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Maria Estela Guedes
Amor inca

Ouvindo "A Night at the Opera" na arrebatante voz de Freddie Mercury.

Os Queen num barzito da rua principal de Copacabana,

margens do lago Titicaca. Loja sim, loja não, é uma agência de viagens.

Quatro horas da tarde, passa gente despida e gente vestida,

reflectindo a amplitude térmica despropositada.

 

Cabelos lindos os destes incas, negros e lisos

e brilhantes e compridos. As mulheres

carregam cargas à cabeça e filhos às costas

para vender aos turistas, os homens ficam a ver.

O Titicaca, ao fundo, encantadora baía com dois ou três

gansos, mas

nenhum humano se aventura nas águas

que adivinha cristalinas e geladas.

Passam dois jovens incas profundamente abraçados – que quererá isso dizer?

O Mário falou de gatos por e-mail, deve ter-se esquecido de um emoticon

para subtrair os Carnivora à semiótica fauna andina.

Indaguei já e só surgiram à tona da conversa o llama ou vicuña (Camelidae),

e um tigrillo que também é gato,

mas não abraçado a outro na rua mais turística de Copacabana.

E outros típicos Felidae apreciamos nos cafés a fazerem companhia

a senhoras sós

como acontece também no comboio que trepa de Assuão para o Cairo,

nocturno e generoso em miados egípcios

tão semelhantes aos venezianos em cantadoras gôndolas.

 

O amor perde-se e ganha-se nos vários tons de azul do Titicaca.

Assim admiramos europeias com incas ao lado

nas esplanadas. O contrário

ainda não vi.

O ar sem oxigénio é seco.

Abrasa o calor mas não se transpira.

Trespassam-nos os olhares de índias com perfil de condor

na sua tez morena de Lua. Difícil distingui-las umas

das outras. Belas raparigas que o amor, em sua dimensão maternal,

transforma em matronas sujas.

Sujas, as saias cor-de-rosa aos folhos, recamadas de lantejoulas,

o embrulho dos filhos e haveres às costas, a barriga inchada.

Baleias com um ridículo chapeuzinho à banda.

Tudo isto me tem causado pesadelos.

Passamos demasiadas horas na cama, penetrando

e deixando-nos penetrar pela carne.

 

O primeiro

foi o de me rasgarem o ventre com um punhal.

Acordo sempre em ânsias, antes de agonizar.

 

Noutra noite sonhei que me estava a transmutar num ser viscoso,

imundo, com tentáculos e uma grande infelicidade no semblante de lula.

 

Esta noite sonhei que as pessoas andavam a ser mortas no metro,

em Lisboa. Sonhei isso,

aqui,

nestas alturas desgraçadas dos Andes.

Eu ia com outros numa carruagem, deitados no chão, para nos defendermos. Quando o metro começou a andar, um tubo negro preso à parede deslocou-se, dobrou-se como ânfora redonda, e começou a soprar um gás pela boquinha de serpente. O jacto expirado com ruído frio, senti o odor do clorofórmio e gritei que nos estavam a anestesiar. Consegui fugir quando o metro parou na estação seguinte, mas corria pela noite sem ruído e sem dinheiro, sem cartões de crédito nem documentos, e tinha de empreender uma longa viagem pelas favelas bolivianas até alcançar a segurança de uma casa.

A viagem experimenta o corpo,

o erotismo,

a sexualidade. Porém o espírito, a alma, o que é feito deles? O que é feito do amor? Devem estar cloroformizados.

Só o corpo se move nos écrans, nas praças, de preferência atlético, belo, sedutor.

A alma foi sequestrada em La Paz por um assaltante com charme

e agora não consegue regressar sozinha a casa.

Maria Estela Guedes. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, da secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino. Directora do TriploV. Alguns livros publicados: Herberto Helder, Poeta Obscuro; Eco/Pedras Rolantes; Crime no Museu de Philosophia Natural; Mário de Sá-Carneiro; A_maar_gato; Ofício das Trevas; À la Carbonara; Tríptico a solo. Espectáculos levados à cena: O Lagarto do Âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987); A Boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008).
   
   

 

 

 


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