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:::::::::::::::::::::::::::Maria Estela Guedes:::

DOIS CASOS SECRETOS EM CIÊNCIAS NATURAIS
Lisboa, 1994
(Trabalho apresentado para concurso a Assessor, no Museu Bocage. Distribuição restrita)

INDEX
11ª peregrinação: "Vinde cá, ó meu tão certo secretário", ou de como Vandelli foi acusado de escrever cartas anónimas, sendo ouvinte do sermão


Porque esta é mais uma acusação que lhe fazem: além do plágio, do jacobinismo, do roubo do património cultural português para o dar aos franceses, do assédio sexual, da sabotagem das colecções de Alexandre, da inveja, da prepotência, do sadismo ("Nuire c'est jouir" para ele, disse-o Carlos França, de nem conhecer as plantas que ele mesmo descrevera, dos nomina nuda, de ser um químico ridículo, de não ter zoologia, etc., etc., ainda faltava mais esta: escreveu cartas anónimas. Diderot e D' Alembert deviam-no ter convidado a colaborar com eles, Vandelli era um enciclopedista.

Se preferirmos uma interpretação mais literal, quanto às cartas a Lacepède, o italiano queria um patrono de qualidade para Alexandre António Vandelli, seu filho, futuro funcionário superior da Academia Real das Ciências, colaborador das suas revistas, e herdeiro das faianças de vandel. Para agradar a Lacepède, tenta suborná-Io (se quisermos ver corrupção numa diligência que qualquer pai faria) com os presentes mais valiosos para o ictiologista: peixes brasileiros, o Museu de Paris tinha pouco material do Brasil. Só não consegue nada por falta de sorte; Lacepède enlouquecera entretanto com a morte da mulher (Daget e Saldanha, 1989).

Outra acusação que lhe movem é a de ser invejoso. Domingos Vandelli viveu oitenta e um anos, ofereçeram-lhe umafábrica, ele recebeu subsídio para brincar aos aeróstatos, obteve sucesso, cátedra, fez currículo, atribuiram-lhe cargos directivos, foi co-fundador da Academia Real das Ciências, dirigiu a sua classe de Ciências Naturais, sócio das academias de Florença, Upsala, Lusácia e outras, conselheiro D. João VI, deputado da Real Junta do Comércio, Fábricas e Navegação, Cônsul-Geral de Portugai e Dinamarca, beneficiou dos favores de príncipes e ministros, nem de lhe pagarem a renda de casa se esqueceram as fadas de o bafejar. Tanto maná choveu sobre o homem que, subjectivamente falando, só se pode considerar uma indecência discriminatória, face a nacionais como Brotero, que passou a vida a pedinchar e a roer os ossos que o italiano lhe ia deixando. Quem tem nisto razões de sobra para invejar? Os seus últimos anos de vida foram amargos. Enfim, suponho. Mas viveu oitenta e um, quase cinquenta num berço de ouro em Portugal, ao contrário do que alguém afirma, referindo vinte e cinco.

Vandelli pouco tempo ficou na ilha Terceira. Daí passou logo para Inglaterra. Em 1815, estabelecida a paz geral, regressou a Lisboa, onde morreu no ano seguinte. Após o seu regresso, a Academia Real das Ciências elegeu-o Sócio Veterano (na companhia do Padre José Agostinho de Macedo, Elmiro Tagideo). Já na situação de deportado, em 1910, a Sociedade Bahiense de Homens de Letras convida-o para sócio.

Costa e Sá (1818), no elogio do recentemente falecido Alexandre Rodrigues Ferreira, em nada deixa perceber que tivesse havido acção criminosa sobre as colecções e ainda menos paira sobre as suas palavras indício de acusação a Vandelli. Este é referido só duas ou três vezes, uma delas para o dar como proponente de Alexandre para a missão ao Brasil:

O Ex.mº Snr. Martinho de Melo e Castro, a quem sempre se deverá lembrança de respeito, era então Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, e vendo bem a necessidade de realizar um tão importante expediente, cometeu a escolha de sujeito apto para semelhante empenho ao Snr. Domingos Vandelli, primeiro Catedrático da Faculdade de Filosofia da Universidade, que não hesitou, assim como a Congregação, na escolha do Snr. Dr. Alexandre, não obstante achar-se em quinto lugar na ordem da Matrícula.

