MEDITANDO SOBRE O PARAÍSO
Por HELENA LANGROUVA
Doutorada pela Universidade Nova de Lisboa


O JARDIM SIMBÓLICO DO PARAÍSO (GÉNESIS)
E AS ÁRVORES DO CENTRO

Para o filósofo Lanza del Vasto (1901-1981), para nós próprios, o paraíso terrestre existe sempre e em qualquer lugar, desde que o homem saiba olhar para a beleza do mundo, desde que saiba contemplar. O paraíso, como o reino dos céus, está em toda a parte, sempre que é possível estabelecer uma ligação ou religação profunda com a beleza e o divino.

No que respeita ao jardim do paraíso, no Génesis, Lanza del Vasto observa que se trata de um jardim simbólico. As árvores pertencem também à categoria das árvores simbólicas, das quais assumem maior relevância as que se encontram precisamente no centro secreto do jardim ou no centro do jardim secreto: a Árvore da Vida e a Árvore da Conhecimento do Bem e do Mal.

Começando pela Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, trata-se de uma árvore de conhecimento, identificada como árvore da contemplação, segundo Teófilo de Antioquia. Era apenas para ser olhada e não tocada por Adão. Por outro lado, é a árvore que tem o conhecimento da mistura do bem e da sua ausência, o mal. O fruto, fructus é o que se pode fruir, o gozo, o proveito– de fruor, fruir. Comer o fruto da árvore do conhecimento é incorporar e destruir o conhecimento, tirar proveito dele, não para os olhos, a inteligência ou o coração, mas para o ventre, gozar da destruição do conhecimento. Nas palavras de Lanza del Vasto, em tradução nossa ( La Montée des Âmes Vivantes, 245), vemos como comenta o uso do conhecimento, comendo o fruto dessa árvore:

Eis como o homem atinge o Conhecimento plantado no meio dele, o Conhecimento que é árvore e vida, a sua própria vida espiritual.

O Conhecimento era a sua razão de ser e a sua essência porque o Criador tinha dito: Façamos o homem à nossa imagem e de tal modo que a sua inteligência seja um espelho ou um reflexo da nossa luz e da nossa glória.

Ora a luz reina nas alturas, irradia e expande-se. Para ela, ser e dar-se ao infinito são a mesma coisa, ou seja conhecer e amar são a mesma coisa, a mesma alegria.

Mas a partir da queda, a inteligência de Adão vai perder a liberdade celeste: ele vai servir-se dela, escravizá-la e ao mesmo tempo escravizar-se a si próprio.

A inteligência vai tornar-se astúcia, cálculo, espírito de lucro.

Vai tornar-se armadilha, fraude, combinação. Manha. Como a da serpente.

Consideramos esta meditação particularmente pertinente para a reflexão sobre a perversão da uso da inteligência e do conhecimento em função da procura de lucro e de poder. Neste sentido, Lanza del Vasto considera que o pecado de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é a procura de lucro e de poder. Na sua interpretação, considera que esse é o pecado original porque dá origem a todos os outros pecados.

Na obra citada La Montée des Âmes Vivantes. Commentaire de la Genèse, Lanza del Vasto fez uma síntese de várias interpretações do chamado pecado de desmedida de Adão que, na sua resposta a Deus, transfere o acto de comer para a companheira Eva que por sua vez o transfere para a serpente que a desafiou, garantindo que Eva não morreria se dele comesse. Essas interpretações convergem nas ideias de desobediência, crime de lesa-majestade, o pecado da carne, a sordidez de nascer, a concupiscência, a precipitação, o orgulho, a soma dos pecados. Lanza del Vasto convida à meditação sobre a consciência humana, para ver o que é cada ser humano é capaz de fabricar com a sua mente ávida de lucro e de poder. Convida à meditação sobre as árvores que são simbólicas, inseridas no Génesis, livro simbólico por excelência.

Acrescentamos que o que importa ver é, na meditação profunda sobre a própria árvore, a noção de conhecimento, de contemplação, de fruição, de procura de lucro e de poder, a procura de ser igual a Deus e saber tudo. Acrescentamos a atracção por ultrapassar os limites e não aceitar que no centro do jardim do paraíso, como no centro da alma humana, tem de haver sempre espaço para a noção de limite. É a aceitação dos limites que acompanha a aceitação da própria condição humana. O castigo para a serpente, a mulher, a expulsão do paraíso sucede em resposta à transgressão de limites e à procura de lucro e de poder, pelo conhecimento.

Em nosso atender, a não aceitação da inteligência puramente contemplativa como a dádiva de liberdade maior de Deus ao homem obriga o homem a desenvolver exclusivamente a curiosidade, a inteligência especulativa que se pode multiplicar quase ao infinito, pode ficar não raro sujeita a desencadear manipulações, conflitos, guerras, e outras atrocidades, sem também não raro se perder da procura de lucro e de poder, a todos os níveis. Eis um grande desafio para a nossa meditação: como usar a inteligência e por que razão recusamos a inteligência contemplativa, por que recusamos apenas olhar para a árvore da Ciência do Bem e do Mal, a árvore que é apenas para ser contemplada, como um espaço inviolável a não ser invadido pela rapacidade humana, pelo desejo de tudo saber e tudo manipular para seu proveito e seu poder.

Numa antologia que seleccionámos e traduzimos – Lanza Del Vasto, Não-Violência e Civilização - Antologia (Lisboa, Edições Brotéria, 1978, pp. 39-42), publicámos a tradução da meditação de Lanza del Vasto, extraída da mesma obra atrás referida – La Montée des Âmes Vivantes - sobre a Árvore da Ciência ou do Conhecimento do Bem e do Mal -, sobre a interpretação do pecado original que dá origem a todos os outros pecados. Traduzimos ainda (ibidem, pp. 42-48) uma interessante meditação de Lanza del Vasto sobre o que designa como “os progressos da Ciência do Bem e do Mal” - que é a procura de lucro e de poder- ao longo dos séculos: desde a caça, à guerra, à escravatura, à exploração, à riqueza, à miséria, à venda de si próprio e de outrem, ao constrangimento da lei e às atrocidades da justiça; ao poder e direito ao homicídio; à bomba atómica - que Lanza del Vasto identifica com o que chama “ a desintegração lógica”, no século XX- ; ao último progresso: a ignorância. Ou seja, o que verdadeiramente tem progredido é a conhecimento que causa divisão, separação, que acaba por dividir os homens, escravizá-los, levá-los à morte e à maior infelicidade que é a ignorância que está na raiz de grande maioria de males.

Parece de grande actualidade este aviso. Porque o saber diabólico, é aquele que separa – diabolos significa aquele que divide. Porque o homem se afastou do seu próprio centro, da sua árvore, que como a Árvore da Vida, lhe trazia um paraíso de ligação, religação, harmonia interior consigo próprio, com a terra e o céu . Segundo Lanza del Vasto, o homem ao perpetrar o pecado original da procura de lucro e de poder desde as origens até à época actual, tem vindo a construir quatro flagelos: a miséria, a servidão, a guerra e a sedição (vide Não-Violência e Civilização, cit., pp. 48-49) que são objecto de aprofundada reflexão, na sua obra Les Quatre Fléaux (Paris, Denoel, 1959).

 

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Última Actualização:
09-Aug-2006


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