Há quem diga que no mundo só há híbridos, o que é aceitável se pensarmos que a tecnologia eliminou distâncias e fronteiras. Ao fazê-lo, permitiu que culturas, homens, ideias, plantas, animais e objectos transitassem do seu lugar próprio para o de outros, mesclando-se infinitamente -
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos (1) (p. 359).
Desde sempre, e de modo mais conspícuo desde os descobrimentos e expansão da Europa para o universo colonial, se transportaram espécies de região para região, de continente para continente. Umas aclimatavam-se, outras cruzaram-se com as indígenas. Jardins botânicos e zoológicos representam formas residuais dos jardins e estações de aclimatação, destinados a selecção de espécies úteis e ornamentais -
Os jardins deslocam-se através de si próprios com as centelhas, defronte das planas constelações dos espelhos (p. 365).
Temos em casa animais de estimação oriundos de toda a parte do mundo - iguanas e tartarugas da América, osgas da Ásia e da África, peixes e faisões da China, canários que não vieram das Canárias (na região do Porto há cultivo deles), sem falar de galinhas, gatos, pombos, cavalos, machos e mulas, etc., animais que há milénios foram criados mediante técnicas de hibridação e cuja raça vem sendo apurada às vezes por inseminação artificial.
No séc. XVlll, em Portugal, para ostentação de corpo, luxo e obra, tentou-se aclimatar a zebra para puxar as carruagens; com isso se procurava também criar um novo ramo do comércio. No sul de França, aclimatou-se o avestruz, que hoje vive em alguns montes do Alentejo. Outrora, a língua da filosofia natural era o latim, mas não qualquer latim, sim o macarrónico, que é mistura de línguas. A um conjunto de ilhas atlânticas caracterizadas por a sua flora e fauna ser constituída na maior parte por híbridos e espécies transportadas da Europa, África, América e Ásia, deu-se o nome de Macar(r)onésia. É o caso da Madeira, terra natal de Herberto Helder. Hoje falamos todos inglês na Internet e noutras feiras francas da informação, um inglês mais ou menos macarronésio. A feira, a que outros chamaram aldeia global, é espaço de convivência do heteróclito mundo dos híbridos. Mundo a que não é alheio o monstro, o travesti e o carnaval, tudo modos de ir para além dos limites próprios e impostos pela regulamentação social. Modo também de inverter a natural ordem das coisas. O híbrido assume configuração de travesti, pelo facto de os caracteres de uma espécie poderem ficar mascarados sob a predominância dos de outra —
E nas cavernas de coral vivente /pulsam os animais dos horóscopos /andróginos, lunáticos (p. 366).
A palavra híbrido provém de hybris. Hybris é excesso, paixão, orgulho, transgressão dos limites, violação das leis naturais, prole resultante do cruzamento de indivíduos que pertencem a espécies diferentes. Há a escrita híbrida, que mistura letras ou forma palavras com radicais provenientes de línguas diversas, há o estilo híbrido e a poesia macarrónica. Os novos seres de linguagem na poesia de Herberto Helder são criados por cruzamento de imagens oriundas de diversas espécies de real - Todos os dias faço uma idade bubónica (p. 358).
No séc. XIX, os cientistas estabeleciam distinção entre híbridos e mulatos. Darwin (2) informa que mulatos são a descendêndia resultante do cruzamento de indivíduos pertencentes a raças diferentes, seja um caniche e um S. Bernardo, seja um porco e um javali. A designação raça aplica-se a animais (e plantas) under domestication, para usar as suas palavras. Novas raças de canários, pombos, peixes de aquário, lagartos, cobras, salamandras, etc., podem ser criadas pelo homem, mediante selecção artificial. Esta selecção é feita em certos casos por inseminação artificial. Darwin e outros biólogos, mesmo contemporâneos, consideram os mulatos artificiais, por serem fruto da arte e não da natureza. Animais em estado natural, como ele diz, são aqueles em cuja mutação o homem não interferiu, aqueles cuja evolução se deve à selecção natural - isto é, as espécies. Hoje em dia a ciência já não usa o termo mulato. Quer a prole resulte de cruzamento de raças quer de espécies, recebe o nome de híbrido.
