MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed. Guimarães
Música: http://triplov.com/letras/mario_montaut/Estela/index.htm

Tony Tcheka, poeta da Guiné-Bissau
Publicado originalmente na Revista Incomunidade, em :
http://www.incomunidade.com/v21/
 

Tony Tcheka é o poeta que mais dá rosto à Guiné-Bissau, e porventura aquele em quem mais entranhado vive o sentimento de missão, aquela vontade de intervir na situação política e social, com vistas a mudança para democracia plena. Conhecemos bem este desejo e os conflitos estéticos e políticos daí resultantes, em especial do neo-realismo e do surrealismo inicial. Muita dissidência surrealista verificou-se como resposta à colagem de André Breton ao comunismo. Na Europa, hoje, a despeito das dificuldades que nos afligem, não sentimos já essa necessidade de pegar na palavra como arma. Ou talvez estejamos desistentes, verificando quão inútil ela é, quando na estrada se ergue um muro com o dissuasor cartaz a proclamar que «Não há alternativa». Esta dissuasão acaba por ser uma grilheta, uma mordaça bem pior do que a censura. À censura, resiste-se. A declaração de impotência paralisa. Ora em África tais obstáculos não parece que se levantem, daí que Mia Couto em Moçambique, José Eduardo Agualusa em Angola e Tony Tcheka na Guiné-Bissau, entre outros, pugnem com gritos bem altos pelo direito dos seus compatriotas a um futuro cada vez mais abismado na intangibilidade.

Ninguém, decerto, fica indiferente às causas que movem à escrita os autores, e no caso particular o poeta guineense. Os temas latejam e sangram em cada um dos seus versos, quer se refiram ao presente quer ao passado: escravatura, guerra, fome, racismo, pobreza, doença, falta de assistência médica e de medicamentos, diáspora, e tantas outras desgraças que vêm atingindo a sua pátria, como parcela de um continente que no seu todo também se apresenta em «Noites de insónia na terra adormecida» e em «Guiné, sabura que dói», dois livros de Tony Tcheka. Desde sempre, desde antes da partilha das colónias pelas várias potências europeias, em meados do século XIX, que África tem sido o mais desgraçado dos continentes. Sem querer minimizar a importância da exploração sofrida com o colonialismo, é verdade também que os colonos foram vítimas como os africanos de alguns dos obstáculos levantados à melhoria das condições de vida para todos: as doenças, e muito principalmente a malária. Daí que um dos temas de Tony Tcheka seja esse justamente, como lemos em diversos poemas de Noites de insónia na terra adormecida. Em «Concerto de “djunta mon”» (de mãos dadas, de solidariedade), para o qual recebera convite, retido na cama por doença, o poeta lamenta-se:

A dor encosta-se a mim

abraça-me forte

espalha-se pelo corpo

em glândulas de fome

 

Enfermo declino o convite

para a grande festa da liberdade

Estou no meu tempo

no meu espaço

na minha tabanca

   onde festa

        é choro

              é doença

                     é criança morrendo

                                  dia a dia

                                  hora a hora! 

Como sucede em muitos outros textos, Tony Tcheka, mercê de grande capacidade de síntese, chama para a unidade poética uma série de problemas, o que dá grande riqueza temática a cada um dos textos. No caso, o concerto de solidariedade por algum facto patenteador de liberdade democrática, tendo a doença no outro extremo da festa, congrega a evocação da dor, da fome, do choro (duplo sentido a considerar, uma vez que “choro”, em crioulo, é o ritual de enterramento dos mortos), a morte das crianças, e as crianças são um dos temas maiores desta poesia.

Do colonialismo sobra um símbolo, o massacre do cais do Pindjiguiti, e nenhuma animosidade nem desconforto em relação a Portugal, visto geralmente como país amigo, sobretudo depois do 25 de Abril.

Claro que o poeta tem sempre um tema comum e universal, o amor. Porém, nos livros de Tony Tcheka, sendo abundantes os poemas dessa estirpe, nem todos obedecem linearmente à expressão de afeto pela mulher amada, porque ela se funde com frequência na imagem da terra, a pátria, terra do sahel. O mesmo acontece, de resto à semelhança de outros poetas, em Portugal como alhures, quanto à fusão de terra e/ou amada com a língua. Mas é preciso notar que Tony Tcheka é bilingue. Poderíamos pensar que esta fusão se verificasse de preferência com o crioulo, e nada diz que assim não seja, eu é que o domino mal. Detetei no entanto o facto nos poemas em português.

