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Francisco Soares
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As obras de L. A. Verney, « Verdadeiro Método de Estudar» (1) e de F. de Figueiredo, « A Crítica Literária como Ciência» (2), são pontes por onde passam diversos eixos de reflexão cujos fragmentos se arrastaram até hoje no panorama crítico e teórico lusófono e europeu. Talvez por causa do seu carácter crucial, entre esses mesmos dois livros encontraremos afinidades e diferenças entrelaçadas.

A relação de Fidelino de Figueiredo com o seu lugar e tempo, voltando-se para a história de uma cultura local e para a defesa da sua actualização com o estrangeiro, sustentou por ventura o que de crucial apareceu nesta e em outras obras onde estabelece, ou deixa perceber, afinidades com Verney. Nele veria, a par de outros, um precursor. Uniam-nos a busca sistemática e racional da verdade (embora o conceito de razão se transformasse no pensamento de Fidelino de Figueiredo), a herança estrangeirada, a herança aristotélica (essa bem mais enraizada na cultura portuguesa) e a atenção dada à relação com o público ou ao cenário comunicativo.

As diferenças entre eles deduzem-se da distância temporal (que é também cultural) e dos quadros bibliográficos, com teses por vezes opostas. Aliás as diferenças acentuaram-se conforme Fidelino de Figueiredo se afastou desse projecto inicial, ainda muito marcado por uma linguagem de racionalidade que derivava da "fé devotada no método científico". A transformação nota-se já em 1918, no texto «Criação e Crítica Literária», onde assume "dúvidas sobre a rigidez objectiva da crítica". Vinte e um anos depois, em « Aristarchos» , divide claramente "o trabalho crítico em ciência da literatura e direcção de espírito, tão livre e criadora como a inspiração poética". Apenas dois anos depois de «Aristarchos», assumiu uma "transformação completa do conceito de literatura e do conceito de crítica", relacionados agora com "sublimações de traços elementares e constantes do espírito humano - o seu esforço de compreensão e a sua luta pela expressão" (3). Sob o título que repete essa última frase, "a luta pela expressão", vê na crítica um exercício para seguir uma maneira de "compreender a realidade" (4), o que a torna filosófica e justifica o subtítulo: "prolegómenos para uma filosofia da literatura" .

No entanto, apesar da progressão do seu pensamento, algo permanece nele do cientismo inicial. Ainda em «A Luta pela Expressão», depois de puxar a "cooperação do público" (5) a um lugar cimeiro, ele fala na reabilitação da "forma, que adquire prestígios novos, como condição substancial da arte literária e da elaboração do pensamento e do conhecimento literário, como técnica estilística até às minúcias mais íntimas" (6). Duas páginas à frente afirma que "alguma razão permanente ou objectiva estará no fundo desse mistério da emoção estética duradoura". Em «Um Homem na sua Humanidade» resume: "somos restinhos últimos de gerações que a todos os interesses e preocupações prepunham os problemas da razão e da moral (7). Sejamo-lo até ao fim [./.] a razão não foi dada ao homem para o humilhar" (8). Nenhuma das duas afirmações, incluindo as que faz sobre a "cooperação do público", o afastaria de Verney e da respectiva linhagem cultural. A "orientação dominante nas estéticas do século XVIII está virada para o fruidor", de onde "a centralidade que assumem categorias como «gosto» ou «juízo»" (9), pelo que a proximidade entre ambos, nesse aspecto, se torna previsível para um leitor informado. Também a busca sistemática, racional, objectiva, atenta às formas e minúcias de um conhecimento da literatura, os unia. A função moral da crítica será partilhada, embora com diferenças no que diz respeito ao conceito de moralidade, pelos dois. Finalmente, as classsificações genológicas que elaboram estão muito próximas uma da outra, de tal maneira que Fidelino parece apenas renomear com maior alcance e precisão os modos e géneros que Verney tinha em presença. O que torna a genologia especialmente sintomática. O facto de Fidelino de Figueiredo elogiar a genologia de Verney, que diz ser a primeira "apresentada por crítico português" (10), reforça a nossa intuição de que esse é um aspecto a privilegiar na comparação entre os dois.

