MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed. Guimarães
Música: http://triplov.com/letras/mario_montaut/Estela/index.htm

O rosto

(Apresentação do livro na Associação 25 de Abril, Lisboa, 30.10.2015)
Publicado no nº 40 de www.incomunidade.com

Dioniso - Nos olhos o olhei, e os ritos me entregou.
Penteu - Dessas orgias por ti obtidas, qual a natureza?
Dioniso - Aos não iniciados vedadas estão as coisas secretas.

Eurípedes, As Bacantes

Orfeu é uma entidade secreta para muitos de nós, porque dá nome aos mistérios órficos, dos quais pouco se conhece, além de alguns hinos em honra de Dionísio que nos deixam supor tratar-se da sua divindade central. Sabemos porém que o termo «mistérios» indica práticas religiosas ou afins, algumas delas abertas só aos iniciados. Sabemos algo mais ainda: que a tragédia nasce nas orgias, festas dedicadas a Dionísio, que teatro e ritual se identificam em vários aspetos, daí talvez que muito do que acabo de referir tenha expressão atual, não só na arte e cultura geral, como nos rituais maçónicos. O mito de Orfeu, como outras heranças gregas, além das egípcias, cristãs, hebraicas, etc., faz parte da cultura maçónica e é representado em certos ritos.

No livro de poemas de Ana Pinto, O rosto de Orpheu, o ritual a que visa aceder a encenação da história de Orfeu e Eurídice, secreto, só para iniciados, é o amor. Para a autora, a descida ao Hades é a descida ao corpo, a penetração do outro:

e leve, leve – desço em ti, inicio-me.

O corpo, os braços, o ventre, as pernas, os pés

Penetro.

Apesar de se invocar mais o amor do que a orgia, o deus do excesso e da transgressão tem o seu lugar no livro, com a substância própria para induzir a embriaguez sagrada. Um poema de apenas quatro versos dá-nos a medida de Dionísio e da capacidade criadora de Ana Pinto com o material linguístico, o qual nos transmite uma grande sensorialidade, sobretudo visual, atenta às cores e às texturas. Vejamos então como se comporta o deus da vegetação, coroado com folhas de videira, esse que as bacantes invocavam gritando «Evoé! Evoé! Evoé!»:

Dentro dos vasos do denso mosto

brilham grãos de sal e de sol

Dionysos lança o riso sobre a cordilheira:

o abismo fica rente à luz 

Orfeu, com Eneias e Teseu, é um dos três únicos heróis a terem conseguido penetrar na morada dos mortos e dali sair com vida. Ele entrou por ter seduzido com o canto os guardiões do Hades. Comovidos, os deuses das zonas ínferas deixaram-no ir buscar Eurídice que sucumbira à mordedura de uma serpente venenosa. Havia porém um compromisso para o sucesso da operação: no caminho de regresso à luz, seguido por Eurídice, Orfeu não podia olhar para trás. Sabemos que ele não resistiu à curiosidade e olhou, a ver se a amada o seguia, se os deuses tinham cumprido a palavra. Ainda a viu, mas logo a perdeu ali para sempre, pois os deuses não aceitaram que tivesse duvidado da sua palavra.

Olhar para trás pode ser instrutivo, não devemos perder a memória do que aconteceu. Mas o olhar deve preferencialmente dirigir-se para a frente, de modo ativo, em busca do novo e não do passado. E precisamos de coragem para construir o futuro, não devemos olhar para trás com medo, ou a ver se nos segue os passos quem melhor do que nós cumpra tal missão. Ana Pinto interpreta o olhar retroverso numa perspetiva temporal e não espacial, mas as valências são pessoais e algo enigmáticas, ao negarem o que afirmam. Eis o que a propósito ela escreve:

 

Não canto os cantos: eles cantam-se eles mesmos.

 

O advir está morto. Eu sou o presente do advir:

o corpo do tempo tem olhos

que não podem ver o que já se foi – se me volto

tudo se desmorona.

 

A história de Orfeu e Eurídice é das mais tratadas em todo o mundo e em todas as modalidades da arte, com mais abundante expressão na música. Entre nós, Orfeu teve uma célebre revista a homenageá-lo, em 1915, que apresenta alguns dos nossos mais importantes poetas e que escancarou as portas à modernidade. Ainda em língua portuguesa, em 1959, refira-se o inesquecível Orfeu negro, de Marcel Camus, baseado numa peça de teatro de Vinícius de Morais, Orfeu da Conceição. Rodado no Brasil em tempo de Carnaval, conta com música verdadeiramente órfica de Tom Jobim, entre outros compositores. Tão inspirada a obra, que alcançou uma Palma de Ouro em Cannes e um Óscar para melhor filme estrangeiro. O que a domina é o poder encantatório da música, exatamente como no mito grego. A dado passo, uma criança pergunta a Orfeu da Conceição: «É verdade que você faz o Sol levantar-se tocando violão?» O poder de transmutar através da beleza é cultivado também por Ana Pinto, numa vertente dionisíaca da arte que exalta a juventude e as forças naturais.

Orfeu é o ideal do artista que ao mesmo tempo tange, canta e compõe poesia. É a lira que une os cantos. Orfeu, diz a lenda, encantava de tal maneira com a sua arte que, para o ouvirem, os animais selvagens aproximavam-se, as árvores inclinavam os ramos para ele, os regatos mudavam de curso e as próprias pedras se comoviam. Em suma, o encantamento produzido pela arte transforma as pedras brutas em seres polidos. Dir-se-ia que o navio dos símbolos navega no oceano dos ideais e das ideias sem suporte sob os sapatos, mas não. Para o documentar, gostava de contar uma história que testemunhei nos seus lances atuais.