Alexandre foi doutorado gratuitamente antes de partir para o Brasil em 1783, e Vandelli influiu decerto nessa graça. Logo após o regresso a Lisboa, em 1795, tendo falecido Júlio Mattiazzi, Alexandre substitui-o como

administrador e director interino do Real Gabinete de História Natural, e Jardim Botânico, e suas anexas, incumbindo-se-lhe também inventariar todos os produtos, instrumentos, livros, e utensílios ali existentes

informa ainda Costa e Sá. Não refere que Alexandre tivesse reclamado por sabotagem ou pelo mau estado das colecções inventariadas. Mais tarde, é nomeado vice-director. Mas Alexandre entra em depressão da qual não sairá e o seu biógrafo abandona o discurso informativo para rumar às retóricas barrocas, num indecifrável devaneio poético de que só se lê, nas entrelinhas, que não ousa apontar o dedo a alguém, pois, apontando-o, sofreria represálias. Alguém que portanto está vivo e é poderoso, um ministro. Vandelli já morrera e fora condenado, para quê ocultar o seu nome se fosse responsável pela degradação moral e física em que cairá Alexandre? As sugestões de Costa e Sá são lançadas sobre a corte, Alexandre sentir-se-ia inadaptado num meio de intrigas e mentiras, o que é compreensível, tinha passado dez anos no mato. E mais acrescenta o biógrafo quanto à não publicação da obra, e agora este ponto é crucial: a ciência dera um grande salto, os descendentes de Lineu já tinham avançado para qualquer coisa que hoje é a ecologia e a biogeografía. Alexandre sentia-se cientificamente ultrapassado, diz Costa e Sá. Daí que se tivessem salvo os seus manuscritos das mãos dos franceses, ele tinha-os naturalmente em casa, estudava-os, tentava talvez salvá-los com outra organização. Imagino que a ecologia o perturbasse por antes, no Brasil, não ter apontado com precisão os locais onde coligira o material. É de crer que só tivesse escrito "Pará" ou "Maranhão", como se deduz do relatório de Saint-Hilaire. No estrangeiro o uso era idêntico, os catálogos mencionam os países de origem dos espécimes e é tudo. Anos depois, já não se lembra onde exactamente o coligira, devia sentir-se desesperado. Para apanhar a contemporaneidade, precisava de subsídio, pediu-o sem sucesso a quem antes o subsidiara, a quem dez anos antes o tinha mandado para o Brasil. Costa e Sá não refere nomes, tem medo. Líricas indecifráveis não se justificam num texto informativo, a não ser como aviso aos leitores: "Não posso contar o que sei, arrisco o meu cargo". E quem subsidiara a viagem de Alexandre ao Brasil?

Recordemos agora a passagem de Orlando Ribeiro (1954), segundo a qual Martinho de Melo e Castro esperava proveito imediato do trabalho de Feijó, coisa natural ainda hoje em quem subsidia. Quem subsidiara Alexandre fora o governo, através de Melo e Castro, que aliás morreu na mesma pasta ministerial em 1795, quando Alexandre regressa a Lisboa, tendo resistido formidavelmente à desgraça de Pombal e a todas as remodelações governamentais de D. Maria I. Reza a história que, além de mandar naturalistas para o Ultramar, nada fez de admirável senão manter-se no mesmo ministério por um período recorde de vinte e cinco anos. Tão longo percurso político fê-lo Pina Manique igualmente.

Martinho de Melo e Castro já devia ter morrido quando Alexandre Rodrigues Ferreira requereu subsídio para se pôr ao par dos avanços científicos da época. Portanto o causador da sua melancolia é outro ministro, talvez Rodrigo de Sousa Coutinho, protector de Brotero. Alexandre recolhe ao palácio da neurastenia e do alcoolismo, sofria de gota, estava entrevado numa cama. Nunca fora tropeço no caminho de Vandelli. E Brotero?

O Dr. Domingos Vandelli foi daqui expulso, como V." Ex.a sabe, e demais disso a sua muito provecta idade o tem posto já em estado de inaptidão, e de ser aposentado; o seu filho, que hoje solicita o seu lugar de Inspector do Jardim da Ajuda, não teve princípios, nem escola, nem prática alguma de Botânica e História natural; o Dr. Alexandre, subalterno de Vandelli e Inspector das Quintas do Infantado, acha-se há três anos convulso e entrevado em uma cama... (Pires de Lima & Santos Júnior, 1944)

Citei Félix de Avelar Brotero, de uma carta de Lisboa, 5 de Dezembro de 1810, dirigida ao conde de Galveias, outro homem de Estado com o nome de Melo e Castro. Em 1808, D. João de Almeida de Melo e Castro está no Brasil, com a família real. Presumo que em 1810 estivesse em Madrid como embaixador, actuando no curso da Guerra Peninsular. Nesta mesma carta ao conde de Galveias, Brotero insinua simpatias pelos franceses do reitor da Universidade. A seguir, não podia ser menos subtil nem menos frio: reclama o lugar de director, ainda detido pelo italiano, visto que o não haviam aposentado, apesar de condenado e expulso, pois o Jardim e as quintas do Infantado estão em decadência, precisando de ter à frente um homem inteligente como ele. Ele, Brotero. Eficaz a carta, em 1811 já o encontramos na direcção do Jardim Botânico da Ajuda, nomeado pelo Regente.

