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Maria Estela Guedes
A técnica das diatomáceas


Como prometi no último editorial (1), logo que soubesse qual a técnica das diatomáceas, apressar-me-ia a informar-vos, pois devia ser interessante. Isto a propósito de um título estranho do mais estranho ainda José da Silva e Castro, "Quelques observations sur la technique des diatomées" (Imprensa da Universidade, Coimbra, 1899), encontrado nos ficheiros manuais da Biblioteca Nacional de Lisboa. José da Silva e Castro, como já devem saber, é o malacologista que continua em francês o título de A. Luso da Silva, "Molluscos Terrestres e Fluviaes de Portugal" (2; 3) e de quem nem as datas de nascimento e morte se conhecem.

Bem, aquele título de José da Silva e Castro é de uma separata do Boletim da Sociedade Broteriana (T. XVI), e o máximo responsável por esta revista era Júlio Henriques, de quem temos trabalhos em linha, sobre São Tomé (4), e de cujo psicómetro, usado na meteorologia são-tomense, se ocupa Miss Pimb, com invulgar competência científica, atendendo à sua juvenilidade (5).

Passei os olhos por "Quelques observations sur la technique des diatomées", e é claro que as diatomáceas não têm técnica nenhuma, que se saiba, e, se julgássemos sabê-lo, declará-lo corresponderia a uma antropomorfização, o que de resto é prática tão incorrecta como banal, sobretudo nos programas de televisão sobre animais: os animais têm técnicas, estratégias disto e daquilo, como qualquer chefe militar na frente de batalha. O título "Observações sobre a técnica das diatomáceas" é uma aberração deliberada, igual ao mistério das identidades em que voga o nome "José da Silva e Castro". O artigo trata das técnicas de colheita, preparação, conservação e transporte destas algas, portanto a técnica é do naturalista e não das diatomáceas, e pode ter sido escrito pelo próprio Júlio Henriques, a quem é dedicado sob a forma de carta: "Lettre à M. le Dr. Julio Henriques", datada de "Sinçães, le 15 août 1899".

Só por inata delicadeza e porque, enfim, o TriploV ocupa já um lugar importante na rede, não mando estes cavalheiros fazerem uma eufemística exploração às mais profundas brenhas minhotas. Por isso calo-me já, deixando apenas mais duas informações:

1. No editorial anterior disse que não tinha encontrado o livro "Horas Vagas", de Luso da Silva, cuja saída próxima se anunciava em "Últimos Versos", e Sampaio Bruno considera um primoroso livro de História Natural, com cartas populares, etc.. Esta descrição corresponde ao livro prefaciado por Bruno, "Últimos Versos", que remata com poemas intitulados "Cartas" e contém muita matéria de História Natural. É só mais outra canelada, com a particularidade de ser interdisciplinar, pois tanto aleija as letras como as ciências. Que o autor de "O Encoberto" seja um dos que as desferem, já não espanta, pelo contrário: nesta charada do naturalismo, só faltava aparecer Sampaio Bruno, portanto Bruno apareceu. Aliás já o tínhamos em linha, em profecia dos Cheilostomates, num dos textos de A.M. Gallopim de Carvalho (6).

2. Na história de Francisco Newton encontra a transcrição fiel de outro mistério de identidades criado por Júlio Henriques, agora para Francisco Newton (7), publicado num dos catálogos das plantas coligidas pelo Chico em Angola, em data imprópria, quando o rapaz ainda devia andar na vadiagem pela praia de Leça, com amiguinhos como Augusto e António Nobre. Note-se que o Francisco é tratado por "Frank", o que quer dizer que Frank Newton não é Francisco Newton, mas, a partir do momento em que o currículo angolano vai servir ao Francisco para ser nomeado nosso agente duplo, isto é, nosso naturalista-explorador em São Tomé, o feito assume proporções algo gravosas.

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(1) Mascarados em ciência
(2) Molluscos terrestres e fluviaes de Portugal - A. Luso da Silva
(3) Mollusques terrestres et fluviatiles du Portugal - José da Silva e Castro
(4) São Tomé - Júlio Henriques
(5) O Psicómetro - Miss Pimb
(6) Jazida de Briozoários... Pólo Sampaio Bruno
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