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ERNESTO DE SOUSA
33 Folhas: A casa

para uma carta sobre a casa

Diferença entre a casa e a Casa. Não se trata necessariamente da linguagem metafísica, mas sim: pré-reflexiva. De resto, Engels, embora ocupado sobretudo com a exposição do método dialéctico de entendimento do Ser, do próprio Ser (natureza), dizia bem - que, "evidentemente", para o uso quotidiano... as categorias metafísicas conservam todo o seu valor ("Dialéctica da Natureza", ed. fr., p. 224). E como "o mais íntimo é por vezes o mais externo", o mais íntimo quotidiano é a Casa. Ver na dialéctica do interior e do exterior o lugar da "consciência dilacerada" (Diderot, "Le Neveu de Rameau"), da contradição entre o nómada e o sedentário, o finito e o infinito... 

- Mas afinal, ainda não percebi o que querias...

- Eu quero tudo! - diz um personagem de Dreysar.

- Não optar é falta de maturidade.

- Querer tudo não significa isso. É antes a incapacidade de optar futilmente. Querer tudo significa que optar é uma tragédia renovada, optimista ou pessimista, conforme...

Falo, portanto, de "arquitecturas ideais":  "Quand j'y songe, je me perds en réflexions techniques, je recommence à rêver d'un terrier parfait en tous points, je vois avec ravissement, les yeux fermés, des possibilités d'architectures idéales..." (Kafka, "Le terrier"). Ideais mas possíveis. Arquitectura pré-reflexiva.













Autocolante e pormenor do cartaz - de Leonel Moura - para a retrospectiva "Itinerários", e focópia de um graffiti de Ernesto de Sousa

Vi hoje alguma coisa muito interessante: um número da "The Architectural Review" (February 1965, p. 144) - "Geometry of Costwolds". Uma casa parecida com a Casa. Semelhança apenas morfológica, talvez: a Casa parece-se com uma tenda, e agarra-se ao chão, de onde nasce. Outra coisa importante: é de pedra, é necessário que seja de pedra, e pedra local. A Casa não pode ser alheia à terra.

A Casa é um chão, e é também ave. Recordo uma viagem para Vila da Feira. Leio no bilhete da camioneta que uma terra próxima se chama

CHÃO AVE

Sonho esta terra chamada Chão Ave, como um local concreto que guarda em seu nome próprio todas as contradições da Casa. Jogando como Alice no País das Maravilhas, a explicação de Chão Ave é CHAVE. Assim descubro que Chave (ou seja a Solução, o Caminho, e ainda no mesmo sentido a penetração profunda, o ter-casa, a Casa, e entrar dentro dela familiarmente, a união, o prazer sem limites da raiz na terra, do amor e do CASAmento) é:

UM CHÃO, sólido, quando só, impenetrável, árido e varrido, ou apodrecido aparentemente de folhas e estrume superficial; rico por dentro, fofo, ninho e paz; 

e AVE, voo, altura, copa densa de outros mundos, descoberta e futuro.

A Casa será pois um Chão penetrável; cave, galerias subterrâneas e todos os outros mistérios da terra; raiz umbilical. E será abertura, sótão, voo possível, terraço, copa densa e viva. (Não esquecer que chão é noite; que noite e mulher são terra. Que ave e dia são sinais de hermafroditismo. Que o homem é mar, fluido, água. A água, pois, não pode estar longe. O mar. E a Casa germina nas fontes. Rever esta tradicional simbologia). 

Porto, 196-?

Foto de Mitra, dedicada a Luna Levi (Meg). Folheto da expo "Pre Texto", Círculo de Artes Plásticas, Coimbra, 1981, com a frase: "Numero Deus Pari Gaudet"