MARIA ESTELA GUEDES
Foto: José Emílio-Nelson

Realidade e mito: "O celacanto"

Trata-se da loucura ictiológica. Um ictiologista não age no
interior da regra; funda-se fora dela
[…].
Os ictiologistas compreendem o destino de KZ:
estremecem à ideia dessa iluminação que, aos 54 anos,
visitou o funcionário das finanças.

Herberto Helder,O celacanto”

Mitificação exterior

HH não é um poeta popular, sim um poeta de culto, cuja biografia resplende de uma discreta aura mítica. Para tal contribuiu o modo como o autor geriu a sua biografia social, selecionando criteriosamente os meios e os agentes de difusão. Porém um autor só é de culto se outros aderirem ao ritual. Ora a assembleia será pequena, mas existe. E existe desde os anos cinquenta, quando o hóspede da Real República Palácio da Loucura, em Coimbra, grafitou na parede do quarto o poema «História», no qual declara optar, entre o futuro de poeta e o de burguês endinheirado, pelo caminho mendicante, que era o da sua vocação.

Não sei se é realidade se mito a informação de Rui Mendes, segundo a qual, em Coimbra, o poeta se alheava tanto da academia que em boa verdade nem estudante era, pois não se tinha inscrito em nenhuma cadeira.

A modernidade é anti-académica e anti-burguesa, daí esperar-se que HH fosse um poeta de culto, sim, adotado pelos marginais ao sistema, mas repudiado por essa academia que ele sempre rejeitou, e atacou ao ponto de nos últimos livros considerar “burrocratas” os seus investigadores. Ora não é assim; HH não é um poeta conhecido dos portugueses, e nem sequer de todos os artistas, que mais facilmente o tratam por Alberto Helder do que por Herberto. Ele é, antes, um poeta adotado por alguns artistas, entre eles poetas tão jovens que só após a morte o foram ler, mas quem o tem dado a conhecer e o vem impondo como grande poeta é a academia, coadjuvada por instituições como a Câmara Municipal de Cascais.

São de aprovar os manifestos de apreço, há neles porém algum motivo de espanto. É que o teor do discurso institucional, ao elevar o poeta a alturas olímpicas, é um dos mais eficazes veículos de mitificação, de desvio de um objeto para a direção habitualmente seguida por deuses, heróis e santos. Por exemplo, nos passados dias 23 e 24 de novembro, realizou-se um colóquio na Universidade Federal Fluminense, com o fim de comemorar o que seria o 85º aniversário de HH. Tema sugerido: “Soldado aos laços das constelações”. Trata-se claramente de uma expressão retirada da sua poesia, mas a academia, ao escolhê-la para diretiva, manifestou a ideia de que, para falar de HH, no mínimo é preciso subir a escada de Jacob.

De Braga, “a idolátrica”, como escreveu Luiz Pacheco, temos lido desde há décadas teses e artigos, alguns assinados por membros do clero, que estudam a participação das Sagradas Escrituras na poesia herbertiana. Tudo isto é bastante irónico, dado o ateísmo do poeta e o modo como tratou Deus por tu e o injuriou sobretudo nos últimos livros. Se compararmos a reação da Igreja a José Saramago e a Herberto Helder, vemos no entanto uma diferença: Saramago, ou foi atacado ou desculpado; HH é divinizado. Exagero meu? Vejamos: frei Bento Domingues, em crónica publicada no passado mês de junho, faz a exegese do Ofício cantante, refere a existência de textos místicos e remata com uma conclusão espantosa: “Este poeta tem mesmo a temperatura de Deus" (1).

Se a Igreja, usando a prova científica do termómetro, mitifica HH, nós, com a teoria dos três mundos de Karl Popper, traremos o poeta de volta à realidade.

Mitificação interior

A obra de HH nasce na realidade: a física, realidade biológica, ambiental, mundo 1 na teoria de Karl Popper; na mental, mundo real 2 segundo o filósofo; e, ainda seguindo a teoria do autor de A sociedade aberta e seus inimigos e Em busca de um mundo melhor, temos como inspiração a cultura, e em especial, para o que hoje nos interessa, a cultura literária. São estas as musas herbertianas e de todos nós: o mundo físico em que tropeçamos, as nossas vozes interiores e as obras culturais próprias e alheias. A partir destes três níveis de realidade, ele deriva para as margens de tudo, num processo de transfiguração a que podemos chamar mito. Tal acontece de modo exemplar num conto de Os passos em volta, “O celacanto”. Qual a realidade primeira que serviu de musa? Notícias de jornal sobre a descoberta de espécimes vivos desta família de Peixes, que se julgava extintos. Inspiração oriunda deste mesmo campo do real é a obra de Franz Kafka. A vontade do poeta de escapar a grilhetas sociais há de ter sido outra motivação para um conto em que eu vejo dois autorretratos, ambos marcados pelo desvio a uma norma: um desses retratos exprime-se no protagonista humano, KZ, outro no protagonista animal, o celacanto.

