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ADRIANO MACEDO

A CABEÇA DAS BOTAS NEGRAS - INDEX

Na estação

        Arrisquei mais uma espiada à cabeça das botas negras. Ainda olhava para a janela, mas quando iniciou movimento em minha direção, desviei os olhos. Constatei no reflexo do vidro, do outro lado do vagão, que ela mirava para mim.  Tive a certeza de que rolara uma certa afinidade entre nós. Arquitetava a abordagem a ser feita. Retardaria minha ida ao curso para acompanhá-la onde quer que fosse. Me aproximaria tão logo saltasse. Essa, no entanto, foi a forma simplista de ensaiar as possibilidades. Já não era uma criança de oito anos, disposta a experimentações e aventuras, mas um adulto nascido em uma família tradicional, formado numa instituição jesuíta e colecionador de incontáveis abordagens frustradas, quase um tímido profissional.

         Ainda na infância, apaixonei-me pela professora de violão, que um dia prometera se casar comigo quando eu crescesse. A condição me pareceu simples. Bastava ser um aluno aplicado na música. Saiu da minha vida sem deixar vestígio. Na adolescência, contabilizei inúmeros foras nas festinhas de aniversário da escola. Durante uma viagem à Cidade da Criança, em São Bernardo do Campo, me enamorei de Fernanda, carioca que morava em Três Rios. Só nos revelamos um ao outro bem depois, por meio de cartas. Por timidez. Já era tarde, nosso relacionamento não resistiu à quarta correspondência trocada.

         Em outra viagem, de São Thomé das Letras a São Lourenço, conheci no ônibus uma branquinha de cabelos pretos ondulados e sardas no rosto, divertidíssima e bem-humorada. Com o frio cortante do Sul de Minas, nos aconchegamos instintivamente para nos aquecer. Emprestei-lhe uma blusa de frio. Trocamos beijos e carícias por algumas horas, até que minha consciência, meio esquentada, precipitou-se e falou alto. Alguém me esperava em Belo Horizonte, nada certo, ainda uma possibilidade. Mas a branquinha de cabelos pretos ondulados e sardas no rosto esfriou.  

         A jovem das botas negras no metrô de Paris me fez relembrar essas malsucedidas histórias. As bem sucedidas não entraram no palco. Claro que havia lembranças de relacionamentos com desfechos felizes, mas tímidos como eu costumam se referenciar nos fracassos para não se expor a riscos. Às vezes, tenho a sensação de que os melhores romances e as paixões mais explosivas dos tímidos são as não realizadas. Ficaram restritas à imaginação, confinadas pela atitude não tomada. 

         Voltei a olhar para o rosto das botas negras, que novamente interceptaram minhas intenções. Olhou-me fixamente. Não tirei os olhos dela. Um frio correu a espinha. Ela sorriu novamente, abaixou a cabeça e abriu a bolsa. Por instantes, pensei que retiraria dali um cartão ou um papel para anotar um número de telefone. Não me mexi, não consegui. Percebi um movimento de quem se preparava para sair. Fiquei na espreita. De súbito, tirou um pirulito de dentro da bolsa. Seria provocação ou consentimento explícito para uma abordagem? Desembrulhou o pirulito e pôs na boca. O metrô reduziu a velocidade, a estação se aproximava. Ela se levantou. Vou ou fico? Se quisesse trazer aquela mulher para o mundo real, o momento era agora. A porta do vagão se abriu, ela saiu, seguida por meia dúzia de passageiros. As botas negras seguiram o rumo ditado pela cabeça. Não consegui me mover. As portas do metrô se fecharam como se fossem cortinas após o encerramento de mais um espetáculo.

 

* Adriano Macedo. Do livro “O Retrato da Dama” (Autêntica Editora, 2008)

Adriano Macedo é jornalista e escritor, nascido em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais (Brasil). Começou na poesia, durante a convivência com os grêmios estudantis, onde participou de festivais escolares. Num deles, aos 15 anos, ficou em primeiro lugar com o poema "Sem Anos de Abolição, Sem Anos de Liberdade", em homenagem ao centenário da abolição da escravatura no Brasil (1888-1988). Mas rompeu com a poesia aos 17 anos, quando começou a militar no jornalismo ao lançar um jornal de bairro, o "Flash Local", e descobrir outra linguagem. Na imprensa, desenvolveu e implantou projetos gráficos e editoriais, além de ter trabalhado como editor da Gazeta Mercantil, de 1996 a 2002.  Desde então, está envolvido na organização e curadoria de eventos literários, entre eles o Salão do Livro de Minas Gerais e o Salão do Livro de Ipatinga. De 2004 para 2005, morou em Paris para desenvolver uma pesquisa independente no campo do jornalismo literário. Publicou seu primeiro livro em 2008, a antologia de contos «O Retrato da Dama». Tem ainda textos publicados na revista eletrônica Tanto, neste sítio e na coletânea de minicontos Pitanga.

 
 
   

 

 

 


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