NICOLAU SAIÃO:
As estações da vinha

A ideia bebi-a de Shoji Ueda. Deixei-a assentar e destilei-a. Mas, ao contrário do fotógrafo japonês, verti o produto do processo sobre apenas uma parte específica dos campos da minha região natal — os vinhedos — e não usei quaisquer outros artifícios além dos proporcionados por uma normal reflex equipada com uma lente não menos comum.

Na tradição mediterrânica, muitas foram as elegias dedicadas ao vinho, o mais democrático dos néctares, o licor que conforta o corpo e agasalha o espírito; inúmeras as odes que os maiores poetas das grandes civilizações lhe têm cantado ao longo da História. No entanto a planta, sua antecessora, aquela que sofre rigores para um dia nos oferecer a alegria dos delicados frutos que nele se transformarão, é, não poucas vezes, injustamente esquecida. E foi a ela que um dia quis prestar uma homenagem que se desenrolasse pelo ciclo das estações do ano, do bacelo à cepa já consagrada, do ramo despido até aos bagos carnudos que, com volúpia, se agrupam em cachos.

O vinho é o filho pródigo (da planta).

Terá a parra sido escolhida para tapar as partes pudendas das figuras mitológicas como forma de salientar a sua importância (a da parra e, mesmo, a das partes)? Ou pela razão inversa? – José Cartaxo

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Os vinhedos de Estremoz como os vinhedos do Reguengo. Como os de Asnières ou de Peso da Régua. Como os de Tavira e de Pinhel, de Modena e de Kerion. No Alentejo ou na Argentina, na província de Mendoza antes de se entrar nas pampas desérticas.

No Oregon e no Idaho, em La Rioja, no Lidl e na Praça Nova, no mercadinho do Corte Inglês e na mercearia fina ao canto da rua de Jacobo Rodriguez quando se entra na Plaza de Cristóbal Colón em Badajoz: vinhos que da uva saís, que dos vinhedos brotais - e esta palavra vinhedo que se rola na boca como um néctar numa prova real - vinhas sob o sol ou debaixo da chuva que sacode as parras, com gente e sem ninguém, brancas e azuis da neve numa tarde de Janeiro.

E as latadas. Em frente da casa antiga do lado sul da ermida de S.Cristóvão, agora exactamente como há cinquenta anos.

Nos olhos e na memória do mais discreto evocador como nos minutos simples de prazer dum modesto beberrão solitário.

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Fotos são sinais. Tal como as vinhas. Sinais de qualquer coisa que se prolonga num tempo abstracto e no concreto tecnológico de diferentes disciplinas. Semelhante ao olhar mecanicista de Rebeca Horn num crepúsculo rosado, “veins of light inside, like branches” ou o rigor objectivo e o conceito antrópico de Jannis Kounellis.

Como se fôssem poemas. Ou antes: como se tivessem sido sempre poemas. O pio do pássaro, a gaiola suspensa dum prego habilmente inclinado para lhe dar firmeza. E as mulheres que passavam para a monda lá mais para diante, para os socalcos em ferradura das Covas de Belém, lugar de nascimentos de ancestros e de gente futura, mas de outra trajectória familiar.

De outros destinos, sinas diversas como raízes de plantas diferentes, de cepas desconhecidas.

E o campanário, no meio das vinhas se olhado do pinheiral antes da estrada, para além de outros campos dos lados de Marvão e dos contrafortes primevos da serra de São Mamede.

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O copo meio cheio ou meio vazio de Franz Hals. Os borrachões de Goya. Os hussardos bons pichéis de Jean Giono e os salteadores que se acalentavam com um belo copázio de tinto quente com açúcar nas estalagens das terras de Pourrières. A ida ao campo de ténis do Salão Frio pela vereda que atravessava as vinhas e sob as figueiras ao pé da nora. Robert Desnos no campo de concentração de Terezin, delirante e pouco antes de morrer, sonhando que passeava com Tzara entre os cachos de moscatel das terras da sua infância. Os provérbios e as sentenças da sabedoria popular com um travo de séculos (“Muita parra, pouca uva”; “Ano de nevão, ano de vinho e pão”; “Passar por lá como cão por vinha vindimada”).

Os domingos sem regresso, quando o pai levava o garoto pela mão e entravam numa taberninha anexa a uma adega para provar o vinho novo e lhe disse que era dos cachos iguais aos da velha quinta que se fazia aquele líquido de cheiro pungente e fresco na penumbra da loja de alguns convivas.

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Avançavam cautelosamente à roda da vinha. Por precaução retirou e depois voltou a meter o carregador da automática. O tremor passara-lhe. Lembrou-se de quando brincava aos índios e cóbois na courela da Quinta Ferreira, antes do bosquezinho de castanheiros e um pouco para além da eira e da saibreira como um deserto em miniatura.

A rajada apanhou o companheiro da frente à altura dos rins e fê-lo rodopiar. Ao estender-se no chão, estranhamente calmo e fazendo pontaria como se estivesse na carreira de tiro, viu os olhos do outro muito abertos e fixos na cara suada.

Olhos esverdeados como uvas ainda não plenamente amadurecidas.

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A vindima é a apanha dos cachos. Deve ter lugar na altura em que a uva atingiu a maturação completa. Este momento pode ser determinado com rigor, desde que se recorra ao gleucómetro de Guyot – tipo de areómetro de volume variável e peso constante, munido de três escalas…” - assim se lia na página 245 do livro “Mercadorias” (4ª edição da Livraria Didáctica) de Leopoldino de Almeida e Jorge Ferreira Matias para os alunos do Curso Comercial.

Na primeira página das folhas de guarda, escrita a tinta de caneta permanente, uma citação do “Drona Parvah” (descoberta onde?): “Não haverá sol, nem chuva, nem pássaros no céu. Não haverá paz, nem calor, nem amizade. Somente se ouvirão os lamentos surdos e os gemidos roucos dos que morrem. Tereis morte, loucura e peste. E tereis desespero e fome. E tudo que havereis de ter será pouco. E tudo será demasiado. Porque vós não sabeis quem sois, nem os vossos princípios conheceis.”.

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Entrara em Espanha por Vilar Formoso. Passara a seguir os vinhedos de Ciudad Rodrigo e as estepes e morros frementes de sol antes de Salamanca, até Medina del Campo e os Montes Ibéricos. Os Pirinéus na noite crescente, os lumes que eram vilas e cidades e aldeias ao longe na largura de lugares que nunca vira. E, depois dum semi-sono, as luzes junto da água, um caminho de luz e sombra e reflexos e era Bordéus e eram os armazéns para os cascos enormes para todos os lugares da Terra, para muitos sítios que jamais verá a não ser em mapas amorosamente guardados na estante grande.

Algumas ruas da cidade sob a Lua de Junho com o seu traçado antigo como nos filmes de d’Artagnan. E um café ao pé da paragem aonde a camioneta se deteve por breves instantes e dois clientes apenas na esplanada minúscula que bebiam talvez Fanta ou limonada, ou Ice Tea como numa tasca fina de Borba, mas não, concerteza não - assim lho dizia o relancear de retrato que lhes deitou - um qualquer bálsamo dos corriqueiros ou especiais, habituais dali enquanto a camioneta ia abalando até que apanhasse o dia, correndo já para os ares abertos na manhã da Grand Prairie. - NS

 

 

 

 




 



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