MARIA ESTELA GUEDES
Foto: Ed. Guimarães
Música: http://triplov.com/letras/mario_montaut/Estela/index.htm

Danças com a Pega-azul (Cyanopica cyanus)
A televisão é o retrato cultural da nossa época, maioritariamente virada para o entretenimento, muitas vezes de mau gosto. Mas há surpresas. Surpresas de cortar a respiração, como me aconteceu ontem, ao ser obrigada a parar no canal Mezzo, estupefacta com as imagens: bailarinos dançavam em palco com uma Pega-azul (Cyanopica cyanus, uma espécie miraculada - emendo: uma espécie relíquia, em Portugal e Espanha limítrofe, área de Vila Nova de Foz Côa). Depois vieram corvos, aliás as pegas também pertencem à família Corvidae, gansos, estorninhos, araras e mais.

Fui-me informar. No YouTube, outra caixinha de surpresas, há fragmentos desse bailado, La confidence des oiseaux, e de outros, também com animais, do coreógrafo Luc Petton. Vários aspetos merecem comentário: a originalidade e decerto dificuldade extremas de coreografar animais, pois acredito que haja muito movimento aleatório, donde os bailarinos terão de os seguir e não o inverso, improvisando; a extraordinária beleza dos movimentos e da coreografia em geral; a recusa evidente e obstinada de um academismo tão hirsuto que ainda usa o bailarino só como bengala da figura feminina e que só admite esqueletos como corpo; e a vontade de aliar a arte a ideias ambientalistas.

Luc Petton, ornitólogo amador,  está perto da Biologia do Comportamento, tirou partido de descobertas patenteadas por Konrad Lorenz, para treinar os seus gansos. A mais famosa delas foi a constatação de que os pintos, ao eclodirem, se não tiverem a gansa por perto, adoptam como mãe o primeiro ser que se abeirar deles, no caso o próprio Konrad Lorenz e, na dança, o treinador dos gansos bailarinos. Talvez as outras aves se comportem do mesmo modo, ignoro. Percebe-se que os animais vão à procura da comida discretamente fornecida pelos artistas.

Luc Petton faz passar para o público a sua convicção de que o Homem não é o rei da Terra, apenas uma das muitas espécies que a habitam, e que deve por isso respeitar as outras, enquanto membros, em igualdade de direitos, do superorganismo que nos habituámos a chamar Gaia. Nem daqui a cem anos esta ideia será assimilada e posta em prática na sua qualidade de medida salvadora da própria Humanidade. Há seres humanos rápidos, mas estamos a falar da espécie, e essa é muito lenta.

A respeito do corpo, a notar que algumas coreografias apresentam grávidas a dançar, ou bailarinas que simulam gravidez, e que a companhia de bailado não parece comportar esqueletos ambulantes, esse horror de montes de ossos associados à beleza, em especial feminina, que vemos não só nos desfiles de moda, mas também no cinema e no bailado. Os bailarinos são pessoas de peso normal, alguns que até diríamos cheiinhos.

Por tudo isto, mais não havendo, era de esperar que a companhia de bailado de Luc Petton tivesse um auditório razoável na Internet, mesmo que não fossem os milhões que batem palmas a quem melhor imita os passos de Michael Jackson ou mais alto salta de motorizada. Infelizmente, não, na Internet, as coreografias de Luc Petton ainda são desconhecidas, por isso é certamente uma revelação o que estou a divulgar aos triplovnautas. Espero que vão ao YouTube descobrir as coreografias de Luc Petton com animais... O primeiro teste falhou redondamente: links para as danças das aves, postos ontem no facebook, hoje ainda não tinham likes que se gostasse de contar...

Vamos lá, senhores! É beleza em estado puro, arte de nível superior, inteiremo-nos do que vai acontecendo de bom e de novo neste Mundo!