A aproximação entre as respectivas obras tem um auxiliar poderoso, de resto, que é o livro de Fidelino de Figueiredo chamado « História da Critica Literária em Portugal» (11), cuja 1.ª edição vem a público em 1910, dois anos antes de « A Critica Literária como Ciência» . Nesse livro, o autor não é impiedoso em relação a Verney, chegando a identificar contributos críticos ou teóricos positivos e admissíveis no « Verdadeiro Método de Estudar». Trata com entusiasmo a poética de Cândido Lusitano, que vem no seguimento da do frade barbadinho. Cito brevemente exemplos das afinidades entre os três a partir desse livro:

Em primeiro lugar, Fidelino de Figueiredo elogia no « Verdadeiro Método» "a sua [do autor] energia investida contra o gongorismo e a defesa da criteriosa imitação dos bons modelos" (12). Mais do que isso, considera "verdadeiro principio" o da harmonia e da coerência intrínseca da obra de arte, que é defendido por Verney, acusando apenas o frade de alargar "illegitimamente" esse princípio. Realça, também, "uma razão de semelhança, que pode colher" e, na definição de poesia, dois outros princípios: "a verdade e a verosimilhança como condição essencial da obra literária, e a emoção como fim em vista" (13), ou seja, posta no lugar do que se provoca no leitor.

Toma corpo, aqui, a sombra comum de Aristóteles e do aristotelismo. O que é sinalizado por expressões tais como "razão de semelhança" e de "verosimilhança", ou ainda pela consideração do "verdadeiro princípio", que pressupõe uma visão orgânica da obra. A "semelhança" e a verdade levam-nos para uma teoria imitativa, não só dos bons modelos, mas da realidade natural. A citação valoriza o conceito de imitação e aplica-o ao "processo psicológico" das personagens, na esteira de Batteux (14). Para poder abarcar a lírica integrava-se entre as personagens a do poeta, que se tomava a si próprio por modelo segundo Hegel, e entre as imitações a da "pura situação da alma" (15). Neste aspecto, ganha significado especial a designação do par "de acção / subjectivo", a que retornarei adiante e que era, em Batteux, a divisória que separava a lírica da epopeia e do drama ao mesmo tempo. No primeiro pólo temos a imitação da acção; no segundo, a imitação psicológica do sujeito da acção. A classificação aristotélica das imitações segundo o objecto está presente aqui na versão neoclássica: não corresponde às divisórias de Platão e Aristóteles, mas só as transforma pela resistência e subsistência do lírico, não percebido agora como na Antiguidade. Ela suporta paralelos gramaticais e enunciativos (estes, igualmente observados por Genette (16). No primeiro pólo temos o verbo ou o sintagma verbal como epicentro do processo conducente à criação, no segundo o substantivo ou o sintagma nominal tornam-se o íman das energias criadoras. Ao domínio do sintagma nominal corresponde o predomínio do sujeito; ao do sintagma verbal o da acção. As obras centradas na acção usam modos enunciativos próprios (com predominância da segunda e da terceira pessoa do singular), as centradas no sujeito também (primeira pessoa). O paralelo gramatical faz pensar na genologia romântica, onde o lírico é associado ao mesmo tempo ao poeta e ao "eu", enquanto um dos outros é colocado no extremo oposto, o do objecto e da não-pessoa. Daí os géneros objectivos e subjectivos, noção que, embora mitigada, parece também resistente (17). Mesmo Croce, outro pensador do poético lido e comentado por Fidelino de Figueiredo, que prefaciou o Breviário de Estética em tradução autorizada pelo seu autor, diz em nota ao livro « La Poesia » (a sua " Poética" (18) que o lirismo suscitou "por contraste" a procura da "poesia impessoal, objectiva" (19).