Partindo destas realidades, o poeta conduz a narrativa através do absurdo kafkiano, numa demanda do Graal encarnado por uns peixes que, para o nosso cânone, devem tão pouco à beleza que HH os descreve como monstros. O monstro é uma criatura que se desvia daquilo que a ciência convenciona ser a norma, e em geral a norma traduz-se em valores estatísticos. Temos portanto dois monstros na narrativa: o celacanto, com carateres anatómicos surpreendentes na classe dos Peixes; e KZ, um anónimo funcionário das finanças que nem é ictiologista, mas que abandona a segurança de casa, emprego e família para ir em demanda desses peixes, fascinado pela leitura dos jornais que davam conta da ressurreição daquilo que por isso mesmo a ciência chama “espécies Lázaro”.

Os celacantos são peixes da família Coelacanthidae. Até à recente descoberta de espécimes vivos, só se conheciam exemplares fósseis, remetidos para uma era geológica anterior à dos dinossauros. Por isso julgavam-se extintos. Em 1938 descobriu-se um animal vivo, e depois apareceram mais, sempre no Índico, o que deu lugar à criação de duas novas espécies para a ciência, Latimeria chalumnae, no Canal de Moçambique, e Latimeria menadoensis na Indonésia. Anotemos que são criadas duas espécies novas para a ciência, significando isto que não são nenhuma das conhecidas em registo fóssil. Por isso alguns ictiologistas consideram que os peixes do género Latimeria não são o celacanto, apesar de os tratarem como tal, e Latimeria menadoensis ser até conhecida como o “celacanto indonésio”. Começa ou continua aqui uma fabulosa história que HH traduziu como loucura dos ictiologistas.

Quais os traços extraordinários dos celacantos, para além de se tratar de um grupo de Peixes viventes apesar de extintos há mais de quatrocentos milhões de anos? Bem, a prosseguirmos sem pestanejar pelo caminho da ictiologia, eles são os nossos antepassados, anteriores aos Primatas com que a Teoria da Evolução substituiu Adão e Eva. Com efeito, os Coelacanthidae são considerados  ancestros dos tetrápodes, grupo que gerou os vertebrados terrestres de quatro membros, e por isso o Homo sapiens. Sem arredarmos pé do território científico, e deixando por agora ao abandono Os Passos em volta, os peixes em questão têm barbatanas pedunculadas, quer dizer, membros que rematam em barbatanas; são ovovivíparos, ou seja, as fêmeas não põem ovos, as crias desenvolvem-se neles no organismo materno e são dadas à luz já como peixes formados; outro facto de espantar é a presença de narinas, sabendo nós que os peixes respiram por guelras. Infelizmente Herberto Helder já não leu, mas há uns dois meses o celacanto voltou a pisar a passadeira vermelha dos jornais por os ictiologistas terem descoberto pulmões em exemplares conservados em coleções embriológicas.

Prova contundente para a Teoria da Evolução: este grupo de Peixes, dotado de esboço de membros, isto é, de pés e mãos, acrescentados às narinas e pulmões, saiu da água e povoou o meio terrestre, dando origem aos répteis e mamíferos. Perguntaríamos nós então: se o celacanto deu origem aos tetrápodes e por isso ao Homem, porque é que vive ainda no Índico, com pulmões não funcionais, narinas que não servem para respirar e membros impróprios para andar em terra?

Enquanto esperamos pela resposta, despeço-me, agradecendo à organização o convite para este colóquio, e deixo que Herberto Helder nos refresque a memória sobre o motivo que levou o modesto funcionário das finanças a abandonar a confortável vida burguesa para partir em demanda do seu Graal:

E o mundo dos ictiologistas foi subvertido por uma onda de loucura. Eles transportavam de um lado para outro fotografias do monstro focado de ângulos escolhidamente espectaculares e violentos. […] Apareceram fulgurantes monografias que descreviam o peixe magnificente, peixe com trezentos milhões de anos, a sua cabeça monstruosa, as escamas ósseas, as barbatanas selvagens. Amor – eis a palavra. O puro amor dos ictiologistas.

(1) Bento Domingues, “Espírito criador”, Público, 7.06.2015. No Triplov.
 

Devir - Revista Ibero-Americana de Cultura, nº 3
Lisboa, Ed. Licorne, 2016
Dir.: Ruy Ventura & Nuno Matos Duarte
Contacto: devir.revista@gmail.com
Maria Estela Guedes - Realidade e Mito: o Celacanto . Comunicação apresentada no Encontro sobre Herberto Helder promovido pela Câmara Municipal de Cascais. Tema do colóquio: “Herberto Helder: mito e realidade”. Cascais, 5 de dezembro de 2015.
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Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013; Folhas de Flandres,  Lisboa, Apenas Livros, 2014; dir. CadeRnos SuRRealismo Sempre, na Apenas Livros. Nessa coleção, "Surrealismo incertae sedis, 2015".

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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