Sobretudo quando escreve em crioulo fundo, o kriol, Tony Tcheka é-nos tão estranho e familiar como os trovadores: isso que escrevem é a nossa língua, que sentimos poderosamente íntima, e ao mesmo tempo ela é estrangeira, existe num registo extemporâneo ou alóctone, como embrenhada em segredos para cuja decifração precisamos de chave ou de infinita paciência:

«radi

   di

    labrador

 

iabri

  bariga

     renkiadu

         di blaña»

É um poeta da terra, o Tony: das bolanhas, das lalas, do chão sangue. Com as alusões recorrentes ao sahel, evoca aquilo a que na Guiné-Bissau se chama «nha tchon», «o meu chão» ou «o meu país», e a mulher enquanto Terra-Mater.

Em termos de situação geográfica, o sahel é a região sudanesa, situada entre o deserto do Sahara e as terras mais férteis a sul. Forma uma faixa do Atlântico ao Mar Vermelho, numa largura que varia entre 500 e 700 kms. Outrora, o Sudão albergou grandes impérios, alguns com pontos intectuais da maior relevância, caso de Tombuctu no século XIV, célebre pela sua universidade corânica, rica de vinte mil manuscritos árabes antigos, com o repositório do conhecimento científico e traduções dos gregos. Tombuctu situava-se na rota do sal, transportado por caravanas de homens e camelos que atravessavam o deserto. E ainda atravessam, segundo creio. A religião dominante na Guiné-Bissau é o islamismo. Em diversos poemas é notória a paixão do poeta guineense não só pela história do seu país, como da África em geral.

Tony Tcheka ama a geografia, esta não é a sua única incursão nos mapas e nos territórios. Porém a geografia também é humana, e essa toca mais fundo o coração africano, pois este corredor fitogeográfico, o sahel, é um dos mais pobres do mundo. Dadas as secas, e subsequente desertificação, dadas igualmente as situações de guerra em vários dos seus pontos, a impedirem a pesca e a agricultura, o sahel é também um corredor de fome. A fome é um dos temas recorrentes nos dois livros de Tony Tcheka já mencionados: «Noites de insónia na terra adormecida”, de 1987 e «Guiné – Sabura que dói», de 2008. A propósito do primeiro, escreve Filomena Embaló, prefaciadora, chamando justamente a atenção para o tema que foquei: «Numa belíssima homenagem ao país, “Guiné sabura que dói” é antes de mais um Hino à terra-mãe, a rosa de canteiros perdidos, mulher-grande e fêmea sofredora, tal como a define o autor no seu versejar imaginoso. O poeta chora a terra tísica onde a bolanha se alimenta de água na mágoa da lágrima e a criança não tem tempo de ser menino. Esse chão onde se quer plantar o silêncio na boca de fome para que não se queira querer».

Que a mulher é também terra, mater, matriz, a velha Terra-Mater, cordão umbilical entre uma antiquíssima cultura clássica e a moderníssima cultura bissau-guineense, continua a afirmá-lo Filomena Embaló: «É ainda uma declaração de Amor à mulher guineense, mãe, bideira, combatente incansável de todas as lutas e, no entanto, tão mulher! De sorriso brando, corpo de ébano e o andar como o serpentear do Geba, ela é a força discreta que em tempos de penúria finta a vida madrasta esmagando com o tuku di pé a fome para que não atormente a  vida apoquentada».

É a mãe quem mais sofre com a fome, para voltarmos aos problemas do sahel, não porque ela lhe fira mais o corpo do que aos filhos, mas por ser lancinante a dor de sentir na mente a fome deles.

Terra pode ser a dos outros, a exótica, situada mais a Norte, com a antiga designação, depreciativa, de terra dos tugas, a Tugalândia, como se lê em «Guiné – Sabura que dói»: 

uma lágrima de negro

juntou-se às águas ternurentas do Tejo

falando mantenhas de saudade da Guiné reencontrada

 

essa Guiné que embala o sono

de soldadinhos de chumbo

que nunca mais voltaram

ao regaço da Tugalândia 

A guerra colonial, da qual tanto soldadinho não regressou à sua Tugalândia europeia, não é a única memória de violência numa terra de gente pacífica na sua vida de pesca e amanho da terra: conflitos internos e com o Senegal têm sido fonte de desgraça e miséria.

Terra-Mãe é igualmente a pátria cultural mestiça de que todos brotamos, tugas e não-tugas, e é admirável ver Tony Tcheka reconhecer que também é dele o elétrico que sobe à Graça e desvenda o Tejo entre os becos de Alfama e Mouraria, e que também lhe pertence a ele a revolução banhada na música de Zeca Afonso.

O mínimo que podemos dizer, a terminar este primeiro gesto de aproximação, é que Tony Tcheka não se permite o luxo de assuntos menores, tão próprios da lírica de todos os tempos e países. Ele só se ocupa de temas importantes.

 

Casa dos Banhos, 4 de abril de 2012

 
 
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Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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