Seguindo a metáfora gramatical, Verney lembrou-se do terceiro sintagma, já previsto nas poéticas clássicas (seja-nos permitido o anacronismo), que não é o verbal nem o nomimal, mas o do "género demonstrativo", da adjectivação, da adverbialização, da predicação, representado pelas espécies do louvor. Esse aspecto - reforçado pelo didactismo típico da época - é talvez o único onde Verney foi mais completo que Fidelino de Figueiredo. No entanto, a definição do demonstrativo por Verney também leva em conta os aspectos comunicacional e social (louvor) que serão integrados e louvados por Fidelino de Figueiredo e por outros. Ela sublinha a presença da outra vertente comum na genologia dos dois: a pragmática. A consideração pragmática, a que Fidelino de Figueiredo se refere, por exemplo quando fala na "emoção como fim em vista", não é também alheia ao que chegou até nós das lições aristotélicas. Pois o que chegou é suficiente para percebermos que a tragédia se organiza em função da catarse , a emoção (ou sentimento) que tende a provocar no leitor.

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(1) Verney, Luís António, « Verdadeiro Método de Estudar », pref. e notas Joaquim Ferreira, 3ª ed, Porto, Domingos Barreira, [D.L. 1984]. V. a edição « Verdadeiro Método de Estudar: Cartas sobre a Retórica e Poética », introd. e notas Maria Lucília Goncalves Pires, 1ª ed, Lisboa, Presenca, 1991.

(2) «A Crítica Literária como Ciência» , [Porto], 1912, transcrição de uma conferência "apresentada á Sociedade Portuguesa de Estudos Historicos, em sessão de 21 de Fevereiro de 1912".

(3) "A Luta pela Expressão», 3.ª ed., São Paulo, Cultrix, 1973, p. 135.

(4) Amora, A. Soares, «O Essencial sobre Fidelino de Figueiredo », Lisboa, IN-CM, [1989], p. 25.

(5) Op. cit., p. 127. V. também p. 128.

(6) Loc. cit.

(7) É recorrente na sua obra a função dupla da crítica, daí derivada: explicar e valorar a obra literária

(8) Loc. cit. e «Um Homem na sua Humanidade», 2.ª ed., Lisboa, Guimarães, 1957, p. 145

(9) Paolo d'Angelo, « A Estética do Romantismo» , Lisboa, Estampa, 1998, p. 94.

(10) Op. cit., p. 69.

(11) «Historia da Critica Literária em Portugal: da Renascença à Actualidade », 2.ª ed., rev. "e seguida de appendices documentarios", Lisboa, Clássica, 1916, p. 63. O título da 1.ª ed. era só « Critica Literária em Portugal ».

(12) Op. cit., p. 67.

(13) Op. cit., p. 68.

(14) V. Gérard Genette, « Introdução ao Arquitexto », trad. Cabral Martins, pref. Maria Alzira Seixo, Lisboa, Vega, 1986, pp. 45-52.

(15) Afirmação de Batteux, citado por Genette, op. cit., p. 48.

(16) Op. cit., pp. 50-51.

(17) Para a noção de "não-pessoa" v. É. Benveniste, O Homem na Linguagem: ensaios sobre a instituição do sujeito através da fala e da escrita , pref. M.ª Alzira Seixo, trad. Isabel M.ª Lucas Pascoal, Lisboa, Arcádia, 1976, p. 54. Para a genologia romântica v. Aguiar e SilvaV. M. P. de Aguiar e Silva, « Teoria e Metodologia Literárias» , Lisboa, Univ. Aberta, [2001], pp. 114-115.

(18) V. « La Poesia: introduzione alla critica e storia della poesia e della letteratura », ed. de G. Galasso, Milão Adelphi, 1994, pp. 367 a 371.

(19) V., na ed. referida, as Postille , p. 233.

 

 

 

 


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