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Maria Estela Guedes
Foto de Aline Daka

O nosso Estado de Normalidade

Fazem parte da normalidade da Internet as situações de anormalidade, tais como vírus e emails com informação falsa. Perde-se imenso tempo com isso, porque é sempre possível sermos solidários com quem precisa de nós, e, se precisa de nós, é porque temos algum instrumento de ajuda. Qualquer pessoa normal deseja ajudar, mas por vezes o S.O.S. é uma farsa, quando não é uma burla.

É claro que não temos grande defesa, a não ser a de eliminarmos os pedidos de socorro, sem sequer verificarmos nada. Quando quero verificar, copio um parágrafo do texto e deposito-o na caixa de pesquisa do Google. Logo aparecem resultados.

Deixa ver, vamos testar aqui um facto aberrante do nosso Estado de normalidade.

Bem, deixo um link aos que gostam de resolver mistérios policiais:

http://www.rtp.pt/wportal/entretenimento/familiartp/familia.php?id=6090

Parece que nesse link reside o suposto autor de um email que anda a circular por aí, e muito na nossa lista triplóvica de endereços, email assinado por Dom Manuel III, a perguntar porque é que não falam dele nos meios de comunicação social.

Meus amigos, pensei que fosse vírus, mas os nossos conselheiros políticos acham que é guerra de informação/contra-informação. Eu descobri o tal senhor Hilário logo à primeira tentativa de pesquisa no Google. É muita e má literatura para ler, a falar de Anti-Pide e coisas singularmente estranhas ao que eu julgava ser o nosso Estado de Normalidade... Muita aberração, não sei se falsa se verdadeira, só sei que não tenho paciência para mais pesquisas nem para tentar decifrar tantos enigmas.

Cuidado, emails do triplov a convidarem para reuniões com este ou com aquele político, a oferecerem viagra, ou com qualquer outra conversa que vos pareça alheia ao nosso Estado de Normalidade, são falsos.

No nosso Estado de Normalidade já ninguém acredita em ninguém, tudo é falso e aberrante, a verdade parece importar tão pouco que está soterrada sob avalanches de palavras ocas, convencidas, poderosas, palavras, palavras, palavras... Não obstante, espero que acreditem em mim: o Estado de Normalidade não é um tecido impermeável, ele tem umas fissuras por onde ainda há quem respire e vá dizendo umas verdades. Com a franqueza possível, pão-pão, queijo-queijo. Difícil é identificar essas pessoas, no meio dos aldrabões que as imitam. Ficamos no entanto conversados, sim? Emails meus a marcarem reuniões políticas, seja com D. Manuel III seja com D. Sebastião, sairam de computador que não conheço e de cabeça que não é a minha. Façam o favor de os mandar à vida, e não os abram nem os reencaminhem.

<estela></guedes>

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; A Poesia na óptica da Óptica; Chão de Papel; Geisers. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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