MARIA ESTELA GUEDES

Do Amor e da Alma em Henrique Dória

Apresentação na tertúlia de Poesia "Essa coisa tão estranha e arrebatadora". Restaurante Volta e Meia, Figueira da Foz, 25 de junho de 2016.

Henrique Dória é um poeta dos símbolos. Na contracapa de Súbita iluminação, livro que hoje nos ocupa, diz ele que na revista Vértice Joaquim Namorado lhe mostrou “os caminhos do surreal neo-realismo”, nos quais se tem mantido. No caso do domínio do símbolo, é bem certo que o autor mergulha nas mesmas águas simbólicas em que navegaram André Breton e Salvador Dali, lá fora, e António Maria Lisboa, com a sua Metaciência, cá dentro.

Perfilho a tese de que a poesia é a mãe de todos símbolos, parece então redundante afirmar que Henrique Dória é um poeta deles; parece mas não é, convém dizê-lo, porque de entre as muitas tendências poéticas, as realistas evitam essa carga misteriosa, que as afasta da descrição do mundo físico; certos poetas mais ligados ao signo e às características formais do poema também podem pôr de parte o que desvia a atenção para os elementos mentais da escrita; e depois, mesmo dentro do campo da simbólica, há zonas mais gerais e outras mais restritas: o mesmo símbolo pode receber carga semântica diferente consoante a grelha de leitura: cristã, maçónica, psicanalítica ou outra.

Poetas do símbolo são geralmente aqueles que buscam na palavra uma origem divina ou a sua natureza religiosa. Aliás, se virmos bem, as três religiões fundadoras da nossa cultura fundam-se elas mesmas na escrita e na origem divina dos seus mandamentos, expressos em tábuas da Lei, isto é, escritos em tabuinhas ou em panos, caso este da transmissão ao Profeta dos mandamentos corânicos. A Palavra, tal como o Verbo, bem sabemos que na nossa cultura católica representam os patamares mais altos. E porque assim é, a “súbita iluminação” do leitor face ao livro assim intitulado é a de compreender que o maior valor para Henrique Dória é a obra, primeiro dos três lances da jornada que nos apresenta para a alcançar. Esclarecendo: Súbita iluminação reúne cinquenta poemas desenvolvidos em três fases: “A obra”, “O corpo” e “O fim”.

Por muito que a queiramos entender como opus magnum, a verdade é que a obra magna do escritor só pode ser aquela que se exprime pelos símbolos verbais: carateres, sinais e orações. Daí que nessa primeira parte, “A obra”, se diga que “a minha escrita é o canto do grou”, que na sepultura perdurará o “lume das palavras”, que a tentação não vem nem de mulheres nem do ouro, sim da página – e essa é a tentação do amor. Transcrevo um excerto de hino à noite do poema “Criar a luz”, que continua a iluminar-nos neste assunto em que o poeta trata a língua como meio de comunicação com deuses e anjos, enfim, com uma realidade que supera o quotidiano para penetrar na esfera do religioso:

Noite, ó noite transbordante! Vem incendiar

A língua

Que não se recolhe

Com medo de perder as palavras

- É quanto pedimos

Para não sermos um logro

Sob o azul olhar dos anjos.

 

Noutros livros de Henrique Dória, símbolos como o «mar de bronze» apontam numa direção especificamente maçónica. Em «Súbita iluminação», em que existem situações paralelas, o âmbito do símbolo deriva para algo diferente, porque o mais impressionante grupo verbal dinamizado por um símbolo tipicamente maçónico, a espada flamejante, escapa à dicionarização para assumir estatuto anímico, ou psicanalítico, se preferirmos. Desde o título, com o termo “luz”, o veio mais forte, entre os quatro elementos, é o fogo. A espada flamígera, ou flamejante, foi a usada pelo anjo que puniu Adão e Eva. O instrumento de justiça castigou com o exílio para longe do Paraíso. Noutra perspetiva, a espada flamejante executa a sentença afastando Eros de Psique. A cultura católica, ao aceitar a relação sexual apenas no matrimónio, suprime o erotismo, que o mesmo é dizer que a salvação de Psique só é possível com o desaparecimento de Eros.

O que acontece em seguida é que, ao lado de um instrumento de corte cujo gume é o fogo, aparecem cenas de mutilação das mãos. Em idênticas circunstâncias, vemos asas arrancadas, vamos dizer que asas de anjos, e recordemos que Eros, em especial na versão de Cupido, é um anjo, um deus-menino cuja emblemática são as asas, além das flechas e da venda. A mutilação pode ser interpretada como sinal de impotência, preferencialmente impotência política. As notações cívicas são de assinalar em Henrique Dória, típicas do neo-realismo que reclama, se bem que também o surrealismo se tenha sublevado contra a ditadura; neste campo, o que mais fortemente surge é o 25 de Abril, bom augúrio para o nascimento de um filho a 9 de maio de 1974. Assim, a criança torna-se também ela um símbolo, ao abrir os olhos num país finalmente em liberdade.

