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JOSÉ CASQUILHO::::......::::

Paisagem, retórica e valores:
a insídia do xisto no Vale do Côa

Introdução

 

Na Geografia, paisagem define-se como o conceito usado para descrever o aspecto global de uma área [1], sendo a paisagem cultural produzida pela ocupação humana onde o ambiente físico fornece o habitat e a cultura é o agente que condiciona a sua modificação. Carl Troll [2] em 1939 introduzia a ciência da Ecologia da Paisagem tendo por objecto uma extensão espacial, com um raio de quilómetros, com três dimensões analíticas: geográfica, ecológica e cultural, integradas corologicamente num complexo de ecótopos [3].

Tomando como objecto a paisagem geográfica há autores que procuram equacionar como o imaginário da natureza é descodificado em valores simbólicos economicamente materializados [4], considerando que as paisagens são os modos mais eloquentes de compor e decompor imagens através do discurso científico culturalmente centrado. 

 

O caso das gravuras de Foz Côa [5] é exemplar de um confronto de valores na paisagem: a descoberta de inscrições no xisto que fornecem uma cronologia muito vasta, com núcleos fortes em gravuras paleolíticas e da Idade do Ferro, levou a que o valor da conservação da memória e da origem se sobrepusesse ao da geração de energia na barragem e investimentos associados - anulou-se a obra e indemnizou-se em muitos milhões de euros.

 

De alguma maneira se julgou que a conservação do legado gráfico reportado há cerca de 25000 anos atrás, em sulcos zoomórficos e outros inscritos em placas de xisto, valia mais do que os investimentos previstos para a região. Tratou-se de uma decisão política movida por uma elite cultural que se inscreveu como um sentimento dominante e vingou.

 

Mais: as gravuras não foram retiradas para outro local para viabilizar a obra mas sim conservadas no sítio, nos locais, na sua paisagem de inserção, o que se pode interpretar como uma forma de apropriação de território [6], onde o monumento é o próprio vale. A paisagem do Vale do Côa tornou-se assim um objecto de valor propriamente dito com grande profundidade histórica, grande magnitude se utilizarmos um atributo vectorial. Trata-se afinal do maior espaço aberto de arte paleolítica conhecido até hoje [7], e actualmente denominado como parque, a que corresponde uma figura jurídica de ordenamento do território.

 

Valores

 

O conceito de valor tem várias conotações, denotando facetas distintas de objectos em diferentes áreas de estudo. Pesquisando o denominador comum tem-se que originalmente o termo de origem latina ‘valor’ aplicava-se ao valor de um guerreiro, associado à sua coragem e valia na defesa ou expansão do território. Está relacionado com o termo virtus, raiz de virtude, equiparada a força, tendo radical em vir, também usado na acepção plural de ‘forças’, vires, a que se associa o termo virens gerador etimológico da palavra ‘verde’.

 

Em Química a valência de um átomo define-se como o número de ligações que pode estabelecer com outros através da partilha de electrões da última camada, as chamadas ligações covalentes.  

 

Fontanille e Zilberberg utilizam o conceito de estrutura tensiva [8] para falar de valor: referem-se à valência como o valor do valor e invocam a analogia química colocando o valor de um objecto como sendo expresso num confronto entre intensidade e extensão, ou valores de absoluto e de universo, respectivamente associados a eixos ou gradientes num diagrama cartesiano no plano; a representação mais frequente ocorre como uma figura que se pode interpretar como um ramo de hipérbole e a aplicação deste esquema ao problema de equacionar o valor da paisagem foi esboçada no confronto entre estrutura tensiva e módulo [9].

 

De maneira mais concreta podemos pensar que uma valência é expressa num eixo ordenado, e várias valências em vários eixos que formam um espaço. O valor de um objecto é então representado como um vector nesse espaço, ligando um ponto à origem.

 

O modelo de valor associado a esta interpretação por via da geometria analítica comporta assim pelo menos duas componentes, ou coordenadas, necessárias para localizar um ponto no plano: (x,y). Ou ainda se poderá propor a sua representação por um número complexo z=x+iy ou (x,iy), candidato a descrever com maior nitidez a existência de duas dimensões à partida incomensuráveis: valor físico real e valor simbólico representado no eixo imaginário. A existência de isomorfismos entre o plano real e o plano complexo permite confrontar esses dois espaços na demanda de significados recíprocos. Pode-se dizer que um valor simbólico expresso no eixo imaginário proveio de uma injunção do real, uma marca física, conjuntos de significantes, e a ele regressa, ou pode regressar, por via do significado, feita uma incursão num espaço imaginário - histórico ou mitológico - de uma dada cultura.

 

Informação

 

A representação de valores por números, em particular números reais, tem uma história longa [10] que se prolonga até hoje e que foi consagrada a partir da dicotomia de valor de uso e de valor de troca, na Economia.

