MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed Guimarães

Relíquias

"Relíquia" é um termo usado em vários campos do conhecimento. Por exemplo, em Ciências Naturais, designa uma espécie sem parentes próximos, um grupo de seres vivos que se põe como hipótese seja sobrevivente de uma família desaparecida. Assim a Gingko biloba, assim o Celacanto, assim se considerou serem os lagartos gigantes de Cabo Verde, Macroscincus coctei.

Não simpatizo com relíquias, e satirizo-as quanto posso. Me parece que, participem elas do domínio científico ou sagrado, exigem de nós, não aceitação de provas, sim manifesto de fé.

Assim acontece num segmento da minha peça "Tango Sebastião", em que me rio do segundo braço direito do santo. Provavelmente, até tenho motivo para rir, sim, da falsidade do caso. É que na procissão de graças a S. Sebastião, em Lisboa, por ter vindo ao mundo o príncipe que conhecemos como O Desejado, foi apresentada uma relíquia oferecida pelo Imperador Carlos V: o braço de S. Sebastião. Não sei se era braço esquerdo se direito, parto do princípio de que seria o direito, pois o canhoto fica do lado do Diabo e não de Deus. E qualquer turista que tenha visitado o Museu Topkapi viu, numa vitrina, o braço de S. Sebastião. Não me lembro se seria o direito se o esquerdo, mas não me parece que Cristianismo e Islamismo, religiões irmãs, sejam diferentes a ponto de exibirem membros que simbolicamente ficariam do lado do Canhoto, por isso, é óbvio e transparente que, em matéria de relíquias de S. Sebastião, é preciso contar com dois braços direitos, no mínimo.

Eu estudei muito poucos santos. Além de S. Sebastião, só me lembro de S. Frei Gil, cujos ossos se mantinham num relicário numa igreja de Lisboa. A dada altura, a Igreja quis saber que relíquias eram aquelas, se realmente eram os restos mortais de S. Frei Gil. A Antropologia pronunciou-se, uma das vozes foi a do Luís Lopes, por acaso um amigo meu já falecido há uns anos, informando, não que os ossos pertenciam ou não ao santo, sim o que diziam aqueles ossos. Ora aqueles ossos pertenciam a um homem falecido aí com 40 ou 50 anos, não me recordo, eram ossos normais, sem doenças, e aqui está a prova fundamental, porque, para o fim da vida, e S. Frei Gil diz-se que morreu muito velho, nessa idade ele já só andava de muletas.

Porém eu não quero falar dessas relíquias, sim da obra de arte, sobretudo daquela que inevitavelmente perdeu a categoria de relíquia com o aparecimento das tecnologias de reprodução e mais especialmente com a nova concepção de obra de arte decorrente das teses de Walter Benjamin acerca da fotografia e outras modalidades estéticas infinitamente reprodutíveis.

A arte dessacralizou-se em duas vertentes, pelo menos: de uma, a sua democratização provocou o aparecimento de um discurso da banalidade, fez com que grande parte dos visitantes do Louvre, diante da Gioconda, v.g., torçam o nariz diante de uma coisinha daquelas. De outra parte, a replicação do único em infinitos retirou à arte a categoria de relíquia, de objeto sagrado. 

E há outra história ainda, a do gabinete de curiosidades de Frei Manuel do Cenáculo, a cuja história perdi o rasto, mas em dada altura estava no seguinte pé: certos objetos existentes em Évora, pertenciam ou não ao gabinete do ilustre homem de Igreja? Se sim, podia encarar-se a hipótese de restauro e reedificação do museu; caso contrário, os objetos careciam de valor.

Bom, a minha posição em casos destes é que não podemos tratar espécimes de plantas e animais como se fossem relíquias. A menos que esses objetos tenham servido para a descrição original de espécies, ou a menos que esses objetos se revelem pertencer a espécies extintas, não têm valor científico nem museológico. Para mim, havendo catálogo das espécies, o que tem valor é o catálogo, pois tatus, sardões, araras e surucucus podem adquirir-se nos nossos dias para fins tão interessantes como esse, o de recriar o gabinete de curiosidades de um dos intelectuais portugueses mais importantes do século XVIII. 

A relíquia exige de nós um poder de contemplação e embevecimento próprios de beatério. Eça de Queirós, no seu tempo, sabia perfeitamente que existe uma arte de fabricar relíquias e o consequente comércio mundial de tais raridades. Daí o seu riso, daí A relíquia.

 
 
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Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, do Instituto São Tomás de Aquino e da Associação 25 de Abril. Directora do TriploV. Membro das Comissões Interinstitucionais da Academia Lusófona Luís de Camões e do Instituto Fernando Pessoa - Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas. Nessa qualidade vem integrando as Comissões de Honra de diversos congressos.

 

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013; Folhas de Flandres,  Lisboa, Apenas Livros, 2014; dir. CadeRnos SuRRealismo Sempre, na Apenas Livros. Nessa coleção, "Surrealismo incertae sedis, 2015".

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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