PSICOLOGIA DO TERRORISTA |
Terrorismo é um sistema político que consiste em governar usando de medidas violentas, para contrabalançar as desigualdades sócio-econômico-culturais e religiosas entre nações. A prática do terrorismo é tão antiga quanto a humanidade, usada como arma dos oprimidos frente a um adversário poderoso, já que o enfrentamento de igual para igual seria ineficaz. Quem opta pelo terror sempre acredita que sua causa é justa. Americanos já praticaram ato terrorista contra a propriedade britânica, conhecida como a Festa do Chá de Boston (em protesto contra o monopólio do comércio de chá pelos ingleses imposto pelo Tea Act, em 1773, colonos americanos, disfarçados de índios, destruíram trezentas caixas de chá no porto de Boston). Em 1935, o general Smedley Butler resumiu assim as três décadas de seu trabalho como oficial dos marines: Eu fui um pistoleiro do capitalismo, atuando em três continentes. Enquanto Al Capone atuou apenas em três distritos de uma cidade. Os judeus valeram-se de atos terroristas no Protetorado da Palestina contra os ingleses. Hoje eles oprimem os palestinos e estes sofrem, por conseguinte, a reação de um povo massacrado pelos antigos terroristas israelenses. Na Segunda Guerra Mundial, os membros da resistência nos países ocupados com violência pelos nazistas, se valeram do terrorismo para minar as forças opressoras e, foram considerados heróis, pela coligação aliada daqueles tempos. A desigualdade entre ricos e pobres sempre existiu e continuará crescendo paulatinamente, até que os problemas econômicos, sociais e culturais produzam desfechos insuportáveis de convivência, potencializando, como uma co-enzima, a ruptura do status quo guiado por um poder messiânico. Segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), mais de um bilhão de seres humanos sofrem de fome crônica, não têm água limpa para beber, apresentam sinais distróficos, enquanto milhares de pessoas do Primeiro Mundo acumulam riquezas incomensuráveis, insensíveis aos padrões de vida do Terceiro Mundo. Os subsídios agrícolas mantidos pelos países do Primeiro Mundo, além das barreiras comerciais aos produtos oriundos dos subdesenvolvidos, permitem que se convertam em grandes exportadores agrícolas e são insensíveis às reclamações “Terceiro-mundistas” junto a OMC (Organização Mundial do Comércio). Essas distorções no mercado mundial levam à ruína os produtores de países mais pobres, sobretudo da África, incapazes de competir em seus próprios mercados com os produtos que os europeus lhes despejam com preços subsidiados. O resultado é que, após causar a ruína dos agricultores africanos, esses dirigentes gastam tempo e dinheiro para erigir muros legais e políticos a fim de manter longe das praias européias as hordas de imigrantes de países empobrecidos por essa política irracional e desumana! (Globo Rural nº 205 – nov. 2002 – Agricultura: de novo o “x” do problema – Rubens Ricúpero). Os milhões de trucidados pelos ditadores e assassinos em massa que foram apoiados, instruídos, financiados e armados pelos governos norte-americanos, chamaram a atenção para os motivos do ressentimento contra os EUA, cuja resposta foi o 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center e o Pentágono. Os atentados de Madrid, em 11/03/04 e recentemente, o de Londres, em 07/07/05, são conseqüências do alinhamento da política externa americana e sua arrogância no trato com outras etnias. Cerca de 25% dos muçulmanos nascidos no Reino Unido ou de nacionalidade britânica dizem que são discriminados e têm pouca ou nenhuma lealdade com esse país. Para proteger o American way of life da ameaça dos terroristas, está em andamento a formação de uma “bolha” (Ministério de Segurança Interna) como se fosse uma galinha-choca protegendo os seus pintinhos contra os agressores – no caso os terroristas islâmicos. A guerra é conseqüência da incapacidade política de solucionar as divergências entre os povos. A retaliação é o procedimento que permite declarar que os próprios interesses são válidos e os dos adversários, inválidos. A Primeira Guerra Mundial eclodiu após os assassinatos do príncipe herdeiro austríaco – Francisco Ferdinando, e de sua esposa – em Sarajevo, por nacionalistas sérvios, declarando guerra à grande potência de então, o império Áustro-Húngaro. A Segunda Guerra Mundial foi conseqüência do Tratado de Versalhes, com sanções contra a Alemanha, obrigada a pagar tributos de guerra indefinidamente, restrições à produção de armamentos, formação de forças armadas, importação de carvão mineral, sendo a Alemanha rica com suas jazidas, etc. Em suma, não poderia sobreviver como nação. Surgiu o salvador-da-pátria – com sua trajetória em Mein Kampf, que rasgou o Tratado de Versalhes em praça pública e determinou a nova ordem política e social. Posteriormente, o extermínio de judeus, ciganos e outros não alinhados, evidenciando a insensatez do poder psicótico da Alemanha hitlerista. Em agosto de 1945 os americanos jogaram duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, matando milhares de civis indefesos, além de causar seqüelas decorrentes da irradiação atômica na população remanescente daquela região. Segundo o historiador inglês Eric Hobsbawm: “... uma decisão de sacrificar grandes massas de não envolvidos em prol das pretensões de poder”. O Vietnã – república independente na península da Indochina – sofreu invasões de chineses, de franceses e de americanos – todos foram derrotados, graças à tenacidade e consciência de nação desse povo. No Oriente Médio, a guerra do Islã contra o mundo cristão, aparentemente ocorre, sob a orientação de um grupo sectário, acreditando que os fiéis devem exterminar os infiéis a sangue e fogo, inspirado no Profeta Maomé. As disparidades culturais, econômicas e sociais são tão evidentes que tem sido impossível a coexistência pacífica, desde os primórdios da civilização. O Afeganistão parece distante dos principais desafios globais enfocados pela opinião pública ocidental. Os talibãs utilizam uma forma de insanidade ideológica e religiosa contra as mulheres que são ultrajadas e oprimidas, em conseqüência do “atraso” cultural em relação à civilização ocidental. O “Grande Satã” é a personificação do ódio e do fanatismo. Quanto à questão da origem da energia psíquica que alimenta o terror, a análise ideológica não oferece respostas. A constante é a paranóia. O ímpeto coletivo à autodestruição é a motivação cuja força o Ocidente insiste em subestimar. Seu triunfo é saber que ninguém pode combatê-lo ou puni-lo, pois ele mesmo se encarrega disso. (Frankfurter Allgemeine Zeitung – Hans Magnus Enzensberger – Humbolt nº 85). George W. Bush & Osama Bin Laden parecem gêmeos e estão cada vez mais parecidos. Um chama o outro de “Cabeça de Serpente”; gostam de recorrer à retórica do Bem e do Mal. Ambos estão envolvidos em crimes políticos com armamentos perigosos: um opera com arsenal nuclear dos mais poderosos e o outro, com o poder violento e destruidor dos desesperançados. O importante é que um é tão inaceitável quanto o outro. (O Deus das Pequenas Coisas – Arundhati Roy – escritor indiano, Frankfurter Allgemeine Zeitung – 28/09/01). Segundo Samuel Huntington – The Clash of Civilizations – 1993, “... futuramente, os grandes conflitos que prometem cunhar e dividir a humanidade serão de ordem cultural e econômica. As aversões culturais serão as frentes de combate do porvir”. A briga atual tem dois fortes componentes: petróleo e água. Os que praticam o islamismo temem que seu ambiente seja envenenado pela forma de vida liberal do Ocidente. (Salman Rushdie – Frankfurter