 

Essa dicotomia foi posteriormente transposta para a Linguística por Saussure onde a propósito de valor linguístico ficou estabelecida o par significante/significado [11], o primeiro relativo ao suporte físico do signo e o segundo de ordem cultural, ou mental. Que não há significado sem significante é um mote corrente, e portanto existirá um suporte, um corpo, mesmo que seja uma massa de ar em vibração para produzir som, ou um plasma tocado por electrões, de que emanará o significado, que no entanto só se faz presente, actualizado, numa cultura, o mais das vezes mediante um código, que até pode ser um código privado, um ideolecto.

 

Só o significante não chega para compreender o significado: foi necessário o código expresso na Pedra da Roseta para os ocidentais conseguirem entender o significado dos hieroglifos egípcios. O significado é tido como um incorporal desde os Estóicos [12]. Esta dicotomia físico/mental parece irredutível, apesar das remissões múltiplas em vários níveis entre os dois campos.

 

Que a informação é física é um enunciado reclamado com grande latitude [13], embora Eco nos recorde que esse aspecto refere-se apenas à informação na fonte, quantificável, e não à informação onomasiológica e semiosológica que se estabelece entre significado e significante, ou entre símbolo e significado. O conceito de funções de informação [14] - proposta a partir das funções de onda da mecânica quântica - é interessante porque consistindo em modelos de probabilidades tem ainda a particularidade de que ao observar-se o objecto mudar o valor que lhe está associado; dir-se-ia que aconteceu algo assim no Vale do Côa.

 

Em geral, na apreciação probabilística, ou frequencista, dos acontecimentos ou estados de um sistema, considera-se que quanto menos uma situação é provável, ou mais rareia, mais ela é intrinsecamente significativa [15], e maior é o seu valor de informação. A informação deve ser entendida sob formas gerais e variadas [16], e não existe uma medida absoluta de informação, ou de valor de informação, mas antes várias, válidas consoante diferentes fins e contextos.

 

Linguagem

 

A linguagem da paisagem comporta uma multiplicidade de discursos consoante a valorização preferencial de um ou outro campo, mas em qualquer caso há quase sempre uma representação icónica subjacente ou associada, e uma linguagem icónica para remeter ao objecto, na descrição da sua composição e de nexos de contiguidade e de correlação ou de causalidade; seja por exemplo o modelo de composição matricial da paisagem de Forman [17] cujos elementos são, para além da matriz, se existente, o conjunto das linhas, manchas e pontos, apelando a uma representação topológica planar do objecto, cartográfica.

 

Umberto Eco [18] analisa linguagens icónicas de dupla articulação - fazendo um paralelo com a linguagem verbal onde a palavra articula-se com o nível inferior da sílaba, ou fonema, e com o nível superior da proposição, ou sintagma, onde adquire sentido num código gramatical; no caso, o signo icónico possui propriedades visíveis do objecto, ontológicas e convencionadas. Num tal paralelo gera-se um código de que o gráfico é o exemplo, reproduzindo propriedades relacionais de um esquema mental. Designa-se por semas os signos icónicos que se articulam num nível inferior em figuras e num nível superior em esquemas, integrados num código; os signos só denotam inseridos no contexto de um sema e o sema icónico é um idiolecto. Também as gravuras assim podem ser perspectivadas.

 

Uma representação planar de um mosaico de paisagem pode ver-se como um sema icónico. Uma paisagem ainda pode ser entendida como um superícone, definindo-se esse termo [19] como um objecto dotado de uma multiplicidade icónica de atributos.

 

Numa representação plana de uma paisagem as manchas de habitats e outros elementos da paisagem são figuras que ainda se podem decompor em unidades nucleares; essas unidades já não têm de ser de ordem prioritariamente icónica, antes focando-se no plano semântico de alguma das valências associada ao objecto paisagem; por exemplo, uma determinada unidade de habitat, seja um hectare de matagal numa dada região (correspondente à imagem de um quadrado homogéneo de pixeis numa representação digital), tem valores de riqueza ecológica medida pelo número de espécies do sítio - tem pois valores característicos nesta ou noutra dimensão.

 

A linguagem da paisagem como objecto geográfico expressa-se em valências: económica, ecológica, histórica e estética. A estas valências poder-se-ia associar dois eixos: o eixo de valores reais relativos ao território, centrado nos atributos mensuráveis do subconjunto {ecológico, económico}, e o eixo de valores simbólicos, relativo ao subconjunto de atributos que se expressam nas outras valências, incluindo no campo histórico o legado mitológico.

 

 

Neste contexto o discurso matemático sobre a paisagem será entendido como uma construção multissemiótica, utilizando os termos de O’Halloran [20], agregando linguagem, simbolismo e imagens visuais. ‘Imaginário’ não tem aqui qualquer conotação de irrealista, trata-se da designação utilizada desde Descartes e depois difundida por Euler relativa aos números complexos. Riemann preferiria que tivesse sido substituída por números ‘laterais’ - uma idéia que subsistia desde que o abade Buée tinha defendido que a unidade imaginária era o signo da perpendicularidade [21], dos números ‘verticais’.