Na verdade, a biologia não tem meios, a menos que o saiba antecipadamente, para distinguir híbridos de mulatos e raças de espécies. De outra parte, há muitas definições de espécie, mas espécie é algo que ainda não se sabe ao certo o que é.
As espécies constituem populações razoavelmente homogéneas e estáveis, ao passo que a variabilidade individual é muito grande nas de híbridos. O mundo dos híbridos é altamente heterogéneo e instável, porque os caracteres biológicos não se fixam nas sucessivas gerações. A sua tendência é para regressarem à espécie a que pertence um dos progenitores. Quer dizer que os híbridos estão em contínua e rápida mutação e constituem entre si grupos mais ou menos intermediários. José Augusto Mourão (3), a propósito da Poesia Toda, fala de "escadas", alianças e memoriais, continuidades, e diz que nos poemas qualquer coisa se pode ligar a qualquer coisa. Em gira a noite com seu tronco de planetas (p. 393), por exemplo, temos essa escada e essa ligação entre coisas diversas. Do cruzamento de tronco e planetas resultou um híbrido, a árvore cósmica.
O híbrido assusta a ciência, porque o que a ciência pretende estudar é a espécie. Os híbridos, pela sua inconstância, não constituem grupos de animais que possam ser descritos como algo que existe e continuará existindo na natureza. Se um zoólogo se engana e classifica animais híbridos como espécie, o mais natural é a sua descrição deixar de ser válida, porque na natureza os animais mutam e deixam de corresponder à descrição. Levanta-se aqui problema gravíssimo, o de a zoologia incluir descrições de espécies imaginárias. A ciência pretende lidar com o real e não com a fantasia. Mas surge aqui também um centro de interesse para a arte, que é o de interferir no discurso científico, podendo este então ser descodificado pela exegese literária.
Antes de Darwin, os filósofos naturais fizeram muitas experiências de hibridação, pelos motivos mais variados. Spallanzani, no séc. XVIII, tentou obter híbridos do cruzamento de rãs com sapos e salamandras, entre outros animais, mas o seu objectivo não era propriamente a criação de híbridos, sim averiguar qual o papel do esperma na fecundação (6). Não se sabia, pensava-se que era apenas um estímulo, um agente provocador do desenvolvimento do ovo. Se assim fosse, qualquer elemento activo seria capaz de o provocar. Spallanzani experimentou fertilizar toda a espécie de ovos com toda a espécie de agentes: esperma específico, de espécies diversas daquela a que pertencia o ovo, incluindo a humana, vinagre, sumo de limão, tudo o que se queira imaginar. Estas experiências exigiam certa cautela e sigilo, porque atentavam contra a moral. Para o senso comum, híbridos e monstros participavam da mesma natureza de desvio às leis naturais. Não era a questão técnica levantada por Darwin de distinguir o natural do artificial, sim um problema de valores morais: híbridos e teratologias surgiam como seres contra Natura. Se as malformações não provocadas passavam por castigo de Deus, homem que as provocasse arriscava-se certamente à fogueira. Em Herberto Helder encontramos imagens típicas de monstro, isto é, de total transgressão à lei natural, como na da criança coberta de pólen. O pólen é o equivalente ao esperma no mundo vegetal. É possível cruzar duas espécies de salamandra e duas raças de cães e daí resultarem híbridos. Não é possível cruzar um peixe com uma mulher de modo a obter-se uma sereia. A sereia é uma criatura do imaginário. Menos possível ainda é fertilizar com pólen os ovos de uma salamandra para se obter um híbrido de planta e animal. Mas é possível obter rãs de ovos de rã picando os ovos com um alfinete, é possível obter lagostas de ovos de lagosta escovando os ovos, não porque o alfinete ou a escova tenham capacidade fertilizadora, mas porque esses ovos são férteis e basta um estímulo para desencadear o desenvolvimento embrionário. Nem sempre o esperma é necessário, e há casos em que é substituível por uma escovadela, aumento de temperatura ambiente ou picada de agulha.