Allgemeine Zeitung – 05/11/2001). Para os guerreiros afegãos – os mudjahedins – em dias de “Guerra Santa” contra infiéis e comunistas, a luta e o valor, o heroísmo e a morte heróica, são de importância primordial. O terror não é uma prerrogativa dos terroristas. Os guerrilheiros dos cartéis de drogas, os esquadrões da morte paramilitares, os bandidos que disputam o poder de comando, cometem atentados e massacram a população civil, com a finalidade de desfrutar a vitória e abafar toda e qualquer resistência. A possibilidade de recuperação da mente anti-social de um bandido dessa natureza é extremamente difícil, senão impossível. É um choque de culturas onde a classe média abastada é vista com inveja e um certo grau de inferioridade por não conseguir o status de bem-estar social. O pavor apodera-se das pessoas quando a violência extrapola o previsível, podendo levar ao pânico, que é a forma máxima do horror. O atentado terrorista não quer ferir, quer matar imediatamente, não se preocupando até com a própria vida. Já a tortura pelo contrário, lança sua vítima num estado de tormento interminável, como nos seqüestros. A vítima fica completamente em mãos do torturador, submetida a sua arbitrariedade. O torturado deve, pelo menos temporariamente, continuar vivo e consciente, para sentir a dor até a agonia da morte. O terrorista é traiçoeiro, mas não é covarde, rompe com os princípios da autopreservação e do interesse racional, como nos atentados suicidas. Quando espalham a morte, os terroristas cumprem ação divina que se sobrepõe aos próprios atos e desejos pessoais. Já o torturador é potencialmente covarde, forma predileta de violência do terror estatal ou dos seqüestradores. Como conviver com essas diferenças sócio-cultural e religiosa que se tornam cada vez mais intolerantes? A intolerância religiosa desde a Santa Inquisição reacende periodicamente, entre católicos e protestantes, como na Irlanda do Norte; cristãos e muçulmanos nos Bálcãs; muçulmanos e hindus na Índia; hindus e budistas no Sri Lanka, etc. “A tolerância consiste na harmonia da diferença. Não é apenas um dever moral, senão mais uma exigência política e jurídica. Virtude que substitui a cultura da guerra pela cultura da paz”. A tolerância tem limites? Sem sombra de dúvidas, necessitamos de um debate sobre os valores fundamentais de convivência com sistemas de valores diferentes, através de um pacto com a multiplicidade étnica, religiosa e cultural, o que não é fácil. Está na hora de analisar a forma de pensar do terrorista. É um homem ultra-religioso, jovem e politicamente bem fundamentado em seus princípios pragmáticos, fáceis de serem assimilados até por crianças. As suras * do Alcorão ressoam-lhe este mantra: “decifra-me e explode a ti e a tudo em teu redor, em nome da causa do Islã”. (*) – Sura – oração dos muçulmanos. Cada um dos 114 capítulos do Alcorão. A sua interpretação está à mercê de cada grupo em seu meio. Sendo assim, todos podem interpretá-lo de acordo com os costumes locais e ressoa como o hino da morte. No versículo 12 da sura 8, sobre os Espólios: “Sim, estou convosco. Fortificai os crentes. Infundirei o terror no coração dos descrentes”. É isso que move quem faz atentado: o desejo de ser o braço de Deus em sua ação e fazer justiça com as próprias mãos. É a lei de Talião: “Dente por dente, olho por olho”. É em nome desta lei que o terror se espalha no mundo ocidental-cristão. O mundo está corrompido pelos ocidentais e cabe uma nova ordem sob o comando do Mensageiro, do Livro e dos verdadeiros crentes no Deus único. “Os crentes têm o paraíso. Os descrentes ganham o terror”. Durante o julgamento de Mohamed Bouyeri pela corte de Amsterdã devido ao assassinato do cineasta Theo van Gogh, afirmou que foi motivado por suas crenças fundamentalistas islâmicas