Vandelli pode ter gerido o Gabinete da Ajuda de "forma ignara e antipatriótica" (Bettencourt-Ferreira, 1907), se bem que o antipatriotismo de um italiano em Portugal (nem a Itália estava ainda unificada, de modo a que ele pudesse ser um patriota italiano) cause certa perplexidade. De outro lado, Vandelli já era cidadão português, e patriota. Citoyen et patriote, não portanto segundo a vontade do poder instituído. Quanto mais se aprofunda o caso, mais transparece que o economista Vandelli foi um homem avançado em relação ao tradicional atraso e obscurantismo português.

Os próprios autores que veiculam a tradição antivandéllica inocentam o italiano, ao serem unânimes neste ponto: o Gabinete da Ajuda era um "bazar" mais do que um estabelecimento científico, donde uns exemplares estariam classificados, outros não; uns teriam indicação exacta de proveniência, outros nenhuma. É natural, presumivelmente as colecções da Ajuda constituiram-se de início com restos de outras, ofertas de privados, etc., que não estariam identificados, por não ser preciso: nos tempos anteriores aos museus de história natural, o que existia eram os gabinetes de curiosidades. O da Ajuda ainda se chama gabinete. Podemos acusar Vandelli de não ter gerido um museu de ciência, sim umas colecções para "ensino de rapazes", como diria Pombal. Porque tal gabinete faz parte das instalações de um palácio, foi criado para recreio e ensino dos filhos de D. Maria I, não estava aberto ao público, era uma dependência palaciana como a biblioteca, o jardim, a sala de armas, a cocheira ou a cozinha.

Não confundamos uma sala de casa particular com um estabelecimento cultural público. Ao Museu Bocage, Museu Mineralógico e Jardim Botânico, que hoje são partes do Museu Nacional de História Natural, na R. da Escola Politécnica e não na Ajuda, ainda chegaram peças do Gabinete da Ajuda, e algumas "conchas púlidas", como rezavam as etiquetas, provenientes salvo erro do gabinete de curiosidades de D. João V. Lembro-me das "conchas púlidas", não me lembro se havia também nas etiquetas indicação do local onde haviam sido colhidas. Provavelmente não existia, e não vamos agora acusar Bocage ou sucessores de terem sabotado essas colecções. Quando Bocage fala do M. coctei, lamenta que na Ajuda não se identificasse a proveniência dos exemplares. Deviam estar identificados os recentes, as colecções antigas não teriam etiquetas. Ou nem isso, talvez se limitassem a arrumar o que vinha de fora, tal como vinha. Não parece que fosse muito o pessoal, as remessas deviam ultrapassar a capacidade de classificação, ordenação sistemática, preparação e montagem.

Não é crível que Alexandre Rodrigues Ferreira tivesse a mesma personalidade negligente de Feijó. É crível no entanto que nenhum deles fosse realmente negligente, pelo contrário: ambos devem ter seguido as instruções. Se não, vejamos: como se averigua a negligência de um funcionário? Quando não cumpre as regras do estabelecimento onde trabalha. Temos então um estabelecimento cujas regras são as do Grande Bazar: a disparidade acumula-se, o valor dos objectos vai do discutível ao precioso, o preço regateia-se por falta de padrões de referência. Não é hiperbólica a analogia, aparecia ali de tudo. Vandelli era um coleccionador, deve ter enriquecido muito o bazar com o seu contributo pessoal.

As acusações movidas contra o italiano são demasiado absurdas para merecerem fé, esta história tem de ter explicação mais simples. Ora a explicação mais simples é a própria época, também ela, como de relance observámos, um Grande Bazar. Entenda-se o sentido económico na metáfora, por outros atribuído à mudança de nome do Terreiro do Paço para Praça do Comércio. É uma época de terramotos, geológica, cultural, ideológica, religiosa e politicamente falando.

