MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed. Guimarães
Música: http://triplov.com/letras/mario_montaut/Estela/index.htm

O Prof. A.M. Galopim de Carvalho e o seu Centro de Interpretação
Está a decorrer a III Feira de Minerais, Gemas e Fósseis, no Museu do Quartzo - Centro de Interpretação Galopim de Carvalho, em Viseu. A partir da última paragem de autocarros, pode-se ir a pé, é um belo passeio através do pinhal até ao Monte de Santa Luzia, observando e mesmo recolhendo pedrinhas de quartzo, que ainda revestem o terreno, dando à paisagem, de longe, a aparência de neve. Se vai à Feira de S. Mateus, não deixe de visitar o Museu, um belo edifício, de linhas simples, enquadrado num espaço natural magnífico, entre lagoa e pinhal. Interiormente, como documentam as fotos, amavelmente cedidas pela diretora, Engª Susana Andrade, é um museu eficiente, preferencialmente voltado, com as suas máquinas de jogos pedagógicos e microscópios assestados sobre a mais mínima aparência da bela rocha vítrea, para a educação de crianças e jovens; apetrechado com o que há de mais moderno em matéria de tecnologia audiovisual, convida a experimentar e a indagar, no caso sobre o quartzo. E esta é a sua enorme originalidade: ao contrário do museu de História Natural que habitualmente conhecemos, não só em Portugal como noutros países, caracterizado pela amostragem da diversidade de seres e objetos de dada região (ou mesmo do mundo, caso dos museus do século XVIII e XIX), este é especializado em uma única produção natural. Então a diversidade, que existe ainda, já não se expande horizontalmente, ela assume dimensão de profundidade, cobrindo tudo o que diz respeito ao mineral, desde a composição química às propriedades, desde as variedades às aplicações nas manufaturas humanas.

Tão moderno  como o dedicar-se a um único objeto natural é o nome do museu - "Centro de Interpretação". Numa perspetiva ortodoxa, ligada ao cientista pouco dado a reflexões filosóficas, a "interpretação" seria adversa de "ciência", pois a tendência é para tomar o texto da ciência como espelho fiel da natureza, donde a interpretação, com a sua liberdade, igual a potencial pluralidade infinita, mais própria da teologia e da literatura, não teria cabimento no modus operandi da ciência, habituada à leitura única. Face a um objeto, o cientista ortodoxo imagina que existe uma única assimilação e, relativamente a certos enunciados, garante, com desprezo: "Isso são interpretações!...". Pôr o conhecimento científico à prova com a inevitabilidade, e a necessidade, de leituras várias, consoante o leitor e a orientação do objeto, é algo que deve exasperar e desnortear completamente os investigadores sem abertura de espírito, por confundirem a diversidade de leituras (as interpretações) com um objeto em estado de mutação contínua. Como se o quartzo se pusesse a evolucionar para dinossauro, o nariz a deitar fumo e as veias latejantes, quando duas ou três interpretações de um dente fóssil de T. rex num aglomerado de rocha cristalina entram em rota de colisão. Seja ou não este nome fruto da eleição do Prof. Galopim, ele faz justiça à sua criatividade, define-o como ponte entre o mundo das artes e o das ciências. Uma ciência a seco, sem participação de outras áreas, seria perigosa além de estúpida. Muita da melhor filosofia contemporânea provém de cientistas.

A interpretação é filosoficamente importante, ao pôr sem peias a questão do erro no centro da reflexão científica e lembra-me que devo ao Prof. Galopim de Carvalho um apoio extraordinário em tudo quanto tenho publicado sobre a história da História Natural, apenas pela sua companhia, por estar aqui, no TriploV, por ter estado sempre junto do que escrevo, apesar da sua alta inconveniência. Porque o âmago dos meus escritos nessa matéria é precisamente o das leituras, não tanto do objeto, sim do texto científico: as minhas interpretações, não conhecendo profundamente as matérias científicas, só por proteção dos deuses serão todas acertadas. Digamos que terei acertado em cinquenta por cento dos casos e que o resto é erro. Nada disto no entanto tem importância, importante é o objeto científico que eu iluminei ao interpretar, acertada ou desacertadamente, os textos científicos que lhe dizem respeito. Vejamos: não interessa por aí além que eu tenha acertado ou não as minhas interpretações sobre a pedra de cobre nativo. Importante é ter trazido à cena o que respeita a esse objeto, para resposta à pergunta: existem filões de cobre na Cachoeira (Bahia), local onde a literatura, desde o século XVIII, diz ter sido achada a gigantesca amostra? A informação prestada pela ciência hodierna era peremptória: "Não existe cobre na região da Vila de Cachoeira". Atente-se: essa informação passa por retrato da realidade, espelho fiel de colinas plantadas com cana-de-açúcar, sem metais brilhantes por baixo, mas é só uma interpretação. A ciência não sabia se o cobre existia ou não. O que a ciência devia ter dito era, ou o que ela deve dizer é: "Não temos, até à data, conhecimento da existência de cobre nessa região". Ora, face a toda a documentação reunida e publicada, em papel e no Triplov, esse enunciado mais cauteloso continua a ser interpretação e não retrato da realidade! Está errado, uma vez que bastava a gigantesca pedra cuprífera, nativa ou alienígena, para avisar toda a gente de que o cobre estava lá. Aliás avisou, ao tempo: não conheço mesmo objeto museológico tão comentado na literatura científica mundial, a não ser, claro, peças como a Gioconda ou Guernica. Apetece concluir que aquilo que a ciência apresente na companhia de um "não" é teologia e literatura, só o que apresenta com "sim" é explicação dos fenómenos naturais.

