Mude mil vezes de pele, é sempre a mesma cobra. Tenha mil versões, a Cobra (10) é sempre a mesma obra. Quando esse livro saiu, os exemplares oferecidos por Herberto Helder aos críticos e amigos tinham correcções manuscritas, e ao que parece variavam, constituindo versões. Das consequências teóricas dessa intervenção cirúrgica, que levantou comentários nos jornais, ocuparam-se por exemplo Fátima Marinho (11) e Lindeza Diogo (12). O problema de Eduardo Prado Coelho (13) era mais ou menos o seguinte: não existindo a espécie Cobra, sim diversas Cobras híbridas, qual delas, ou o quê nelas se podia citar? Pessoalmente, o que citei (9) foi o que tinha, e o que agora cito é o que citei, com alguns caracteres diferentes. Enfim, estou a dizer que considero tudo citável, desde que assinado pelo autor. Citar um inédito ou o mais recente texto de uma Poesia Toda que já vai em quatro ou cinco edições, sempre diversas, é indiferente para mim, e creio que a outros também não fará grande diferença. Os híbridos têm esse carácter fixo de mutarem de geração para geração. Mais curioso, porém, é que na raiz das emendas há só um pequeno incidente relativo a duas das técnicas de cruzar para obtenção dos híbridos: pela técnica do A é B, ou pela técnica do A é como B. Se dissermos: Os teus olhos são duas rosas, estamos a criar híbridos segundo a técnica do A é B, vulgo metáfora. Em Os teus olhos são como duas rosas, o híbrido resulta do cruzamento segundo a técnica do A é como B. Podemos escrever um ensaio sobre as diferenças, que existem, mas não é pelo facto de as duas técnicas gerarem dois tipos de híbridos que o assunto deixa de ser formalidade. Questão de maneiras, como diz o autor, ou de maneirismo.
A Cobra vendida nas livrarias tinha muitos enunciados do tipo A é como B. Na minha Cobra, versão não sei se única e inédita, muitos enunciados que incluíam a palavra como foram substituídos por enunciados do tipo A é B, ou seja, Herberto Helder transmutou comparações em metáforas. Essa intervenção cirúrgica, que a meus olhos surgiu como artifício, felizmente não se manteve nas edições subsequentes da Poesia Toda. Uma passagem de olhos rápida garantiu que Herberto Helder repôs grande parte das comparações. A única diferença perceptível para mim nas variantes diz respeito à habituação do ouvido a uma certa musicalidade que, por ter sido pela primeira vez apreendida na forma do A é como B, a seguir surge como nota falsa ou forçada na variante A é B. Porque não há motivo, de um lado, para hierarquizar, considerando a metáfora mais valiosa do que a comparação; de outro, nada de substancial se alterou com as variantes. Quer Herberto Helder escreva E o medo, / este favo cerebral que levo, fermenta debaixo / das radiações; um açúcar vivo / e gelado (14), quer escreva E o medo, / este favo cerebral que levo, fermenta debaixo / das radiações como um açúcar vivo / e gelado (15), o híbrido resulta sempre do cruzamento do poeta com uma abelha, o mel continua açucarado.
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