Boa pergunta se impõe agora: Vandelli não terá reagido às perseguições, ninguém terá tomado a sua defesa? As acusações de que o venho inocentando são posteriores à sua época. Perseguições, em vida, sofreu-as sem dúvida. Mas são de outra natureza. A estas reagiu ele: já o vimos a implorar votre Protection - "votre" tanto significa "sua", de Lacepède, como "vossa", dos franceses -, envers ce Gouvernement, e este "ce" ainda é mais complexo. Resumindo: pediu socorro à França. Agora publicações dele em que ataque este ou aquele, nunca vi. Textos que tomem a sua defesa, conheço um, mas desse reza o seu divulgador, Abílio Fernandes (1950), seguindo a traditio, que Vandelli o redigiu, e como cartas anónimas.

Sintetizando esses documentos: Brotero e Vandelli haviam-se correspondido, em tempos de bonança (1791). Posteriormente, face às inimizades criadas em Coimbra, por ter sido doutorado gratuitamente pela Faculdade de Filosofia, por se lhe ter oferecido a nova cadeira de Botânica e Agricultura, subtraída à de História Natural, por não ser conhecido nem reconhecido entre os colegas, entre os quais passava por charlatão, Brotero escreve uma carta contra a Universidade, em que ataca todos e Vandelli.

Fernandes (1950) recebe de Évora dois manuscritos, Iª e IIª, datados de Abril e Maio de 1803. A pergunta que se faz logo é: primeira e segunda, o quê? Ninguém usa os ordinais sem indicar o que se ordena: parte, tomo, volume. Fernandes interpreta-os como primeira e segunda cartas de resposta à Carta de Coimbra de Brotero, mas o problema não é o de classificar as espécies literárias, sim o de falta de informação. Quero dizer: os documentos estão incompletos. De outro lado, para se tratar de género epistolográfico, há mais faltas: destinatário e remetente expressos, as informações que repetimos no envelope se quisermos que a carta chegue ao destino. Citam-se cartas de Brotero para Vandelli, apresentadas nestes termos:

Quanto às Lições, sabe V. S. [Vandelii] que essas mesmas pretendeu ele [Brotero] logo dispensar-se delas, assim que entrou a servir a Universidade. E se não, lembre-se das instâncias que ele lhe fez para o conseguir; sendo a primeira em Carta de 28 de Março de 1791, onde lhe escreveu assim =

Pensemos: a pessoa que escreve tem à sua frente as cartas de Brotero para Vandelli e vai-as citando no relatório para Vandelli. O que é que falta dizer? Por exemplo: "Olhe, o senhor não se rala nada, mas eu ralo-me. Veja lá se responde à Carta de Coimbra, esse Brotero anda a abusar, até a si o meteu ao barulho. Lembra-se do que ele lhe dizia nas cartas que lhe escreveu? São óptimas, pode pegar nelas e atirar-lhas agora à cara para se defender. Por mim, fiz-lhe a papinha, tem aqui um relatório completo. Mas veja lá se se defende, mexa-se, diga qualquer coisa, homem!"

Fernandes afirma que são cartas anónimas redigidas por Vandelli. Porquê complicar o que é simples, virar tudo do avesso, transformando em remetente o destinatário? Se numa carta se recorta a assinatura, dizemos por isso que ela é anónima? Se a um relatório falta a última página, aquela em que o relator assina, passa por isso o relatório a ser anónimo?

As citações provêm de cartas de Brotero dirigidas a Vandelli. Se Vandelli quisesse escrever cartas anónimas, ia citar nelas extractos de cartas de Brotero, as quais só ele, Vandelli, em princípio podia ter? Isso é o mesmo que esconder o rabo e deixar o gato todo de fora. E porque não havia ele de assinar? O seu nome só por si era argumento de ataque e defesa, dado o prestígio de que gozava.

Abre assim a (Parte) Iª:

Não tenho visto, mas ouvido o conteúdo na Carta de Coimbra; e fechando os olhos sobre as intenções do Venerável que a ditou, não desejara ver senão a letra do Adepto que a escreveu. Porque quando se ataca a honra de algum Corpo, cada um dos seus Membros tem direito de vingar a sua reputação. Quem se mete, por malignidade sua, a fiscalizar o trabalho alheio, não deve levar a mal que também a ele se lhe fiscalize o seu.