Maria Estela Guedes . Odivelas . 23 de outubro de 2014
 
Cyanopica cyanus . Pega azul
Foto in: http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://c2.staticflickr.com/
 
DANÇAS COM A PEGA-AZUL
Confidence des Oiseaux, Luc Petton
 
 
 
 
 
 
 
Confidence des Oiseaux, Luc Petton
http://www.youtube.com/watch?v=6Sn_0jV8xXQ
Luc Petton, né en 1957, est un danseur et un chorégraphe français. Il est principalement connu grâce à son travail avec les oiseaux, mis en place depuis 2004, qui lui procure une reconnaissance internationale.
Ornithologue amateur depuis de nombreuses années, il utilise, notamment pour la famille des anatidae (cygnes, canards), les techniques d'imprégnation post-éclosion développées avec les oies par Konrad Lorenz dans les années 1950. Le spectacle Swan en 2012 lui a valu la récompense du «Talents Danse de l'ADAMI».

Da Wikipédia
 
 
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Maria Estela Guedes (1947, Britiande / Portugal). Diretora do Triplov

Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV.

LIVROS

“Herberto Helder, Poeta Obscuro”. Moraes Editores, Lisboa, 1979;  “SO2” . Guimarães Editores, Lisboa, 1980; “Eco, Pedras Rolantes”, Ler Editora, Lisboa, 1983; “Crime no Museu de Philosophia Natural”, Guimarães Editores, Lisboa, 1984; “Mário de Sá Carneiro”. Editorial Presença, Lisboa, 1985; “O Lagarto do Âmbar”. Rolim Editora, Lisboa, 1987; “Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários”. Galeria Almada Negreiros, Lisboa, 1987 (colaboração e co-organização); “À Sombra de Orpheu”. Guimarães Editores e Associação Portuguesa de Escritores, Lisboa, 1990; “Prof. G. F. Sacarrão”. Lisboa. Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1993; “Carbonários : Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864”. Em colaboração com Nuno Marques Peiriço. Palmela, Contraponto Editora, 1998; “Lápis de Carvão”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2005; “A_maar_gato”. Lisboa, Editorial Minerva, 2005; “À la Carbonara”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2007. Em co-autoria com J.-C. Cabanel & Silvio Luis Benítez Lopez; “A Boba”. Apenas Livros Editora, Lisboa, 2007; “Tríptico a solo”. São Paulo, Editora Escrituras, 2007; “A poesia na Óptica da Óptica”. Lisboa, Apenas Livros Lda, 2008; “Chão de papel”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2009; “Geisers”. Bembibre, Ed. Incomunidade, 2009; “Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal”. Editora Arte-Livros, São Paulo, 2010. “Tango Sebastião”. Apenas Livros Editora, Lisboa. 2010. «A obra ao rubro de Herberto Helder», São Paulo, Editora Escrituras, 1010; "Arboreto». São Paulo, Arte-Livros, 2011; "Risco da terra", Lisboa, Apenas Livros, 2011; "Brasil", São Paulo, Arte-Livros, 2012; "Um bilhete para o Teatro do Céu", Lisboa, Apenas Livros, 2013.

ALGUNS COLECTIVOS

"Poem'arte - nas margens da poesia". III Bienal de Poesia de Silves, 2008, Câmara Municipal de Silves. Inclui CDRom homónimo, com poemas ditos pelos elementos do grupo Experiment'arte. “O reverso do olhar”, Exposição Internacional de Surrealismo Actual. Coimbra, 2008; “Os dias do amor - Um poema para cada dia do ano”. Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009. Entrada sobre a Carbonária no Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva Editora, 2010; «A minha vida vista do papel», in Ana Maria Haddad Baptista & Rosemary Roggero, Tempo-Memória na Educação. São Paulo, 2014.

TEATRO

Multimedia “O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no ACARTE, Fundação Calouste Gulbenkian, com direcção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; “A Boba”, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez  e interpretação de Maria Vieira. 

 

 




 



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