Querido Acácio Barradas -
Hoje, por exemplo: oito e meia da manhã, o dia acordou radiante. Ontem, pelas seis da tarde, uma Lua enorme, pousada num monte a Sudeste do pico de Santa Isabel, parecia um Graal expectante, antes de se decidir a trepar ritualmente a escada de Jacob. Maravilha, certo? Sim, mas não exclusividade minha.
Nem tudo é tão claro como parece, antes de metermos ombros a dada tarefa. Não o conseguiríamos imaginar, quando, há tempos, naquele restaurante do Bairro Alto, me desafiaste a escrever sobre os factos interessantes da terra. A situação é de tal forma delicada que não poderei identificar o lugar em que me encontro, nem tratar as pessoas pelos nomes verdadeiros, e ainda menos atacar o vivo da questão, sem me pôr em risco. Para me proteger, Acácio, impedir-me-ei de retratar a aldeia ao modo naturalístico do jornalismo.
Nada é como outrora, o espaço perdeu a inocência. Aliás, nem se trata de a aldeia ter sido antigamente mais pura do que hoje, ignoro se algum dia o foi, sim de ter eu recebido informações que tornam a realidade incompatível com a inocência com que nós, no restaurante do Bairro Alto, a degustávamos.
Que te disse eu então para te despertar o apetite da leitura? Que não havia pobres por aqui, e realmente não se vêem mendigos. Quase todos, especialmente mulheres, recebem a pensão de sobrevivência, e conseguem sobreviver com ela. Não gastam um cêntimo aereamente. Formados no tempo em que uma sardinha era almoço para toda a família, não gastam. Os velhos vivem num mundo diverso do nosso, sem contágio da sociedade de consumo.
Contei que bebemos vinho, gastamos azeite, e comemos uvas, maçãs, tomates, batatas, etc., ao preço de pérolas, pois ficaria bem mais barato comprar os alimentos no supermercado. Mas não é possível deixar as terras num tal abandono que as cobras e as ervas daninhas venham ter connosco à cama. Para não consentir que o mato nos entre em casa, é preciso alguma agricultura, e essa torna os produtos caríssimos. O Inácio cobra vinte e cinco euros por dia de trabalho, mais o mata-bicho, o almoço e a merenda. Um débil, um tipo com ar de tísico. E achas que se faz uma vindima rogando o Inácio por um dia? A vindima tem-se feito numa manhã, porque já quase nada cultivamos, mas vem um parente de longe numa carrinha de caixa coberta, com cinco ou seis trabalhadores novos, fortes, já muito treinados, fazer esse trabalho. Trazem sacos de plástico para guardar a mourisca e a malvasia fina, não cantam, não se leva a merenda aos campos, já os homens não transportam as uvas monte acima nos cestos de vime, as costas dobradas sob a canseira. A festa morreu. E essa é a grande diferença, Acácio: não é só a questão de o pequeno agricultor não ter possibilidade de competir com os grandes agricultores europeus, e nem precisa de competir com ninguém, se for só cultivar para comer; o que mais dói é o desaparecimento da alegria nas colheitas e nas sementeiras. Acabaram as desfolhadas, já não há vindimas comunitárias, com piadas, risos, namoros e cantorias. Se algo sobra, para nós, idêntico ao que era na nossa juventude, é a apanha da azeitona, por ainda não ter deixado de ser um martírio.
Comentei contigo que a terra dispunha de tudo, para além dos talhos e outras naturais lojas de comércio, e realmente podemos ir os dois à Chez Clotilde, num passeio há trinta anos por todos os motivos inconcebível, entregar à pouca prática das cabeleireiras, não só a cabeça como as unhas dos pés e das mãos. Que na terra havia farmácia, e escola de condução, e estaminé de marceneiro e advogado, e os normais serviços de saúde, na Casa do Povo. Contei-te que se construíam casas de luxo, e que uma, antes de acabada, já era famosa por ter piscina interior. Dessa posso acrescentar que a mobília custou cerca de oitenta mil contos. Acácio, oitenta mil contos é uma mina de euros, não estamos a falar do preço da casa, sim do preço das camas e cadeiras, das facas e dos garfos…
Que mais te disse eu? Que temos na terra um night club, pelo qual passam e alternam raparigas, algumas, que ouvi e vi, de nacionalidade brasileira, em pleno inverno tiritando na rua debaixo de gangas da moda, rasgadas e puídas… Quando aquilo abriu eu fui lá com os meus primos, era uma discoteca aceitável. Hoje, não sei. Garantem-me, no entanto, que ali não há prostituição, trata-se apenas de levar os homens a pagar por uma garrafa de Raposeira o que pagariam na adega por um tonel.
