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JOSÉ CASQUILHO
O Sancy:
mais de cinco séculos de história (fim)

Um índice de poder
 

Resumindo esta longa história, o melhor quadro mental em que nos podemos situar é o da teoria dos sistemas dinâmicos e em particular a Teoria das Catástrofes de René Thom (1) e também a Teoria do Caos: o Sancy é um objecto de valor que percorre uma trajectória muito longa, conhecida em mais de cinco séculos. Sendo objecto de desejo e índice de poder, a posse do diamante está sujeita a relações de forças (militares, financeiras) e constata-se que permanece num sítio tanto mais tempo quanto esse atractor é forte e estável; em regra, às tantas, acontece uma catástrofe para o poder detentor que se traduz numa dissipação de forças e o Sancy transita para um novo poder, mais forte e mais estável no contexto ou na vizinhança, e assim sucessivamente.

É assim que desde a Índia, de onde terá vindo, acaba por ser a ilusão de Carlos o Temerário, que o usava como símbolo de invencibilidade (2). Daquele que é considerado por alguns o último representante do espírito feudal, transita para o rei de Portugal, o Venturoso, símbolo da modernidade. E aí permanece quase um século, ao longo da dinastia de Aviz, um atractor poderoso no seu tempo.

Até que sobrevém a catástrofe de Alcácer Quibir, o abismo para onde um jovem e ambicioso rei, aclamado aos três anos, coroado aos catorze - o Desejado, e fermoso , fruto de sucessivos casamentos entre primos-irmãos Aviz-Habsburgo - arrasta o país. Enquanto enfrenta um inimigo estimado na proporção de 20 para 1, o rei de olhos azuis e boca de boneca chinesa, avançou obstinado e lutou até ao fim: ficou-lhe atribuído o dito "morrer sim, mas devagar". O Sancy era então o diamante com as armas do rei de Portugal. Portugal perde a independência durante 60 anos. O Sancy sai do país.

Após um périplo rápido pela França, entre as mãos do último dos Valois e o primeiro dos Bourbons - um atractor instável durante as prolongadas guerras religiosas - o Sancy muda de mãos para a coroa inglesa, para o sucessor de Isabel I, que se tinha declarado casada com Inglaterra - a rainha, a última dos Tudor, morre sem descendência. O diamante aí permanece durante 40 anos e participou no Espelho da Grã-Bretanha, o sonho dos Stuart, o tempo que demorou, mais coisa menos coisa, a derrocada desse poder, que culminou na guerra civil e na decapitação do rei Carlos I - entretanto acontecera a Petição de Direitos. O diamante abandona aquelas terras.

E entra em França por volta de 1645, primeiro para um duque e depois para as mãos do poderoso Mazarino e dele para Luís XIV, o rei-sol: l'Etat c'est moi. Por lá permanece a encimar a coroa dos Bourbons durante o triunfo do Barroco e das Luzes. Até que, século e meio depois da chegada, na ressaca da Revolução Francesa, muda novamente de mãos, para os primos, os Bourbons de Espanha, através de Godoy, onde permanece pouco tempo: cerca de 3 décadas.

Passa transientemente por um príncipe russo, pelos joalheiros Bapst, por um mercador Hindú e pelo Maharaja de Patiala - regressa à terra de origem durante umas décadas, agora sob a égide dos circuitos do império britânico. E, na senda do império anglófono, permanecerá mais de setenta anos, nas mãos dos milionários americanos naturalizados britânicos e feitos viscondes de Astor.

Na última etapa, o Sancy deixa de ser um bem privado e passa a ser um bem público da França, que se revela o actual atractor, e o ponto de partida da história conhecida aqui narrada. Afinal, recorde-se que a primeira notícia que temos vinha do ducado de Borgonha.

As dimensões reais do diamante são de cerca de 26 mm de comprimento por 21 mm de largura e 14 mm de espessura.

No entanto, com alguma imaginação, ainda podemos ver indícios dos traços maiores do escudo de Portugal: o pentágono central é o remanescente da marca das quinas.

Agradecimentos

À Paula Azevedo, minha companheira de investigação e debate nesta última fase, e que descobriu a carta de Sebastiani Pardin. Ao Sérgio Campos Matos, meu amigo de sempre, pelas valiosas críticas e sugestões.

 

•  Arbeteta, Leticia. La Joyería Española - de Felipe II a Alphonso XIII. Editorial Nerea, Madrid, 1998.

•  Balfour, Ian - Christie. Famous Diamonds. Manson & Woods Ltd, Lon don, 2000.

•  Bari, Hubert e Sautter, Violaine. Diamants. Societé Adam Biro, Paris, 2001.

•  Bharadwaf, Monisha. Great Diamonds of India . India Book House Pvt Ltd, Munbai, 2002.

•  Copeland, Lawrence L. Diamonds... Famous, Notable and Unique. Gemological Institute of America , 1974.

•  Dickinson, Joan Y. The Book of Diamonds. Dover Publications Inc., New York , 1965.

•  Guedes, Rui. Joalharia Portuguesa - Portuguese Jewellery (textos: N. Vassallo e Silva). Bertrand Editora, Lisboa, 1995.

•  Heiniger, Ernst A. e Heineger, J.. Le Grand Livre des Bijoux. Diffusion Lazarus, Paris, 1974.

•  Júnior, J. Rosas. Catálogo das Jóias e Pratas da Coroa. Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, 1954.

•  Kendall, Leo P. Diamonds: Famous and Fatal. Barricade Books Inc, Fort Lee, 2001.

•  Morel, Bernard. The French Crown Jewels. Fonds Mercator, Antwerp , 1988.

•  Serrão, J. Veríssimo. O reinado de D. António Prior do Crato, vol. 1:1580-1582 (dissertação de doutoramento). Coimbra, 1956.

 
Notas

(1)Thom, R. Modèles Mathématiques de la Morphogenèse. Christian Bourgois Éditeurs, Paris, 1980.

(2) "diamante" vem do termo grego adamas, que significa invencível.

   
   

 

 

 


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