O ar sem oxigénio é seco.
Abrasa o calor mas não se transpira.
Trespassam-nos os olhares de índias com perfil de condor
na sua tez morena de Lua. Difícil distingui-las umas
das outras. Belas raparigas que o amor, em sua dimensão maternal,
transforma em matronas sujas.
Sujas, as saias cor-de-rosa aos folhos, recamadas de lantejoulas,
o embrulho dos filhos e haveres às costas, a barriga inchada.
Baleias com um ridículo chapeuzinho à banda.
Tudo isto me tem causado pesadelos.
Passamos demasiadas horas na cama, penetrando
e deixando-nos penetrar pela carne.
O primeiro
foi o de me rasgarem o ventre com um punhal.
Acordo sempre em ânsias, antes de agonizar.
Noutra noite sonhei que me estava a transmutar num ser viscoso,
imundo, com tentáculos e uma grande infelicidade no semblante de lula.
Esta noite sonhei que as pessoas andavam a ser mortas no metro,
em Lisboa. Sonhei isso,
aqui,
nestas alturas desgraçadas dos Andes.
Eu ia com outros numa carruagem, deitados no chão, para nos defendermos. Quando o metro começou a andar, um tubo negro preso à parede deslocou-se, dobrou-se como ânfora redonda, e começou a soprar um gás pela boquinha de serpente. O jacto expirado com ruído frio, senti o odor do clorofórmio e gritei que nos estavam a anestesiar. Consegui fugir quando o metro parou na estação seguinte, mas corria pela noite sem ruído e sem dinheiro, sem cartões de crédito nem documentos, e tinha de empreender uma longa viagem pelas favelas bolivianas até alcançar a segurança de uma casa.
A viagem experimenta o corpo,
o erotismo,
a sexualidade. Porém o espírito, a alma, o que é feito deles? O que é feito do amor? Devem estar cloroformizados.
Só o corpo se move nos écrans, nas praças, de preferência atlético, belo, sedutor.
A alma foi sequestrada em La Paz por um assaltante com charme
e agora não consegue regressar sozinha a casa. |