E comentámos que nem bonitas eram e às vezes são bem velhas e feias, as putas. Onde desencantam o encanto? E tu deslindaste o enigma com singeleza: para um bêbado, qualquer mono pintado é uma princesa.
Outrora as manhãs acordavam tão radiantes como hoje, mas na profundidade dos vales não se repercutia a música pimba que me chega aos ouvidos, e pelos vistos chega todas as segundas, quartas e sextas-feiras, mais ou menos à mesma hora rotineira, anunciando a chegada da carrinha do peixe fresco. Ou descongelado.
E que mais há neste tão avançado mundo campesino de uma aldeia, que deixaria coradas de vergonha cidades importantes? Pois, além da igreja, do cemitério, de inúmeras ermidas e nichos de santos no discurso dos caminhos, temos uma pousada para turismo rural, dois hotéis, quatro ou cinco cafés, com ou sem os respectivos restaurantes, um deles churrascaria, e bomba de gasolina, e creche, e que mais? Sim, temos duas aulas de ginástica para senhoras, e médico podologista. Não há endireita nem bruxa, para os consultar é preciso ir a outras aldeias, mas verdade se diga que fica tudo na mesma freguesia.
E que mais não há? Teatro, cinema, biblioteca… Existem mini-mercados e mercearias, sim, existem lojas de roupas, estâncias de construção civil e vendas de mármores, barbecues, salamandras e lareiras, mas não há nenhuma livraria. Já passei por um letreiro a anunciar que se reparam televisores e outros aparelhos de entreter, mas não temos sequer um quiosque onde se possa comprar um jornal ou uma revista.
Acácio, parece tudo tão rico e importante… Há tempos queixava-se a Helena, que foi minha ama de leite, de sofrer mais de nada fazer do que da doença, quando calhava ficar acamada. E eu aconselhei-a a ler um livro. Que bem gostava mas não sabia ler, e às vezes pedia à irmã que lhe lesse, a irmã mais nova, a Candidinha, essa, sim, tinha ido à escola…
Esta gente não gasta um cêntimo a não ser para construir, esta gente tem dinheiro, ganhou-o em França, na Alemanha e na Suíça. Com que dores? Com que desespero, com que cegueira se anda por terra estrangeira sem conhecer a língua, quando na pátria nem o letreiro de um autocarro se sabe ler?
Escrevia-me num e-mail uma amiga, invejosa da minha aposentadoria, que eu tinha ganho, ao trocar a cidade pelo campo, melhor qualidade de vida. “Qualidade de vida”! Eis um estereótipo que há trinta anos não se conhecia…
Mas eu não me sinto Jacinto em Tormes, e Tormes não fica assim tão longe, não me sinto Aquilino, e as Terras do Demo ficam aqui ao lado, não me sinto Pascoaes, e o Maranus cobriu-se de neve mas já derreteu, vejo-o todo o dia da minha janela – ah, não posso denunciar-me assim, Acácio, a Huíla e o monte Chela também ficam mesmo ao lado, e nem por isso me sinto mais chinesa…
Faltam oito dias para chegar a Primavera, mas a acácia de que te vem o nome, Acácio – o teu pai devia ser maçon, ou o avô –, a Acacia mimosa começou a florir há quinze dias, e a amendoeira, quase de um dia para o outro, cobriu-se de pétalas rosadas.
“Qualidade de vida”, não, a expressão é horrorosa, própria de ofícios e outras burocracias catequéticas. O que eu tenho aqui é grandeza, o espaço da montanha para respirar, a memória entranhada no musgo, líquenes e heras que tentam ocultar, em vão, a beleza dos muros de pedra solta, tão antigos como a nacionalidade, se não forem mais velhos ainda. O que eu tenho não é qualidade de vida, é a dieta prescrita pelo médico, e as mimosas, Acácio, tenho as mimosas douradas, as silvas e as amoras que vou debicando quando me passeio por essas velhas estradas salazaristas e pelas estreitas quelhas em que se ouvem ainda bater as sandálias dos soldados romanos.