Lembremos uma informação casual já aqui prestada, a de que Brotero, quando se tratava de negar filiação em sociedades secretas (Pina Manique era implacável a persegui-las), assinava Padre Félix de Avelar. Donde é lícito concluir que Brotero fosse suspeito de pertencer a uma sociedade secreta, já devia ter sido incomodado pela polícia. Por isso recorria à cobertura de religioso. A que sociedade secreta pertencia ele? Alguma arcádia? As arcádias funcionavam como sociedades secretas, e também como capelas de culto aos santos e à Virgem Maria, aos quais se rezavam bastantes versos. Mas agora já não falamos de agremiações de literatos. Brotero protegia-se com o "Padre" porque a ortodoxia católica era inimiga das sociedades secretas. Dois papas as haviam excomungado, estamos num período de guerras religiosas. E ainda hoje a Igreja lhes é hostil (apesar de ter aceite a maçonaria), porque o cristianismo é uma religião revelada, portanto não comporta mistérios (a não ser alguns dogmas como o da Santíssima Trindade), ritos iniciáticos, juramentos, contratos, militância. De Miles, soldado, primeiro grau de iniciação no culto de Mitra, uma religião de militares e imperadores, a que só homens eram admitidos, em regime de sociedade secreta. Voltarei a Mitra quando tentar entender como apareceu o lagarto em Cabo Verde, pois me parece que fizeram o mesmo trajecto.

Sabemos agora que de facto Brotero pertencia a uma Loja, onde alcançara o elevado grau iniciático de Venerável. Mas comporta-se como um Adepto na opinião do "anónimo", na opinião deste não passa de um Miles, um aprendiz.

A grande relevância destas cartas, mas note-se que nesta época a epistolografia é um género em que se vertem até trabalhos científicos e constituições políticas, vem de serem o único texto abonador da respeitabilidade de Vandelli que conheço, e de prestarem informações inéditas, cujo valor está muito acima das ridicularias criminais veiculadas pela tradição. Brotero e Vandelli eram Veneráveis de uma ordem maçónica, isto é muito importante para a compreensão de ambos e da sua época. Porém, como se nota, em 1950, até esse único documento se vira contra o italiano, quando Fernandes o considera anonimamente escrito por ele.

Confrontei o manuscrito reproduzido por Fernandes com manuscritos autênticos de Vandelli, existentes no arquivo histórico do Museu Bocage, e a letra, nem falsificada por um perito a fingir que não era dele, dele podia ser. O autor das cartas "anónimas" tem letra seguríssima, Vandelli até na caligrafia tropeça. Mas o tipo de discurso é mais concludente para provar que Vandelli não as escreveu.

Já vimos como o italiano redigia mal em francês, e essa deficiência ultrapassava o facto de não saber francês. Vejamos agora um qualquer fragmento dele na nossa língua, seja uma passagem da Memória sobre a Agricultura (1789). Para o efeito, não actualizo ortografias, o mais que posso é indicar que o grafema "f" vale por "s" e "ff" por "ss". Comparemos os discursos:

Texto de Vandelli
Texto considerado anónimo

Vandelli tropeça, tem um discurso acanhado, penoso, sem desenvoltura. Não revela poder de expressão e nem o mínimo vestígio de oralidade. O texto "anónimo" arregaça as mangas nesse aspecto, é desenvolto: interrogações, tratamentos falsamente deferentes dados a Brotero, indicadores de actualidade - ainda agora? Expressões coloquiais - algum bizoiro, aliás coloquiais eruditas, pois trata-se de uma evocação do zumbido a que Sócrates atribuía os seus pensamentos e actos, chamando-lhe daymon. Isto tem por detrás pessoa ágil a trepar ao púlpito. Afirmo sem receio nenhum: este texto dito anónimo foi escrito por um padre, pessoa habituada a dirigir-se aos fiéis, a interpelá-los, prático portanto da oratória. Mas a mais clara marca de oratória enquanto táxone literário é a sinestesia (metáfora que consiste em trocar percepções sensoriais, como ouvir cores e ver sons) patente no intróito, digna de Padre António Vieira. "Vejo o que ouvia" é algo de muito bom em literatura para provir de uma pessoa como Vandelli, que escreve tal como em terra caminha um albatroz. Se o italiano quisesse transmitir a ideia contida naquela metáfora, tinha de suar assim: "Na minha primeira carta precisei de responder ao Venerável sem saber o que ele tinha dito, porque ainda não me chegara às mãos a sua Tremenda a desonrar a Universidade, os lentes e a mim próprio. Só sabia do caso por uns comentários que Irmãos me fizeram. Agora, porém, deram-me esse escrito, tenho-o à minha frente, e já posso redigir a defesa do Corpo com conhecimento de causa, e comentá-lo sem receio de repetir só uns boatos".
Vejo o que ouvia, basta ao padre.

