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Maria Estela Guedes
Foto de Aline Daka

Poemas para Federico García Lorca

W Park 79th Str.

Percorrer a rua até ao fim,

A pé atravessando o Central Park.

Vêem-se gays abraçados pelas veredas

Ou de diversa raça dando-se a mão;

Os lagos de margens congeladas

Neste Inverno de vidraça fina

Crepitam cristalografia.

Indiferentes ao frio, lá, onde o gelo se esburaca

E respira a água líquida,

Vogam patos reais, vaidosos do papo

Vestido com écharpe de brilhantes.

Turistas tiritantes

Debaixo de gorros de pele

Tiram fotografias.

Despidas, as árvores, são esguios esqueletos

Traçados a bisturi

Sobre cúprea chapa de neblina.

Deixam ver, à transparência, o busto erguido

Dos elegantes arranha-céus

Na 6ª Avenida.

O tempo é monstro, sibila.

Porém, orgulhoso, a bela cabeça de bronze

Erguida, uma estátua enfrenta a neve, o gelo,

Tal como enfrentou o Papado, a Realeza

E ameaças à sua vida: Giuseppe Mazzini,

O grande líder carbonário.

 

Nos dois extremos da 79th Str.,

A água do Hudson é inacessível a quem caminha,

Barrada pela marginal ríspida

A toda a velocidade corrida

Por limousines compridas

De Madonnas protegidas atrás de vidros fuscos.

Sim, o tempo é uivo, vidra a cara.

E outros veículos atrás de veículos

Numa hurry de workaholics

Que atroam e atormentam

Os tímidos ouvidos.

Volta para trás a estrangeira, os pés gelados

De angústia, impotentes para alcançar a água,

Presos à nítida sensação de clausura.

 

Apesar da liberdade para os homossexuais,

E da livre relação inter-racial que agora existem,

Tal como no teu tempo, Federico,

Manhattan continua a ser uma ilha. 

Poemas para Federico García Lorca - Index

Britiande, Fevereiro de 2010

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo; A Poesia na óptica da Óptica; Chão de Papel; Geisers. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).

   
   

 

 

 


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