É isto o que eu tenho, porque em minha casa não há piscina interior, de resto, nem fora dela a quereria. Não passo noitadas no night club, passo volta e meia ao lado, pela churrascaria, a tomar café, pretexto para caminhadas que circundam outeiros. Aqui o calor é extremo no Verão, o frio é extremo no Inverno, tão frio que andei de casaco comprido dentro de casa, e mitenes nas mãos, só as pontas dos dedos livres para tocar o teclado, quase me sentindo na Rússia, a assinar “Dr. Jivago”… E no entanto, informou o topógrafo que aqui andou na semana passada a fazer estudos, a casa situa-se a quinhentos metros acima do nível do mar. Apenas quinhentos metros, não faço ideia de onde vêm tanto calor e tanto frio.
Os jovens não entendem que eu possa estar nesta Rússia pelo que eles consideram falta de qualidade de vida, e ainda há pouco sofri um vexame por não ter carro para transportar os vinte cinco quilos de Mona Lisa que comprei na Miquelina. “Nós fazemos a entrega, mas a menina não tem carro?!”
Não entendem que se possa estar aqui pela beleza dos muros, das quelhas, não os toca o violino de expressões como “via romana”, sentem desprezo por quem se ocupa no que não dá dinheiro, não valorizam as ruínas ocultas nos silvados, e isto, Acácio, não é reminiscência eciana, é verdadeira nostalgia romântica, o ter na alma o amor pelas ruínas… A máquina fotográfica bem tenta saltar sobre as casas novas, na sua graça de legos, e sobretudo sobre os automóveis. Ficam sem pés as catedrais à força de nivelar o foco acima dos tejadilhos, e não me espantaria a criação de uma estética nova, definível no traço mais grosso pela suspensão dos materiais pesados…
Sim, deleitam-me os restos de parede ocultos entre heras e medronheiros e não me consigo habituar à ideia de que a lata, o cimento e o aço fazem parte da paisagem. Vejo fotógrafos a fazerem paisagismo deixando impecáveis os fios de alta tensão, os caixotes do lixo e as filas cerradas de carros. Eu ainda não naturalizei esses elementos, ainda os considero artificiais. O plástico, então, destrói-me toda a utopia de ruralidade, mas o plástico faz parte já do campo, parece nascer com as ervas. É no plástico que vem o adubo, o herbicida, a semente, é plástico o que fica a boiar sobre a verdura, quando nos afastamos sem o recolhemos para o deitar no lixo.
E das três agências de viagens, Acácio, não te falei? Com autocarros próprios, a sairem duas e três vezes por semana, para a França, para a Bélgica, para o Luxemburgo e tantos destinos da emigração.
Outrora uma povoação confinada, sem periferia de bairros novos. A casa em que vivo foi um dos primeiros legos deixados cair na paisagem, agora ameaçam-na imóveis tão grandes que parecem fortalezas, mas algo nas suas colunatas - nem dóricas, nem jónicas nem coríntias - anuncia fragilidade.
- Uma década é o que duram estas situações, ao fim delas as pessoas acabam por ser apanhadas – informa o meu sobrinho. - Nunca reparaste, tia, que a partir das cinco da tarde estão sempre as mesmas duas pessoas na pastelaria do Aguinaldo? Ali à beira da estrada, os carros param e eles levantam-se para fazer a entrega, passa para cá a massa e voltam a sentar-se.
As agências de viagens em crise, a cancelarem os passeios à Europa por falta de clientela! Os emigrantes a virem só uma vez por ano, nas festas ou nas férias de Verão!
E os hotéis, funcionam? – indaguei. Sim, claro, há gente a dormir neles. As meninas do night club, por exemplo... Tantas são as meninas que precisam de dois hotéis e de pousada para turismo rural? Na pousada, vazia quase sempre, com apenas dois ou três quartos de hóspedes, só pernoitam clientes especiais, que nem devem pagar a conta: certo ministro muito importante que vem com os seus passar fins-de-semana, e pertence à família.
Que não me metesse a fazer de Miss Marple, avisaram-me. Que há assuntos em que é mais prudente não meter o nariz. Olha que a farmácia foi assaltada em pleno dia e de cara descoberta! Olha que eles andam armados! Olha que isto não é como antigamente! Queres ir ao café do Aguinaldo? Vai, vai, mas não viste, não ouviste, não falaste e não sabes de nada.
Acácio, recebe três abraços e BBB desta tua amiga mais silenciosa do que um cágado.
Dada e traçada em algum lugar a Oriente do Templo de Jerusalém, debaixo de uma cintilante Acacia mimosa, antes de chegada a Primavera de 2006, E.’.C.’.
Stella Carbono |