Estas cartas são dirigidas a Vandelli porque o italiano, se não era tão Venerável como Brotero, devia ser Grão-Mestre, para merecer desagravo de quem se sente nesse direito, de acordo com os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Qualquer Membro podia defender o Corpo, em se atacando a honra de qualquer dos seus Membros. As duas cartas incluem citações de cartas e usam discurso epistolar, mas na essência constituem um relatório. Notem-se de novo as duas faltas enormíssimas: não estão assinadas e não têm escrito "Ilustríssimo Dr. Vandelli, Gabinete da Ajuda". Donde, mais uma vez estes documentos são parte de um todo, estão incompletos. Falta a carta propriamente dita, dirigida a Vandelli, rezando algo assim: "Junto envio as Cartas Iª e IIª para defender o Corpo da infame Tremenda do Venerável Amigo dos Mortais". Brotero, de brotos+eros, significa amante, amigo dos homens.

Quem escreveu esta carta!? Outro Membro do Corpo, como aliás vem explícito. Outra pessoa que tinha acesso às cartas de Brotero enviadas a Vandelli, e pelos vistos as guardou, mais religiosamente do que o italiano, numa pastinha de arquivo com o rótulo "Correspondência": o Secretário.

Mas, na verdade, faltando embora a carta propriamente dita, ela não devia rezar "Ilustríssimo Dr. Vandelli" nem assinar-se com um nome identificável do público, o que não quer dizer que os documentos sejam anónimos. São documentos secretos, de maçon para maçon, atacando outro maçon ou pedreiro-livre. Adeptos e Veneráveis são designações maçónicas de graus de iniciação, tal como Corpo e Membros se referem a ordem maçónica e seus irmãos ou confrades (de frater).

A inscrição grega, em Fernandes traduzida por "Do amigo para o amigo", não estará codificada? Filós surge em vários nomes de ordens iniciáticas: Filaletos (Amigos da Verdade), Filadelfos (Amigos dos Irmãos). Outra chamava-se Encruzilhada da Amizade.

Por outro lado, não há filós sem sofia, ainda que duas vezes (bis) se escreva filós e vez nenhuma sofia. Bis=Rebis (Hermes+Afrodite)=hermafrodita. Nesta fórmula, a pedra oculta-se em "ermai", monolitos que nos ermos se erigiam para orientar os hermitas, filósofos herméticos, eremitas ou ermitões. Esses que no campo buscavam simples, salamandras, obsidianas, observavam os astros, colhiam o orvalho de Maio, e vieram a ter o nome de botânicos, geólogos, etc., tal como as ermai vieram a ter o nome de ermidas e catedrais, as arcádias vieram a chamar-se capelas ou panelinhas, etc., etc.. As palavras são como as espécies, têm uma origem filogenética antiquíssima.

Diz-se que a alquimia nasceu no Egipto, remonta a mil anos a. C. Quem a remete para a China, atribui-lhe maior antiguidade ainda. Quando os gregos a assimilam, no séc. I a.C, identificam com divindades gregas as egípcias, consignadas estas no Livro dos Mortos, a mais antiga escatologia que se conhece. A seguir aparece a alquimia árabe. Em fase posterior, na Europa, a sua simbólica será em parte cristã. Com as perseguições do Santo Ofício, a alquimia é desprestigiada, e o alquimista (meigo ou mago, eremita, filósofo hermético, etc.) passa a ser conotado com o Demónio e a sua arte com práticas infernais. Entre as várias artes dos alquimistas conta-se a mumificação e empalhamento dos animais, e a ervanária. À sua maneira oculta, e não revelada, conheciam muito bem os astros, os metais, as pedras, os animais e as plantas.

A maçonaria, que tem um lado prático, ligado às corporações de ofícios (pedreiros, ferreiros, tintureiros, oleiros, vidraceiros, donde a Loja) adopta como teoria a filosofia hermética. Na síntese de oficina e especulação está a pedra filosofal, misterioso alvo do maçon.

Em certas sociedades iniciáticas, as designações de cargos bebem na tradição egípcia. Numa, o Secretário era referido por Thot, o Escriba Divino do Livro dos Mortos, que os gregos assimilaram a Hermes, o Três Vezes Grande, relacionado com Mercúrio, cujo hieróglifo é a serpente. Essa serpente que na iconografia do séc. XVIII surge aos pés de um Mitra toucado com o barrete frígio.

Tudo o que se põe na cabeça é sinal de identificação. A mitra primitiva só cobria o sétimo chacra, identificado por Crespo e Viegas (1991) com a glândula pineal. Nas mitríacas frígias é um barrete vermelho, fálico. Esta simbólica mantém-se no Egipto, onde Mitra preside à erecção dos obeliscos. No tempo romano, dizia-se libéria, por distinguir os escravos libertos. Na Revolução Francesa, o barrete frígio era usado pelos sans-culottes como amuleto, destinado a protegê-los dos terrores revolucionários. Nos ritos maçónicos, oferecia-se assim ao adepto: "Enfia este barrete, ele vale mais que a coroa de um rei".

O barrete frígio é o mais importante distintivo dos maçons, e aquela frase é anti-monárquica. Luís XVI e Maria Antonieta não perderam só a coroa, perderam também a pineal e a pinha, que diz respeito igualmente ao Pinus pinaster de D. Dinis: "Ay flores, ay flores do verde pino!" Estas flores são no entanto como as rosas da Rainha Santa, arrisco fleurs de lys. Porque Isabel é Ys+Abelha na linguagem esotérica. O Reino de Ys é o das fadas, provavelmente de Isis. Estes himenópteros tiveram na Anatólia uma cidade que as venerou, Effes, cujo significado é abelha.

Porque é que a alcunha de Brotero era O da Barretinha? Por ser ruivo ou ter usado em público o barrete frígio? Ele era ruivo, sim. Mas é preciso mais alguma coisa para se associar o cabelo a um capelo vermelho. E tinha língua muito comprida e viperina. A primeira regra a cumprir é a do segredo, mas verdade se diga que, se Brotero não fosse um intriguista, agora não sabíamos que Vandelli e ele se arriscaram a ir direitinhos para a fogueira.

Vandelli devia ser uma pessoa como Goëthe, que de um lado foi pré-evolucionista, de outro alquimista. O italiano lidou com apedra, o fogo, o enxofre, o sal, censurou os que à cabeça da riqueza colocam o ouro. O ouro dos filósofos obtém-se pelo aperfeiçoamento espiritual de quem realiza a Grande Obra. Há um artigo dele acerca da transmutação do ferro em perfeito aço, ora o aço hermético não é um metal. Terá sido este o artigo que o cobriu de ridículo? Isso era supor que os colegas soubessem mais do que ele. O que em geral cobre de ridículo estes homens é o que trazem de diferente. Vimos Pombal a zombar dos sequazes de Lineu. A achar muito bem que as beldroegas e poejos servissem para ensinar medicina, e muito mal que num jardim botânico se fosse além disso. Ontem, como hoje, não são os Vandellis que enfiam barretes a outrem. Os colegas, porém, chamavam charlatão a Brotero. Por ele lhes ter enfiado o barrete ou por discordar da reforma de Sebastião?

Com toda esta filosofia natural, outro nome da alquimia, os Broteros e Vandellis alcançaram a vanguarda e fala-se deles ainda hoje. Os lentes seus colegas, quem eram?

O Século das Luzes só se completa com o Século do Eclipse Total. E este é bem mais excitante intelectualmente, afinal são os ditos obscurantistas que dão um passo em frente na ciência, na defesa da liberdade, na luta contra o despotismo político e inquisitorial. Post tenebras lux, a luz sai das trevas, diziam Iluminados como o romântico Goethe. Mais esclarecido que os iluministas.

O que eu decifro naquela inscrição em caracteres gregos é algo reunível numa só palavra como Filaletos ou Filadelfos. Filoteófilos? Também pode dar-se o caso de o Secretário ter endereçado a carta a Vandelli, usando o seu nome de maçon: Amigo Teófilo. Ou algo assim.

Finalmente, e não voltemos a falar no assunto: Vandelli está inocente de todas as acusações que lhe fizeram, excepto a de ser um economista que sonhava com a CEE, um jacobino, um Venerável ou Grão-Mestre de ordem maçónica. De maçon, pedreiro, invocação do operariado à boa maneira revolucionária. Secretamente, o termo alude de facto aos construtores de catedrais, aos que assinavam na pedra com "hieróglifos", símbolos sagrados. Mais secretamente ainda, estes pedreiros ou construtores de catedrais são os próprios Pedros - "Pedro, tu és pedra, e sobre a tua pedra edificarei a minha Igreja".

Há quem pense que a maçonaria é ateísta, mas ela admite a pluralidade de credos e de ideias políticas. De qualquer modo, os pedreiros-livres eram tidos por ateus, irreligiosos e inimigos da Igreja. Por isso, quando Pina Manique o investigava, Brotero assinava Padre Félix da Silva e Avelar. Donde se entende agora por que motivo o seu nome não figura nas listas dos perseguidos pela Inquisição, havendo suspeita de medos, perigos e perseguições. Com certeza, era um suspeito da outra polícia, a régia, por ser maçon.