As Missões de Chiquitos, na Bolívia, fazem parte de um outrora muito vasto território ocupado pelos jesuítas. Restam ruínas dessas reduções no Brasil e noutros países contíguos da América do Sul. Na Gran Chiquitanía não são ruínas, as igrejas e anexos, em cinco ou seis povoações, distantes umas das outras os trinta quilómetros típicos da redução jesuítica, estão funcionais. A construção é toda de madeira pintada e talhada, podemos visitar as missões e mesmo assistir à missa, para nos deslumbrarmos com a beleza que entra pelos olhos mas sobretudo, no caso, com a que ouvimos.

Os índios Chiquitos ficaram famosos por se terem deixado converter ao cristianismo através da música e não da catequese nem da pregação. Adoravam cantar e tocar e cantavam como anjos, reza a literatura. É conhecida a história do órgão transportado desde Potosí, no nordeste, até à missão de San Javier, na Chiquitanía, a sudeste. Potosí é uma das cidades do planeta construídas a maior altitude, quase quatro mil metros. O órgão,  desmontado e carregado em burros, teve de descer quilómetros de montanha e depois percorrer entre seiscentos a mil quilómetros, calculadas as distâncias pelos itinerários de hoje. Tal órgão ainda existe, bem como a tradição do canto nas igrejas. Mais do que isso: nas Missões de Chiquitos realiza-se anualmente um importante festival de música barroca, durante o qual se publicam pautas reaparecidas do seu sono de décadas na antiga biblioteca dos jesuítas. No século XVIII, os índios cantavam e tocavam a “música da alma”, como é chamada a música barroca, e tocavam-na em instrumentos que eles mesmos fabricavam, e o mesmo acontece ainda hoje. Na minha visita, há cinco ou seis anos, pude ouvir um menino índio e o pai a tocarem órgão em San Javier. O filho, adolescente, já se preparava para passar ao futuro o testemunho de que a música e a poesia, na sua dimensão órfica, têm realmente capacidade para converter, para humanizar pedras, rios e povos selvagens.

A aliança entre a tradição e o inexplorado é própria da modernidade. Daí que Ana Pinto apresente uma simbologia muito mais trabalhada do que a sugerida no título do livro, O rosto de Orpheu. Ao dizer isto, avanço já com uma das diretrizes da autora, muito forte, o conhecimento da simbólica e o seu uso deliberado. Podemos falar dela desde as coisas e seres pertencentes à Grande Deusa, a Terra Mãe, como as pedras, as aves, as fontes, os rios, as plantas, e mesmo o sal, o ouro e o enxofre, até algo mais cristalizado, quando entra em cena o arquiteto, perito na Geometria, como revelam ferramentas como o fio, o esquadro e o compasso. Neste plano, arquiteto, pedra, sal, sol e água ganham maior definição de contornos, gestos como dar as mãos desenham figuras geométricas que por isso atravessam a ponte que une os ritos antigos aos modernos. Deste ponto de vista, o poema XXV é emblemático:

Arquiteto a ponte dos planaltos

Flanco e aliança de dois mundos, recta

e plástica em seus metais e filigranas

Sustidas margens raiadas pelo cerúleo e pelo nácar,

Dela se erguem os titãs e o rio e a memória.

 

Ponte onde a tua imagem é água límpida, onde o céu resvala

pelo vácuo das estrelas, ponte aérea e elíptica.

Ponte onde te chamo

 

Abissal alicerce, sobre ti

trespassam alados sedentos da foz.

E dou-te as mãos. A estrutura. O compasso.

Assim te ergo da gravidade úbere contra a grande massa

celeste – ergo-te como um sonho.

Desde as nebulosas, viajo. Por onde o céu se derruba

em reflexos cúbicos, por onde desce azul a música, viajo.

Ponte que une dois mundos como um beijo:

Ocultamente habito-te – desde a margem, cascata

Granítica – aos teus lapidados jardins circulares.

Elemento que ao longo do livro insiste em aparecer, com cunho bíblico, relativo à construção e criação, é o barro, a lama primordial de que foram feitos Adão e Eva. Matéria-prima original, o barro (e não o chumbo) vai-se depurando na Obra. De vários modos surge a ideia de operação transmutatória, de passagem do vil ao nobre, ou da casca grossa da árvore à bela peça polida de marcenaria.

Simbólica e retorno aos mitos clássicos seriam um exercício algo frígido se o rosto de Orfeu de Ana Pinto não fosse o do poema, o dela, o nosso, o humano rosto de uma Eurídice que se funde com Eco e de um Orfeu tão mergulhado no espelho das águas que lhe ouvimos o canto a desaparecer em apenas últimas sílabas:

Confundo-me com o eco e o eco clama: Eurydice, Eurydice

Acordes despontam gemas aquáticas

sob a pele da neblina

navegam cristais que aéreos se fundem

 

A brisa assobia e aflora:

O rosto de Eurídice. O meu rosto. Orpheu.

ANA PINTO
O rosto de Orpheu

1914, castaliapoesia@yahoo.com
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Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013; Folhas de Flandres,  Lisboa, Apenas Livros, 2014.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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