dos do século seguinte, e destes sabemos quantas espécies mudaram de posição taxonómica, caindo assim os nomes em sinonímia. Mas é tão pouco o que se pede a Feijó: só que saiba distinguir as osgas dos lagartos. Quem era ele?

Diz a "Enciclopédia Portuguesa e Brasileira" que nasceu no Rio de Janeiro em 1760, tendo assim vinte e três anos, quando partiu para Cabo Verde. Alexandre Rodrigues Ferreira tinha a mesma idade quando partiu para o Brasil. Feijó morreu no Ceará em 1824. Coronel de engenheiros e naturalista, era bacharel em Matemática, professor da Academia Militar do Rio de Janeiro, e sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. Foi secretário-geral das ilhas de Cabo Verde, após a viagem filosófica.

Quer isto dizer que terá vindo para Portugal como militar, e que em Coimbra se especializou ou estagiou na Faculdade de Filosofia, onde foi aluno de Vandelli. Escreveu vários textos sobre o Brasil, da índole fisiocrática dos que já lhe conhecemos sobre Cabo Verde, nem tudo publicado, por se tratar talvez de relatórios internos.

Feijó tem bom currículo, mas pertence ao séc. XVIII, e o problema das osgas, crucial na minha exposição, permanece insolúvel. O "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa", de José Pedro Machado, regista assim a palavra "osga":

De origem obscura, pois não me parece viável a hipótese arábica, propostapor A. Coelho. Apesar de eu só a documentar em 1813 (Morais), trata-se certamente de vocábulo muito antigo.

Esperemos que o nome seja antigo e corrente, esperemos que Feijó soubesse a que animal se aplica. Afinal escreveu sobre o gado lanígero, explicou como se lhe podia melhorar a raça, assuntos bem mais complicados. Assinava os primeiros escritos como "sargento-mor naturalista", Bocage referiu-se a ele como "naturalista de mérito inegável", mas já O. Ribeiro 1954) o considera "pouco metódico e um tanto superficial".

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008). Aposentada no cargo de Assessor Principal, no Museu Bocage (Museu Nacional de História Natural - Universidade de Lisboa).
 

 

 

 

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano