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A FILOSOFIA POÉTICA DE ANTÓNIO TELMO
António Cândido Franco
1.
No seu primeiro livro, Arte Poética (1963), livro reconhecidamente dedicado a Álvaro Ribeiro, deparamos com o propósito duplo de elevar a poesia ao pensamento e de fazer descer, da esfera raciocinante, a filosofia ao sensível. Se o pensamento actua pela palavra, a palavra serve de veículo ao pensamento. Esta dupla intenção, servindo de esteio às três partes do livro, é reconhecível à luz duma tradição anterior, que vai de Guerra Junqueiro a Teixeira de Pascoaes, que se distingue pelo seu pensamento dramático e a sua seriedade trágica.

A poesia, diz António Telmo, vive duma sobrecarga imaginativa fora do vulgar, que lhe permite visionar os universos ínferos e recônditos, onde volitam as almas e os demónios, seres invisíveis aos olhos do corpo, mas esse premeditado excesso de devaneio, esse jogo exaltado da imaginação, esse esforço em direcção do invisível, só ganha utilidade e significado a partir do momento em que não perde de vista as interrogações essenciais do pensamento.

A poética de António Telmo raspa o verniz estético da poesia como entretenimento e deixa de lado, para sempre, a crosta sociológica duma poesia entendida como indústria cultural.

O esforço de António Telmo põe assim a descoberto as intenções da poesia clássica, quer através dos trágicos gregos, quer dos épicos latinos. O que aí encontramos, em estado puro, é um gosto cósmico e abissal, um sentido da mobilidade do mundo e das suas formas, uma dramatização relativizadora da verdade, que só adquire o seu alcance na ideia de metamorfose interior transfiguradora.

Fica de lado, nesta poética, a concepção do poema como forma visível ostensiva, capaz de receber qualquer conteúdo. Nada mais enganador que confundir a arte poética de António Telmo com um manual métrico ou um tratado técnico de versificação. Não são as ideias de ordem e organização que dominam a sua poética, mas antes o teor imaginativo e o impulso criador, se por criação entendermos a substantivação na linguagem verbal do espírito incriado. Só esta substantivação, em visões consecutivas ou em sucessivas emergências, é digna do entusiasmo da poesia, mostrando assim que o poema não é uma questão de revestimento formal, uma casca técnica, mas o miolo verbal duma revelação formal.

Esta poética propõe-nos, por isso, friamente, no seguimento das cosmogonias antigas, descer ao encontro dos subterrâneos crípticos e escuros, onde se situam os mundos invisíveis, ocultos pela opacidade da superfície linear e positiva, num propósito que parece ter alguma correspondência com as intenções freudianas de indagação das dobras secretas da alma ou com os intentos rimbaldianos do videntismo surrealista, mas que desvela, outrossim, pela preocupação do regresso, uma filiação clássica dionisíaca, de sondagem das ínferas camadas dos mortos ou das sombras, naquilo que são as catábases do mundo antigo e dos seus mistérios.

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Discursos e Práticas Alquímicas. Volume II (2002) - Org. de José Manuel Anes, Maria Estela Guedes & Nuno Marques Peiriço. Hugin Editores, Lisboa, 330 pp. Online no TriploV.
 

 




 



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