Na época de Vandelli, a maçonaria portuguesa, de inspiração romântica, imbuída dos ideais liberalistas da Revolução Francesa, ainda era embrionária, circunscrita a uns poucos adeptos, geralmente intelectuais. Mais cultural do que política, dedicava-se a obras de caridade e defendia o ensino laico. Mas nela já se acalentava novo regime, adversário do absolutismo e da monarquia, a república.

Que pecado maior cometeu o italiano? O de ser aquilo a que hoje chamamos um democrata, um progressista, um homem de esquerda. Tudo o mais que dele se conta é perseguição monárquica, perda de referências históricas, leitura incorrecta e superficial das fontes, e uma grande fantasia.

MAIS LUZ


Já depois de acabado este livro, tive oportunidade de consultar os dois primeiros volumes de Voyage en Portugal, de Link (1803), edição anterior à utilizada por Daget & Saldanha, de 1808. Descobri ainda a existência de uma edição inglesa de 1801 e de uma alemã de 1802. Link fez sucesso, não espanta que tivesse alertado Napoleão. É mesmo caso para perguntar: porque é que estas viagens na terra alheia foram um best seller? Para desviar as atenções do Imperador, de outro país qualquer para Portugal?

Link parece um ingénuo, mas o amigo, o conde de Hoffmansegg, talvez não fosse. Lisboa era a cidade europeia com mais espiões por centímetro quadrado. E a botânica foi óptimo pretexto para Link & Cia vistoriarem Portugal de norte a sul. No tempo de Bocage, haverá problemas gravíssimos com o explorador Stanley, por espalhar aos quatro ventos que Portugal mantinha o tráfico da escravatura depois da segunda ou terceira abolição, o que de resto outros países faziam. Estes assuntos discutiam-se na Sociedade de Geografia, promotora das explorações de Serpa Pinto, Capelo e Ivens, com os ministros a declararem (em 1885):

A política internacional, como todas as coisas deste mundo, não se compõe apenas de aspectos elevados e de acções grandiosas e francas. (...) A espionagem, a propaganda e a intriga, - porque não há-de dizer-se, se o sentiram todos? - fizeram por toda a parle um bom e activo serviço... contra nós. (Luciano Cordeiro)

Nesta edição de 1803, Link escreve Feijào e diz que o conheceu pessoalmente. Terá sido o próprio Feijão a mostrar-lhe o herbário e as borboletas, dando ideia de se tratar de colecções particulares:

Depuis, le gouvernement a envoyé, pour les progrès de I' histoire naturelle, un certain Feijào, dont il y a quelques traités dans les Memórias Económicas de l' Académie, aux îles du Cap Verd. II y est resté quatorze ans. A présent il est au Brésil pour le même objet. J' ai fait sa connaissance à Lisbonne; il avait un herbier qui n' était pas en trop bon état, une collection de papillons enveloppés dans du papier; (plusieurs centaines d'échantillons de chaque sorte,) et des graines de quelques espèces de plantes, specifiées seulement sous Ies dénominations reçues dans ces îles...

Quanto a Brotero, Link declara-se seu amigo. Concede essa honra ao português. E põe-lhe a mão no ombro, Brotero lera os botânicos alemães. Deve ter ido a Coimbra de propósito para examinar O da Barretinha. Dá-lhe nota melhor que a Feijó, por Brotero "ter respondido quase sempre de maneira satisfatória".

Link é um pedante, as suas opiniões são ligeiras. Pesado é o que Brotero lhe ensinou, para o alemão passar mais este atestado de menoridade intelectual a Alexandre Rodrigues Ferreira e de inocência a Domingos Vandelli:

Brotero connaít les ouvrages des botanistes Allemands. Pour cultiver Ia science, il a fait un séjour de huit ans à Paris; il n' a pas été élevé à Coimbre, et c' est pour cette raison que ses collègues lui causent mille désagrémens; il est miné par le chagrin et Ia mélancolie. Vandelli l' éloigna de Lisbonne, parce qu' il avait trop de connaissances, et trouva moyen de procurer à D. Alexandre, homme sans érudition, une place qui était due au mérite de Brotero.

Vandelli protegia Alexandre, dera a este um lugar na Ajuda cobiçado por Brotero, o de vice-director. Porque é que a posteridade o encobriu, lançando sobre Vandelli uma tão ininterrupta trama de mentiras? Este caso merece investigação mais documentada.

Comecemos pelas cartas anónimas, que nem são anónimas nem são cartas.

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008). Aposentada no cargo de Assessor Principal, no Museu Bocage (Museu Nacional de História Natural - Universidade de Lisboa).