Procurar textos
 
 

 

 

 







Maria Estela Guedes
Cândidos animais transmutando-se
In: O Escritor, Revista da Associação Portuguesa de Escritores
Lisboa, nº 9, págs: 182-190, 1997

INDEX

A natureza dos híbridos
Técnicas de cruzamento para obtenção de híbridos
Regressando ao casulo
Notas

Regressando ao casulo

Forçoso é verificar que, volvidos dezoito anos sobre Herberto Helder, Poeta Obscuro (9), nada acrescentei ao que já tinha dito, apenas dei diversos pais à metáfora, com isso criando mais um híbrido. Os híbridos são sempre novos, têm essa grande vantagem. E não mudou o meu amor pela Poesia Toda, pode é ter mudado o modo de o viver e transmitir. Porque todos os dias fazemos uma idade bubónica, e a transmutação afecta o gesto, as maneiras sociais. Falo de amor sem maneirismos, do meu gostar da Poesia Toda, coisa diversa de lhe garantir a qualidade para a impor aos leitores, pois o consenso já nos dispensa disso. E há outra coisa que a Poesia Toda dispensa: emendas, sobressaltos, afectações, silêncios, invisibilidades, recusas. O facto de o autor eliminar ou acrescentar versos e poemas, de lhes introduzir alterações maiores ou menores, neste momento já não afecta a Poesia Toda. Há autores com capacidade metamórfica de outro grau, como Fernando Pessoa. A esses, o mais e o menos, o melhor e o pior, afectam, porque podem inclinar drasticamente o sentido ou abrir as obras para leituras inesperadas. Autores que reflectem ou acompanham o devir social e histórico, pela via de uma linguagem realista, variam os temas e os assuntos, e então a falta, acrescento ou emenda dos textos, têm consequências no que toca a conhecê-los no todo ou só na parte, bem ou mal. A flexibilidade de Herberto Helder incide sobretudo no registo da linguagem, não em géneros e assuntos, disso sendo exemplo a hesitação entre metáfora e comparação. Nem sequer há grande diferença entre a sua prosa e o seu verso, entre a sua frase sintáctica e assintáctica. Tudo isso é da ordem das maneiras. O impacto de Herberto Helder vem-lhe do afecto, situa-se na área da paixão. Manífesta-se pela capacidade de pôr o leitor a vibrar como um colar de pérolas" (16). Os acontecimentos narram-se, as ideias explicam-se. Com Herberto Helder acontece algo que nem se narra nem se explica, mas é partilhável - visões e sentimentos. Por isso todos nós, quando fazemos crítica, por muito que escrevamos textos diferentes, acabamos por partilhar sempre o mesmo bem comum, sejam as metáforas em Lindeza Diogo, seja a alquimia da linguagem em Maria Lúcia Dal Farra, o jardim de símbolos de Ferreira de Almeida (17), a imagem religiosa, sem ou com paródia, de Ribeiro Ferreira (18) e Carvalho da Silva (19), sejam os meus híbridos. Diversas maneiras de seguir viagem, dando todos passos em volta do mesmo lugar. Lugar onde a criança do excerto em epígrafe apresenta uma cicatriz. Quem é esta criança? Toda a arte é sacra, dizia o ateu Ernesto de Sousa. E nós, ateístas graças não talvez a Deus mas ao telescópio, comboio e Internet, se de algo temos saudade violenta é de Deus. Só esta presença mais ou menos clandestina e fantasmática justifica porventura que tantos membros do clero adiram à poesia de Herberto Helder e falem mesmo de paixão.

Paixão.

A criança da cicatriz no tórax quem poderá ser, valha-me o Bom Jesus (sem Braga)? Um híbrido, certamente. O mais perfeito híbrido que existe, metade humano e metade divino. Com a sua graça de poeta polinizado me despeço.

 

 

 
   
   

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano