Quando, num sobressalto, o viu assomar na dobra escura do corredor, ágil e fugidio chegou a pensar se não seria apenas efeito do calor ou do aperitivo exagerado no bar da esquina, fruto da angustia de estar outra vez desempregado.
Após tantos anos, algo difícil de assimilar e, para um homem beirando os cinqüenta, desesperador. Esfregou os olhos sentindo-se traído, contudo, ali estava ele, imponente e dominador, beiços arreganhados, a cauda imensa agitada no lusco-fusco do anoitecer. A base dorsal do homem, então transformada em gelo, não o auxiliou no comando das pernas na inútil tentativa de erguer-se. Num átimo sacou da memória a rolha do tempo e lembrou-se, controlando um frêmito, de algo há muito sufocado. Olhou as próprias mãos bordadas de calos e contraiu os dedos flexíveis, outrora brancos e acetinados.
Da casa das lembranças saltaram, vívidos como polichinelos, ruídos familiares e odores longínquos. O sobrado de pedra no terreno em aclive, o carro novo luzindo na garagem, a mulher desenhada pelos seus desejos. Apertou os maxilares ao reter a imagem da esposa. A traição, a dor da descoberta, os olhares de esguelha na fábrica, as jamais desvendadas circunstâncias da morte do rival, os porres homéricos, a bancarrota. A perda definitiva, a degradação lenta, inexorável. O maldito tigre rondando os jardins. Seu longo período de desespero e de incompreensão magoada entre paredes brancas e silenciosas. O abandono.
Depois, uma falsa liberdade, um vago e nauseante cheiro de sangue precedendo a notícia de morte da mulher, a suspeita de todos ignorando por completo a dimensão da sua desgraça. Melhor esquecer.
À noite os olhos recusam o sono. Como dormir tendo consciência da presença dele no apartamento? Percorrera cada exíguo espaço, olhos de insano, munido de um cabo de vassoura e de uma cadeira. Vira num filme e numa tarde remota num circo, alguém domando feras com objetos similares.
Na manhã seguinte a lembrança do tigre nas sombras, saltou de inopino em seu cérebro, ainda atordoado. O sol, através da janela de vidros quebrados, trouxe-lhe o benefício da dúvida. Avaliou a hipótese de um sonho, as lembranças da visão esmaeciam-se com a luz diurna. Ao colocar-se de pé estremeceu, prêsa de uma espécie de torpor. Tinha o corpo dolorido e cansado, a boca sabia a vinagre. A sensação era idêntica às mesmas sentidas tantas vezes, após as encarniçadas brigas na juventude distante. Ligou o rádio de pilha, apanhou um caco de espelho de sobre a mesa - De onde saíra aquilo? Teria bebido tanto na noite anterior a ponto de quebrar coisas sem perceber ou lembrar? - Juntou os cacos, observando distraidamente as bordas manchadas com algo cor de ferrugem, deu de ombros jogando tudo no lixo e tratou de aparar a barba de dois dias no espelho do roupeiro. Ato contínuo saiu a perambular pelas ruas do bairro atrás de alguma espécie de estímulo, qualquer coisa para sacudir o torpor de quem não tem perspectiva. Urgia providenciar outro emprego.
Ao meio-dia tornou a subir as escadas gementes retornando ao apartamento de dois quartos, herança única dos tempos de opulência. Cubículo mal-cheiroso. Requentou o parco almoço numa vianda encardida, decorada com vestígios de refeições pretéritas. Ligou o rádio, puro hábito, jamais se atinha às programações, estas apenas simulavam um acompanhante, e, entre uma garfada e outra da comida gordurosa e insossa, relembra a visão da noite anterior. O animal, indubitavelmente, era um belíssimo exemplar. O pêlo, em veludo ocre, mesclado de riscas pretas, brancas e marrons quebradas, repentinamente, pela neve da barriga. Sinuoso e elegante o tigre o olhara por frações infinitas de segundos, de forma aguda e penetrante para depois afastar-se, majestoso, pelo corredor.
Por um tempo absurdamente eterno, as imagens o transportaram à infância distante. Como se seu corpo acompanhasse as lembranças, as narinas captaram o odor acre da serragem úmida, misturada a urina animal. Desejara ardentemente ser aquele tigre, o primeiro visto em sua vida.
Depois o cheiro de pipoca oferecida pelo palhaço antes do espetáculo. O desfile das bailarinas, o globo da morte, o estalar do chicote do domador, o desafio no olhar do tigre imenso, a coragem estampada nos olhos límpidos da fera, quando fixou seu olhar no seu numa espécie de reconhecimento, nunca o soube. Apertara a mão do pai durante o espetáculo, mas o breve olhar do tigre o libertara da vergonha de sentir uma espécie de desprezo não declarado em seu pai. Era miúdo, desprovido de músculos e de encantos.
Naquela noite desejara a força mortal daquela fera para vingar-se das humilhações impostas pelo irmão atlético e belo. Chegara a sonhar ter-se metamorfoseado num majestoso felino a acuar o irmão, subjugando-o a uma mixórdia de pavor e medo enquanto ele arreganhava os beiços de prazer. Mas não teve tempo de gozar as lembranças do sonho. O grito estridente da empregada dava conta do irmão, estatelado no pátio interno da casa. Despencara da janela do quarto, ao que parecia, o rosto desfigurado por estilhaços de vidro, a garganta rasgada por um profundo corte.
À simples evocação do passado, a adrenalina percorre-lhe o corpo e transforma a coluna em algo gelatinoso. Limpa a boca no canto da toalha ensebada, empurra a cadeira de assento barbudo, larga o prato de qualquer jeito dentro da pia atulhada e sai outra vez. Na urgência de esquecer o passado, não desligou o rádio. Ficasse mais um pouco e teria ouvido o comercial de pizza, com entrega a domicílio, um outro de shampoo, o da número um e a súbita interrupção do programa para anunciar o encontro do corpo mutilado de um empresário naquela madrugada, o mesmo que o despedira, e um breve relato de crimes semelhantes ocorridos havia quase vinte anos.