O imaginário da Poesia Toda tem certas características constantes: mostra tudo em continua transmutação e metamorfose; essa transmutação é da ordem do biológico e gira em torno do pénis como instrumento privilegiado da reprodução. E da ordem do biológico pois fala-se de casulos, crisálidas, óvulos, ovos, esperma, referem-se os modos de reprodução - viviparidade, ovoviviparidade, oviparidade: Cobra / que acorda no fundo /de si mesma, o halo/ ovoviviparo / levantado ânulo a ânulo; / ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado; / ou as guelras de uma rosa ferozmente / em arco (pp. 360-361). As cobras são em geral ovíparas mas há víboras ovovivíparas, isto é, os filhos desenvolvem-se nos ovos no interior do corpo da mãe; quando a mãe os dá à luz já estão completamente formados. Nestes versos verifica-se uma profunda alteração da ordem natural da vida. Ultrapassa-se a fronteira da similitude dos híbridos e da desordem instaurada pelas teratologias para se passar para o da impossibilidade natural absoluta: nem a cobra é raiz nem a rosa tem guelras. Em termos de estética, estamos completamente fora do vínculo ao real próprio dos realismos.
Disse que no séc. XVIII certas experiências com animais exigiam sigilo, pois eram consideradas atentatórias da moral. Não se estabeleciam distinções entre híbrido, mulato e monstro, tudo isso podia ser encarado como punição de Deus. Contra a ideia de que os defeitos corporais eram castigo divino, insurgiram-se cientistas na transição do séc. XVIII para o XIX. Entre nós, Vandelli é um pioneiro no estudo da anatomia dos monstros. Etienne Geoffroy Saint-Hilaire foi teratologista também, mas é o filho, Isidore Geoffroy Saint-Hilaire, quem virá a estabelecer as bases de uma teratologia cientifica. Fez experiências com ovos, submetidos a condições anormais, e conseguiu pintos anómalos. Todo o tipo de ovos foi usado pelos teratologistas. Finalmente chegou-se à conclusão de que umas anomalias são hereditárias, outras acidentais. O mais importante foi Saint-Hilaire filho ter verificado que as anomalias são casos de variabilidade, mesmo normal, nos indivíduos, susceptível de originar novas espécies ou variedades de uma espécie. Por isso é considerado um precursor da genética e um pré-mutacionista. Ou transmutacionista. O termo usado por Haeckel, em vez de evolução, é transmutação, próprio da alquimia. A incidência da alquimia na obra de Herberto Helder tem sido analisada por vários autores, mais ostensivamente por Maria Lúcia dal Farra (9) e por mim'. O que não tem sido estudado, e era importante que fosse, são as experiências com animais levadas a cabo pelos alquimistas propriamente ditos. Os filósofos naturais eram cientistas completos, filósofos na acepção perfeita da palavra: amantes da sabedoria. A sabedoria é generalízante, oposta à especialização. Mas quando se fala de alquimia e de alquimistas, em norma só se atenta num aspecto particular da sua obra, um entre muitos: o trabalho dos metais. Em Herberto Helder encontramos a nostalgia desse paraíso perdido da última ciência, que começou por ser primeira e hoje já mal existe, pulverizada a sabedoria em múltiplos saberes que se ignoram mutuamente: a obra alquimista, na Poesia Toda, alude à medicina (todos os filósofos naturais eram médicos), à cirurgia (técnica, coisa diversa da medicina, própria em certos momentos dos barbeiros), farmacologia, botânica, astrologia, cartografia, matemática, zoologia, mineralogia, etc.. No etc. falta obviamente o mais importante - a oração, uma vez que esta ciência total chamada filosofia só se concebia como comunicação com Deus, e o lab_oratório, como a palavra indica, era o local onde se orava e laborava. A biologia só nasce como nome próprio de ciência no séc, XIX, com Lamarck. Mas se atentarmos na iconografia e léxico dos alquimistas (o ovo, o andrógino ou rebis, o homúnculo), verificamos que eles experimentaram desde muito cedo técnicas que hoje caem sob a alçada da engenharia genética. Aliás, a inseminação artificial é conhecida pelo menos desde o séc. XIII. Os árabes usavam-na para apuramento de raças de cavalos. Há trabalhos sobre as farmacopeias alquimistas, essencialmente baseadas nas plantas, se bem que um ou outro remédio tenha base animal. Estudos sobre experiências com animais, e muito em especial para esclarecer o fenómeno da reprodução, repito que não conheço nenhum. A reprodução entra no domínio da biologia, ciência considerada nova. O estudo das experiências de biologia feitas pelos alquimistas é então muito importante, não só em termos de história da ciência, mas para se saber que animais hoje considerados espécies e mesmo endemismos não serão híbridos.
