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Natércia Freire
CANÇÃO DO
VERDADEIRO ABANDONO
 
Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
 
De «Obra Poética»,
1991-1995, IN-CM, Lisboa

 

   
   

 

 

 


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