Suspendamos por hoje as interpretações e sigamos caminho pelo pinhal: localizado numa antiga pedreira onde se extraía quartzo, destinado a abastecer uma fábrica de fundição (antiga fábrica de fornos elétricos de Canas de Senhorim), no Monte de Santa Luzia, o Museu do Quartzo - Centro de Interpretação Galopim de Carvalho, é uma criação recente, obra concebida pelo geólogo mas que também homenageia o autor por cujas crónicas, no Triplov, todos sabemos ser alentejano. Com efeito, nascido em 1931 em Évora, o Prof. Galopim cultiva de modos vários a sua origem, seja com receitas da gastronomia da região, seja com os seus romances "O cheiro da madeira" e "O preço da borrega". Se bem que a pintura não tenha o impacto da literatura no seu público, e a ela pouco tempo dedique, a verdade é que o Prof. Galopim também é pintor. Estas duas atividades situam-se no extremo da científica, no seu currículo, mas nem uma nem outra são aquelas que maior importância pedagógica apresentam. A literatura científica tem sempre um percurso discreto, reservado a especialistas, e a arte tem um público diferente mas igualmente restrito. O campo de escrita em que tem atingido mais pessoas é o da divulgação científica, uma área aliás delicada, por em geral ser mal vista pelos seus pares: o cientista é contra a divulgação, por entender que ela deturpa os factos ao nivelar a linguagem pela do amador. Ciente disso, o Prof. Galopim sempre remou contra a maré, publicando e continuando a publicar variadas obras de divulgação da geologia. Ele é hoje uma pessoa muitíssimo bem conhecida dos portugueses graças a mais uma atividade no campo do ensino e divulgação, que não se exprime pela escrita, sim pela museologia, já que durante muitos anos dirigiu, com o Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, o departamento de Geologia e Mineralogia. Em plena explosão dos dinossauros na cultura popular, com filmes como Parque Jurássico em coroa, ele promoveu exposições com essa temática que chamaram público ao Museu em quantidade antes nunca vista: o trânsito parava na rua da Escola Politécnica para descarregar autocarros cheios de estudantes e curiosos vindos de todos os pontos de Portugal. Se alguém abriu aos portugueses e ao mundo as portas do Museu, nas secções de Geologia e Zoologia, foi o Prof. Galopim de Carvalho. A secção de Botânica é diferente, por estar dotada de um museu vivo, o Jardim Botânico. Espero sinceramente que a recente entrevista para a RTP1, de Fátima Campos Ferreira ao Presidente da Câmara de Lisboa, debaixo das dinossáuricas Ficus do Jardim Botânico, queira dizer - é só uma interpretação, por isso falível o que escrevo... - queira dizer que António Costa entende o valor histórico, científico e mesmo artístico do Museu de História Natural, e por isso está empenhado em não o deixar afundar-se debaixo das patas de algum aglomerado de condomínios de luxo.


Maria Estela Guedes . Casa dos Banhos . 6 de setembro de 2014
 
Edifício de linhas puras, o Museu do Quartzo é obra do arquiteto Mário Moutinho
 

III FEIRA DE MINERAIS, GEMAS E FÓSSEIS
Museu do Quartzo – Centro de Interpretação Galopim de Carvalho
Monte de Santa Luzia – 3515 Viseu
Tel.: + 351 232 450 163
E-mail: museudoquartzo@cmviseu.pt

Interior do Museu do Quartzo
Sala de exposição do Museu do Quartzo
A.M. GALOPIM DE CARVALHO

É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo assinado no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. É autor de 21 livros, entre científicos, pedagógicos, de divulgação científica e de ficção e memórias. Assinou mais de 200 trabalhos em revistas científicas. Como cidadão interventor, em defesa da Geologia e do património geológico, publicou mais de 150 artigos de opinião. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural, entre 1993 e 2003, tempo em que pôs de pé várias exposições e interveio em mais de 200 palestras, pelo país e no estrangeiro.
Em casa, mostra duas edições do romance "O cheiro da madeira".
 
"Angola 76", assinado Marcos
Galopim, à esquerda, e família, em Évora, em 1941
No Museu do Marceneiro, em Évora, 2014
Com professora e alunas em Évora, 2014
 
 
COMPLEMENTOS:

Sopas de pedra, blog de A.M. Galopim de Carvalho:
http://sopasdepedra.blogspot.pt

Bibliografia de A.M. Galopim de Carvalho:
http://www.triplov.com/biblos/carv2.htm


Diretório de A.M. Galopim de Carvalho no TriploV
http://www.triplov.com/galopim/index.html


Índice de Autores da Revista Triplov de artes, Religiões e Ciências, onde também há trabalhos do Prof. Galopim:
http://novaserie.revista.triplov.com/autores/index.html
 
 
O Prof. Galopim com os netos, no Cromeleque dos Almendres, Évora, 2014.
No Zomarine, em 2010 
 
AGRADECIMENTOS 
Ao Prof. Galopim de Carvalho e à Engª Susana Andrade, pelas fotos, e a Pedro Cunha, pela esclarecedora visita guiada ao Museu do Quartzo. 
Índice antigo

Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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