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:::::::::::::::::::::::::::RAY SILVEIRA

Mãos

Jamais pensei em suicídio. Quero dizer: não no significado convencional da palavra. Ao mesmo tempo, vivia pensando nisso. Vou explicar. Não quero cometer suicídio do corpo inteiro, apenas de uma parte. Digo melhor, de duas. Em outras palavras: quero suicidar minhas mãos. Já não suporto conviver com elas. Sinto mais repugnância do que do suor, da urina, das fezes, das melecas do nariz... Em suma, de tudo o quanto o corpo rejeita. As mãos estavam para mim, assim como as unhas estão para algumas pessoas. Convive-se com as unhas porque são um mal necessário. Muita gente as odeia, mas não manda extrair porque, bem ou mal, cumprem uma função. Assim eram, para mim, as mãos. Cumpriam funções, às vezes, indispensáveis. Isso, ao invés de me gratificar, me aborrecia. Como um benfeitor a quem odiamos por nos sentir constrangidos pela humilhação do favor recebido. Estava permanentemente calçado com luvas. Preferia exibir todas as outras partes do corpo do que estes miseráveis apêndices. Mesmo sabendo do mal necessário que representavam, já cogitei de mandar amputá-las. Não encontrei quem quisesse fazer. Só então, pensei em cortar eu mesmo... Por que ainda não o fiz? É simples: ao separar uma delas, não haveria mais
como decepar a outra. Ou seja, nem para isso servem, essas desgraçadas... Sentia um complexo de culpa terrível. As misérias que pratiquei na vida foram por sua causa.

Desde quando amassei fezes, até o cumprimento que sou obrigado a trocar com pessoas que me enojam. Enfim, todos os atos abomináveis que cometi foram com as mãos.

Hoje, quando mais precisava, deixaram de cumprir uma tarefa sublime. Estão enfaixadas. E em carne viva. Melhor dizendo, quase sem carne alguma. Ainda assim me decepcionaram como nunca. Se encontrasse alguém que fizesse o favor de amputá-las de vez, nem sei do que seria capaz para retribuir. Lá fora, a noite era um breu. Uma vastidão de nuvens da cor de chumbo enchia o céu e tinha o formato de torreões superpondo-se uns aos outros sob uma espécie de véu de aparência fibrosa. Eram cúmulos-nimbos. O som dos trovões sugeria uma fantasmagoria gigante urrando de dor.

Apenas o lampejo dos raios interrompia as trevas, por alguns segundos. O ar enregelado se movia transformado num vento forte que soprava sem cessar e assobiava. Os sibilos se misturando com o grasnar de bandos de corujas rasga-mortalhas. Sobre o pijama, vesti um sobretudo preto. Calcei botinas de borracha, pus uma pá sobre o ombro e saí. Não pensava: seguia os instintos. Não caminhava: movia-me como um robô. Tomei o caminho do cemitério. Meu vulto turvo se confundia com a escuridão. As botas abafavam o som das passadas. E a placidez da aguardente dissimulava os tremores do corpo e aplacava os tormentos da alma. Seguia o rumo, assim como um ébrio que jamais se perde no caminho de volta pra casa. Pois, para mim, não havia outra casa, exceto o lugar onde haviam depositado o corpo daquela com quem convivera durante quase trinta anos.

Quando Leilah foi enterrada, o lugar onde morávamos se transformou em algo tão estranho quanto intolerável. As paredes, o quarto de dormir, a cozinha parecia nunca terem existido antes. Leilah tinha sido sepultada há sete dias. Contava como certa a capacidade de fazê-la ressuscitar. Assassinei-a lentamente com ácido arsênico adicionado ao leite, em pequenas doses diárias. Tinha uma amante a quem não podia abandonar. Algum dia minha esposa haveria de saber. Então, preferi matá-la a ter de fazê-la passar por tamanho sofrimento. O muro do cemitério já fora baixo. Quando correu na vila o boato de que as sepulturas estariam sendo violadas, alguém se encarregou de elevar. Não havia, portanto, como escalar, senão com a ajuda de uma escada que não havia. Amontoei um pedregulho. Restos da obra que permaneceram nas imediações. Depois de várias tentativas frustradas, pus-me a gritar: "Leilah". E escutava de volta: "lah, lah, lah". Leilah ouvira e respondera. Portanto ainda vivia. Estou certo de que a enterraram viva. E me aguardava, sufocada, para salvá-la. Aquele som me transtornou. De repente, senti força e agilidade de uma fera ferida. Repeti várias vezes o nome da minha mulher: "Leilah!" E ela respondia sempre: "lah, lah, lah".

Terminei por galgar o muro, após um esforço sobre-humano. Só depois de pular pra dentro do cemitério me dei conta de que a pá tinha ficado do lado de fora. Ainda assim, corri para a sepultura. Agachei-me, colei o ouvido contra a terra e escutei um coração a pulsar. O coração de Leilah. Desesperado, pus-me a cavar com as mãos. Nada me detinha: As bátegas da chuva torrencial que começou a cair. A inutilidade dos primeiros esforços. Nem as dores das feridas que se abriam nas malditas mãos. Cada vez mais profundas e sangrentas. O aguaceiro, aos poucos, foi tornando a terra permeável. Enchi-me de esperança. Então, continuei cavando sem parar, com mais vigor e rapidez. Removi muita lama. Depois, senti um cheiro esquisito. Cheguei a descobrir parte do caixão que continha a minha amada. Mas as odiosas mãos fraquejaram. Apesar da dor, esfreguei uma contra a outra e escutei o ruído de ossos atritados. Foi neste instante que tudo terminou. O portão do cemitério se abriu e entraram pessoas focalizando com lanternas. Correram na minha direção. Ainda tentei reagir. Mais uma vez, as amaldiçoadas mãos não me atenderam. Sinto nojo. Quero me ver livre dessas miseráveis. Vou arrancá-las agora...

 

 




 



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