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A PEDRA DE COBRE
A CIÊNCIA E OS SEUS OBJECTOS
Algumas questões suscitadas por um bloco de cobre
que pertence à História da Ciência portuguesa
Isabel Serra
 
1. INTRODUÇÃO 

Em 1782 foi descoberto no Brasil, freguesia da Cachoeira, Estado da Bahia, um bloco de cobre nativo (97% de cobre), o maior que se conhece em toda a Europa, ( 1200 Kg). Esse bloco é, actualmente, pertença do Museu de História Natural. Mas os dados antigos sobre o Bloco são contraditórios, em particular àcerca da origem (local e data) e também do seu peso.

Tendo em vista o esclarecimento dos factos que levaram à ocultação da verdadeira origem do Bloco e à efabulação àcerca das suas características, Estela Guedes toma várias iniciativas, entre as quais, interrogar os cientistas sobre o modo de conhecer o valor exacto do seu peso e a sua verdadeira composição.

A minha comunicação a este colóquio resultou desse equívoco, sobre as minhas possibilidades de esclarecer o mistério. Sentido-me incapaz de dar respostas científicas àcerca da origem e características do Bloco, resolvi considerá-lo não como um objecto das ciências físico-químicas, mas antes pertencendo à história das ciências em Portugal. Para legitimar esta minha posição tentarei responder à questão: é o Bloco de Cobre um objecto científico? (das ciências físico-químicas).

A própria Estela Guedes reconhece que o Bloco é um objecto complexo: "No caso do bloco de cobre é necessário saber que ele centra o debate em torno da inseparabilidade NaturaCultura: sendo o paradigma das Ciências o natural e o das Letras o humano ou cultural, de que meios dispõe cada um deles para à partida identificar o seu objecto de conhecimento como natura ou cultura?" 

"As ciências naturais lidam com o mundo como se tudo nele fosse natural, sem à partida distinguirem o natural do artificial" (Estela Guedes, Evoé, 1998). 

Ao articular a minha resposta senti que seria necessário fazer algumas digressões. A primeira foi o objecto do segundo parágrafo, em que distingo entre objectos científicos actuais e do século XVIII. Isso levou-me inevitavelmente a discutir a questão do domínio da natureza pela ciência e a relação desse domínio com os objectos científicos. Esse será o objectivo dos parágrafos três e quatro. No parágrafo cinco discutir-se-á, para concluir a falsificação de resultados científicos para regressar ao Bloco de Cobre e à questão que motivou este texto, a do esclarecimento da verdade.

 
 
Discursos e Práticas Alquímicas. Volume II (2002) - Org. de José Manuel Anes, Maria Estela Guedes & Nuno Marques Peiriço. Hugin Editores, Lisboa, 330 pp. Online no TriploV.
 

 




 



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