MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed. Guimarães

O panóptico de Saramago no teatro d'A Barraca
Há muitos anos, nos tempos em que se preparava o multimédia O lagarto do âmbar, com texto meu, o João Grosso dizia que adorava encenar ele uma peça em que houvesse ações simultâneas em diversos apartamentos de um prédio. Esta é a estrutura da peça Claraboia, adaptada de um texto de José Saramago, que dá lugar a uma cenografia incomum: um prédio em corte, para se ver o interior de seis apartamentos, em três andares. A claraboia, ao dar claridade, imita o simbólido olho de Deus - é o panóptico que permite, seguindo literalmente o sentido da palavra, ver tudo.

A peça está lindamente dirigida por Maria do Céu Guerra, tudo corre na perfeição, com atuações corretas, por vezes cómicas, outras vezes dramáticas, merecendo todos a salva de palmas em pé de um público que lotou a sala e lutou para nada perder de vista nem de ouvido, quando havia sobreposição mais forte de cenas.

O principal fascínio da peça assenta numa perversidadezinha muito humana que é a de gostar de saber o que se passa em casa dos outros, ficar a olhar para as casas isoladas na paisagem quando se passa de comboio, a imaginar que pessoas lá moram e como será a sua vida. Temos sempre a miragem de um Éden por detrás da graça de umas cortinas corridas ou de um reposteiro de trepadeiras verdes a cobrir varandas.

O panóptico de Claraboia satisfaz o nosso voyeurismo, que nunca é simples, nunca é uma curiosidade focada num aspeto só, o idílio de um par romântico atrás da persiana, ou a visão de um punhal a cair sobre um peito indefeso, ou uma cena picante, de cravo num cinto de ligas a realçar as meias pretas. A curiosidade pode ser mais ampla, exigir um "Como viviam as pessoas da classe média nos anos cinquenta?"

A claraboia é o olho de Deus. Impávido, implacável. O voyeurismo de Saramago, satisfazendo todos os olhares, é no entanto de predominância política. A classe média vivia mal, tinha de recorrer a expedientes e no seu espectro mais amplo apresentava uma moralidadezinha sórdida. No outro lado, escondendo-se da Censura, esboça-se a revolução de esquerda, como era de esperar num autor como José Saramago.
 
Vale a pena ir ver, é teatro de costumes no seu melhor.
 

Ficha Artística e Técnica

Texto

José Saramago

Adaptação do Texto

João Paulo Guerra

Dramaturgia

Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra

Encenação

Maria do Céu Guerra

Cenografia e Coordenação de Guarda Roupa

José Manuel Costa Reis

Banda sonora

João Paulo Guerra

Assistência Geral do Espectáculo

Adérito Lopes e Sérgio Moras

Apoio à Direcção de Actores

Lucinda Loureiro

Elenco

Adérito Lopes
Carolina Parreira
Carlos Sebastião
Fernando Belo
Guilherme Lopes
Hélder Costa
Henrique Abrantes
João Maria Pinto
Lucinda Loureiro
Maria do Céu Guerra
Paula Bárcia
Paula Guedes
Paula Sousa
Rita Lello
Rita Soares
Rúben Garcia
Sérgio Moras
Sónia Barradas
Teresa Sampaio

Sonoplastia

Ricardo Santos

Iluminação

Paulo Vargues

Relações Públicas e Produção

Paula Coelho, Inês Costa

Cartaz/ Design Gráfico

Arnaldo Costeira

Fotografias

Movimento de Expressão Fotográfica:

Luis Rocha, Amélia Monteiro, Isabel Correia, Janica Nunes, José Fontinha Vieira, José Guerreiro, Ricardo Amoedo e Rui Viegas

Agradecimentos

EPC, Fundação Saramago, Pilar del Rio

 

Estreia no TeatroCinearte,
10 de Dezembro de 2015

Índice antigo

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013; Folhas de Flandres,  Lisboa, Apenas Livros, 2014; dir. CadeRnos SuRRealismo Sempre, na Apenas Livros. Nessa coleção, "Surrealismo incertae sedis, 2015".

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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