Sobre a paisagem como objecto de decisão económica e política incidem duas retóricas principais: a retórica da conservação dos recursos, naturais e culturais, onde se valoriza mais o que existe do que a sua alteração; e a retórica da produção onde normalmente se propõe o caminho inverso: altera-se o que está em nome de um bem considerado maior para o progresso da região.

Conclusão

 

Uma paisagem consiste num conjunto de valores ordenados numa visão [22], e constitui um objecto culturalmente sedimentado tendo a função de garantir os quadros de percepção do tempo e do espaço.

Discutir e situar a paisagem como objecto de valor, a partir dos semas - ou enunciados verbais e icónicos com que é caracterizada nos discursos ou retóricas - é um tema de investigação. A paisagem como signo comporta uma sintaxe, uma semântica, e ainda convoca ums dimensão pragmática, utilizando as três acepções derivadas da propriedade tricotómica do signo que Morris desenvolveu. A semiose é a acção do signo. Uma paisagem como signo opera assim uma injunção sobre os actores, sociais, políticos, e outros, onde se impõe o interpretante, que Peirce estabeleceu ccomo sendo uma propriedade geral do signo que se manifesta objectivamente.

O valor simbólico do território do Vale do Côa, integrando a dimensão do tempo e da História mas também a da Ecologia, numa paisagem geográfica e cultural, fez valer a retórica da conservação do legado da memória - incluindo a musealização -, integrada num território ora designado sob a figura de parque.

As gravuras foram a marca, a cicatriz da memória, o significante, de um vasto mergulho no tempo, a cuja magnitude se associa um grande valor. No caso, poder-se-ia falar da insídia milenar - ou da sedução – do xisto.

Referências

[1] John Small e Michael Withrick. 1986. Dicionário de Geografia. Publicações D. Quixote, Lisboa, 1992.

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Troll

[3] Isaak S. Zonneveld. 1990. Scope and Concepts of Landscape Ecology as an Emerging Science. Changing Landscapes: an Ecological Perspective, (eds: I. S. Zonneveld e R. T. T. Forman), pag 3-20, Springer-Verlag, New York.

[4] Caio Augusto Maciel. 2000. Morfologia da Paisagem e Imaginário Geográfico: uma encruzilhada onto-gnoseológica http://www.uff.br/geographia/rev_06/caio6.pdf

[5] http://www.ipa.min-cultura.pt/coa/

[6] Sandra Xavier. «O Monumento é o Vale»: a Retórica da Paisagem da Paisagem no Parque Arqueológico do Coa. Etnográfica vol. IV(1), 2000, pag. 109-128. http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol_04/N1/Vol_iv_N1_109-128.pdf

[7] João Zilhão. 1998. The rock art of the Côa valley, Portugal. Conservation and Management of Archeological Sites (1998) vol. 2:193-206.

http://www.ipa.min-cultura.pt/coa/sh__research_articles__folder/Zilhao98.pdf

[8] Jacques Fontanille e Claude Zilberberg. 1998. Tensão e Significação. Discurso Editorial, São Paulo, 2001.

[9] José Casquilho. 2008. Sobre o valor da paisagem.

http://br.monografias.com/trabalhos913/sobre-valor-paisagem/sobre-valor-paisagem.shtml

[10] José Casquilho. 2009. Dos números: entre signo e valor.

http://www.triplov.com/casquilho/2009/Numeros/index.html

[11] Ferdinand de Saussure. 1916 (1971). Curso de Linguística Geral. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999.

[12] José  A.  Mourão e Maria A.  Babo. 2007.  Semiótica – Genealogias e Cartografias. MinervaCoimbra,  Coimbra.

[13] Dénes Petz. 2008. Quantum Information Theory and Quantum Statistics. Springer-Verlag.

[14] Philipp Kornreich. 2008. Mathematical Models of Information and Stochastic Systems. CRC Press, Boca Raton.

[15] Jean Petitot. 2004. Morphologie et Esthétique. Maisonneuve et Larose, Paris

[16] Jean Paul Delahaye. 1994. Information, complexité et hazard. Hermès, Paris.

[17] R T T Forman. 1995. Land Mosaics: The Ecology of Landscapes and Regions. Cambridge University Press, Cambridge.

[18] Umberto Eco (1968). 2001. A Estrutura Ausente. Editora Perspectiva, S. A., São Paulo, 2007.

[19] Elizabeth Walter-Bense. 2000. Teoria Geral dos Signos. Editora Perspectiva, São Paulo.

[20] Kay L. O’Halloran. (2005) 2008. Mathematical Discourse. Continuum, London.

[21] Paul J. Nahin. (1998) 2007. An Imaginary Tale. Princeton University Press, Princeton.

[22] Anne Cauquellin. 2004. A Invenção da Paisagem. Edições 70, Lisboa, 2008.

José Pinto Casquilho. Centro de Ecologia Aplicada Baeta Neves (CEABN/UTL), Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens
josecasquilho@gmail.com
(CECL/UNL).