Mais de quarenta anos volvidos sobre as canções de Zeca Afonso, evocadas por Henrique Dória, é bem possível que o sentimento de liberdade tenha cedido a voz ao sentimento de estar separado de si mesmo, com a mão suspensa, como se à distância do seu próprio olhar. O sentimento de alguma coisa ter sido cortada em duas, de o poeta ter perdido não só as mãos como as asas, aprofunda-se em drama com a imagem de objetos cortantes, a faca e essa espada flamejante que anuncia o fim do Paraíso.

As imagens de mutilação aparecem ao longo do livro, como um leitmotiv, vejamos algumas mais óbvias: “A faca e a foice que nos cortará / As mãos”, os “anjos que nos seguem / Trazem cortada uma asa”, “A ambas cortará / O espelho sangrento / Do meu próprio eu”. A mutilação pode apontar o feminino como em “Usou um motor que cortava/ Os seios”, e neste caso, poema intitulado “Após Goya”, ficamos a saber que o objeto cortado, mutilado e despedaçado é a alma. Diversas vezes no livro aparece esse termo, “alma”. Psique não podia ver o rosto do esposo, Eros. No momento em que quebrou o interdito, deixando-se deslumbrar com a sua beleza, Eros desapareceu e com ele o paraíso em que até ali tinham vivido.

Apetece saltar por cima de interpretações várias da mutilação, simbólica estranha em poesia, para ir ao encontro de uma voz que nos interpela de um outro plano, também espiritual e também relacionado com o mito, mas mais propriamente filosófico, e a filosofia é um dos patamares em que se ergue o pensamento de Henrique Dória, por isso também a sua poesia. Partimos para aí apesar da paixão, e sobretudo da grande emotividade destes poemas, que por momentos nos enternecem, tal a sua candura:

Às vezes, das nossas mãos

Nasce uma constelação

E ficamos felizes como pequenos

Cães acariciados 

O livro está incrustado de constelações como estas, achados poéticos capazes de deixar o autor feliz como um cachorrinho acariciado, achados que nos fazem inveja. Temos de saltar sobre eles para fechar num anel estas palavras, e o anel é platónico, religa-se a O banquete, livro em que diversos convivas debatem o tema do Amor. Ora a nossa súbita iluminação, face à espada flamejante, é a de separar as duas metades do ser, e isto refere Platão. É um homem do teatro, Aristófanes, quem n’O banquete apresenta a versão de que o Amor é a procura da nossa outra metade, separada por castigo dos deuses na origem dos tempos. Muito atual este debate, que naturaliza a questão da homossexualidade e garante a antiguidade de algo que hoje em dia é muito referido pelos psicólogos e psicanalistas nos meios de comunicação: nós somos bissexuais na origem, a orientação sequente depende do constrangimento social. A percentagem de heterossexuais e de homossexuais puros é mínima. A reação de alguns é tomar por moda estas observações, como se fossem frivolidades para esquecer depressa, mas elas já decorrem de hipóteses psicanalíticas do século XIX e, de outro lado, foram intuídas pelos filósofos antigos.

Na linguagem de Platão, o que se conta é que na origem do mundo havia três tipos de seres humanos: um formado por duplos masculinos, outro por duplos femininos, e outro por seres duplos de masculino e feminino, os andróginos. Deus castigou os homens dividindo-os ao meio, daí que o Amor seja a busca da nossa outra metade, seja ela o duplo feminino da mulher, o duplo masculino do homem ou a outra parte do andrógino.

No caso da Súbita iluminação de Henrique Dória, o que será a faltosa metade do poeta, que o leva a empreender a sua procura? É com a solidão por falta dessa amada que termino, deixando a outros  intérpretes a descoberta, aliás a súbita iluminação quanto a esse assunto. De qualquer modo, a solução do enigma, espelhada em personagens  de Homero, vem no poema intitulado “Lamento de Odisseus”: 

A tua boca é um búzio

De onde me vem o som do mar

E a água doce

Longínqua Penélope.

 

O teu corpo é a ilha da salvação

A ilha da aurora

De róseos dedos.

 

Dos teus cabelos espalhados sobre o Egeu

Nasce o coral

Três vezes coroado.

 

Perdido conheci a solidão do amor

A solidão da morte

Mas nenhuma delas comparável

À solidão da minha alma

Longe de ti – longe de si própria.

 

Eu, o eterno inquieto

Ter-me-ei perdido para sempre

Serena Penélope?

HENRIQUE DÓRIA
Súbita iluminação
Aguarela de Deolinda Keng
Querubim Editora, Braga, 2016
Índice antigo

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013; Folhas de Flandres,  Lisboa, Apenas Livros, 2014; dir. CadeRnos SuRRealismo Sempre, na Apenas Livros. Nessa coleção, "Surrealismo incertae sedis, 2015".

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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