A “FLORA PORTUGUESA” DE GONÇALO SAMPAIO,
CASO EXEMPLAR DE SUBVERSÃO
Maria Estela Guedes

INDEX

1. Epígrafe
2
. Introdução ao problema
3. A epígrafe de Pires de Lima
4. Tipos de subversão e instituições subvertidas
5. Conclusões
6. Bibliografia

ANEXOS
(apenas para versão online)

IMAGENS DA "FLORA PORTUGUESA"
Frontispício da 2ª edição
Página 263
Primeira página do índice "Nomes populares das plantas"
Primeira página do "Índice dos nomes latinos"
Primeira página da errata

 Britiande, Primavera de 2006
José Augusto Mourão, meu caro amigo –

2. Introdução ao problema

Pois o problema, Zé Augusto, é de ortografia: um livro académico redigido parcialmente com escrita híbrida, ou latim macarrónico. Tal como o inglês, o latim não usa acentos gráficos. Na “Flora Portuguesa”, de Gonçalo Sampaio, grande número de palavras em latim têm acento.

O problema não é isolado. Trata-se de um entre vários mecanismos que constituem o código clandestino que tenho vindo a detectar na literatura da História Natural - e noutros textos, caso da fábula de S. Frei Gil, que o Zé Augusto conhece. Esses problemas já foram sistematizados no artigo assinado com o Nuno, em que criamos um método para detectar textos com código secreto, “O gaio método”. É um código parasitário, porque não tem signos próprios, usa os das Ciências Naturais. Simplesmente, aparecem desfocados, sob a forma de incorrecções, que ultrapassam a margem de erro admissível. Por isso, e pelo facto de estarmos a lidar com obras colectivas, ou com um anfiteatro de leitores que usam as mesmas tácticas, e lhes respondem, assumem por vezes o carácter de paródias.

Os erros são aos milhares, mas distribuem-se por poucas categorias. Detectei até agora erros de geografia, de biologia das espécies, de biografia dos autores, de nomenclatura, e de ortografia da nomenclatura latina. A par dos erros aparece outro tipo de informações a pedir interpretação, por causar perplexidade. É o caso da irrupção da simbólica, por vezes maçónica. Em Gonçalo Sampaio não a detectei, mas devo dizer que só conheço a “Flora Portuguesa” de a consultar em bibliotecas. Por isso, quando tiver de entrar em análise de texto miúdo, recorrerei a exemplos das suas “Novas adições e correcções à Flora Portuguesa”. É um artigo de 35 páginas, mais acessível e manuseável, que patenteia o mesmo código subversivo da “Flora Portuguesa”.

No caso da “Flora Portuguesa” de Gonçalo Sampaio, e peço-lhe que olhe para a bibliografia, temos em mãos um catálogo de plantas, com quase oitocentas páginas, cuja primeira edição, em fascículos, se iniciou em 1909, sob o título de "Manual da Flora Portuguesa". Desta, o autor é responsável. Na segunda edição, de 1947, dirigida por um discípulo de Gonçalo Sampaio, Américo Pires de Lima, compilaram-se os fascículos anteriores, acrescentaram-se textos de Gonçalo Sampaio, e dois índices, estes da responsabilidade dos editores.

Como disse, o problema da “Flora Portuguesa” está em usar sistematicamente uma das categorias de erro que o Nuno e eu apresentamos n’”O gaio método”: é o latim macarrónico, manifesto na aposição de acentos gráficos nos nomes científicos das plantas.

Como se lê na epígrafe, Américo Pires de Lima conservou a ortografia macarrónica na segunda edição, de 1946. O Instituto Nacional de Investigação Científica fez duas edições facsimiladas desta, em 1988 e em 1990, perpetuando assim o latim macarrónico, ou escrita híbrida, até aos nossos dias. As duas edições do INIC, com capa dura azul-bebé, são iguais, ambas têm ficha técnica no princípio. Porém a 3ª repete, no fim, em página própria, “Impressão e acabamento na Imprensa Portuguesa. Rua Formosa, 108-116. 4000 Porto”. Esta dupla informação sobre caracteres – a imprensa lida com tipos e caracteres, tal como a Hereditariedade, ciência que estuda o modo como, por exemplo, na descendência de macho e fêmea seleccionados em uma ou duas “espécies”, os caracteres dos dois tipos se mantêm, alteram, sofrem aberrações -, essa dupla informação sobre caracteres, repito, faz com que exista ligeira diferença entre as duas edições, uma com 794 e outra com 792 páginas. Note, Zé Augusto, que uma folha, só para repetir aquela informação, é algo relevante no código: alerta para a existência de duplos e garante que o tipo sofreu variação nos caracteres.

Temos assim quase oitocentas páginas de nomes de plantas. Pondo que sejam dez por página, ficamos com uns oito mil nomes. Porém, como em geral o nome científico é um binómio, a quantidade de palavras em latim que gemem sob o peso dos acentos gráficos ascende a dezasseis mil. Recuo aos oito mil pois nem todas são acentuadas e há outro tipo de excepções. Ora uma obra académica, patrocinada pelas mais altas instâncias científicas de um país, cuja errância ortográfica se perpetua em edições facsimiladas, para que se não perca a memória da alteração dos caracteres, merece o nosso estudo. É o que me proponho fazer nas páginas seguintes.

 

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