Mutação, transmutação, evolução, metamorfose são palavras que exprimem a ideia de estar a vida em permanente mudança. Alguns sabiam que é possível ao homem acelerar ou provocar essa transmutação. O arcaboiço destas teorias é por consequência alquimista; os alquimistas, com a transmutação, pretendiam imitar a Natureza e aperfeiçoá-la. Nesta ideia de aperfeiçoar a criação divina há muito de hybris, orgulho, donde a heresia. Oposta é a corrente fixista, a que acreditava, ou acredita, que as espécies são imutáveis. Há no entanto uma diferença profunda entre evolução e transmutação: na primeira, para uma nova espécie surgir, há necessidade de milhões de anos. Os que criam animais domésticos, os cruzam por selecção artificial e obtêm híbridos, sabem que novas raças, susceptíveis de gerarem novas espécies, só precisam de décadas para fixar os caracteres, desde que os animais sejam seleccionados pelos caracteres desejados e impossibilitados de se cruzarem com animais que não apresentam esses caracteres (lã fina e branca, por exemplo). Por isso os alquimistas tinham razão ao afirmarem que aquilo que à Natureza levava muito tempo a transmutar, podiam eles conseguir depressa, usando os recursos próprios da Arte. Via rápida era a do fogo. Ora o aumento da temperatura acelera certos processos narurais. Para provocar o desenvolvimento embrionário de ovos férteis basta em certos casos aumentar-lhes a temperatura ambiente - A estreia voltaica queimando / a minha obra / morosa afina sombriamente cada cara (p. 396).
O aparecimento de caracteres dominantes e recessivos nas sucessivas gerações de híbridos obedece a certas leis. Há formas constantes que aparecem, tal como são constantes algumas combinações de caracteres. No caso dos pombos, o preto é em geral dominante e o azul é recessivo. Quer nas plantas quer nos animais, o albinismo é um carácter recessivo. Em Herberto Helder, a maior parte das imagens contém caracteres dominantes que reaparecem em poemas de várias épocas, com graus de variação maior ou menor. Digamos que essa constância lhe modela o estilo, inconfundível. É a transmutação do corpo em espelho, em metal ou em vegetal; é a transmutação da noite em matéria orgânica; é a transmutação do poema em animal. Ou são os quartos que assumem dimensão de galáxia, ou é a galáxia que vem habitar o quarto ou o coração. Outras hão-de ser recessivas: reaparecem uma vez por acaso, nunca mais aparecem.
Se Mendel esrabeleceu as leis da hereditariedade, o que dá a ideia de fenómenos ordenados, Darwin dizia que, se os animais se cruzassem livre-mente, no mundo não havia espécies, só caos. Parece claro que o universo herbertiano se adapta mais à opinião de Darwin do que às leis de Mendel: nos poemas, não existe só a liberdade de os seres se cruzarem entre si, independentemente da espécie, família ou classe a que pertençam; tudo se cruza com tudo, donde o caos não podia ser maior. Caos é hybris, matéria de paixão criadora. Os filhos da poesia são palavras, frases escritas, poemas, linguagem cosmificada. Mas esta linguagem não é só linguagem, código alheio que se aprenda na escola. O poema nasce do ser do poeta, é biológico como a fala, o andar, o respirar, o reproduzir-se. Se quisermos, em Herberto Helder a concepção de poema não é tanto da ordem do cultural (adquirido), sim da ordem do natural (inato):
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos - a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos - (p. 578).
Esta ideia de que o poema é biológico entra em conflito com a necessidade expressa por Darwin, e partilhada ainda hoje por alguns biólogos, de separar as espécies das raças, ou seja, os animais em estado natural (selvagens) daqueles cuja mutação é obra humana (domésticos ou artificiais). Os seres, seja qual for a sua origem, fazem parte da mesma Criação. Animais criados pelo homem são naturais. Por muito híbridos que sejam os canários cor de salmão, não deixam por isso de viver, cantar, sofrer, de ser bichos como nós. A distinção entre artificial e natural pode ser perigosa, porque a sua raiz ideológica é discriminatória. De outra parte, falando-se hoje de animais criados por clonagem, entre outras possibilidades da engenharia genética, é bom saber que direitos vamos nós conceder aos seres que pelos vistos já começámos a criar.