e que se fosse solto e tivesse a chance de fazer o que fez em 02/11/2004, faria exatamente a mesma coisa, como vingança pelo filme Submission, criticando as mulheres sob o Islã. Entender isso é um dos caminhos para a libertação da angústia do próximo ataque. Torna-se necessário decifrar os textos sagrados para um possível acordo entre islâmicos e o Ocidente em pânico e a mercê dos atentados. Quais são os valores na cultura dos homens-bomba? Candidatar-se a suicida pela causa do grupo garante um lugar privilegiado e elevado prestígio extensivo a parentes, além de recompensas espirituais depois da morte. O perfil psicológico de um terrorista nada tem a ver com o estereótipo de um psicopata. Aliás, não existe um perfil psicológico claro, pois terroristas não tem distúrbios mentais – são pessoas comuns, em geral jovens inseguros com forte desejo de afiliação a um grupo. Um psicopata não trabalha em equipe e não tem lealdade aos valores de seu grupo social, sua motivação é egocêntrica. Já para um terrorista suicida, a motivação é altruística - o gesto de dar a própria vida pela causa do grupo a que pertence é valorizado na cultura dos homens-bomba. Talvez, o ponto de equilíbrio esteja na filosofia imanentista. Os princípios de Swami Vivekananda – filósofo e místico indiano – baseados na idéia de uma religião universal, com a mensagem de tolerância com as seitas e a diversidade cultural. O importante é a essência de cada religião como parte da grande verdade universal: “O universo inteiro é o corpo de Deus”. Outro indiano, Raimon Panikar, sobre a religião do futuro: “Nenhuma religião dá respostas, sozinha, às condições humanas, à crise de valores, ao destino do planeta”. Há semelhança com a linha renovadora do Concílio Vaticano II do papa João XXIII e sua perspectiva ecumênica. A nossa interpretação é de que o ocidente-cristão e o judaísmo adaptaram-se melhor com as transformações dos costumes, do que os fundamentalistas islâmicos, com seus anacronismos. Seria lógico, nos tempos atuais, seguir fielmente, alguns conceitos bíblicos? Exemplos: Levítico 18:(19-22)–Não te chegarás à mulher, para lhe descobrir a nudez, durante a sua menstruação; Nem te deitarás com a mulher de teu próximo, para te contaminares com ela; Com homem não te deitarás, como se fosse mulher: é abominação. Levítico 25:44 - estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que seja de países vizinhos... Êxodo 35:2 - estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a São conceitos anacrônicos para nós atualmente. O Islamismo tem orientação pacifista e não respalda a violência, e a barbárie dos atentados. Só é passível de justificativa através de um processo de deformação, feitas por segmentos fanáticos, nos preceitos desta religião. Resumindo, o terrorismo sempre surgirá, com sua maré de sangue de inocentes, com a inoculação do vírus da contestação em suas mentes contra as injustiças, sejam elas de naturezas econômica, social, religiosa ou cultural, além da falta de esperança em um futuro melhor. Brasília, 12 de agosto de 2005. |
BIBLIOGRAFIA: |
1 – Ricúpero, Rubens – Agricultura: de novo o “x” do problema - Globo Rural nº 205, nov. 2002. 2 – Enzensberger, Hans Magnus - Frankfurter Allgemeine Zeitung - Humbolt nº 85. 3 – Roy, Arundhati – O Deus das Pequenas Coisas - Frankfurter Allgemeine Zeitung – 28/09/01. 4 – Huntington , Samuel - The Clash of Civilizations – 1993 – Humbolt nº 85. 5 – Rushdie, Salman - Frankfurter Allgemeine Zeitung – 05/11/2001). The Book Burning. 6 – Lima, Clauber – A mente do terrorista, Terror em Londres, Jornal do Brasil 10/07/2005. 7 – César, Waldo – Diversidade e Tolerância, Jornal do Brasil 16/07/2005 (Ref. “O que é Religião-Swami Vivekananda – Lótus do Saber Editora). 8 – CBS'48Hours''-Man's Brother Talks of Brainwashing. |
DIVAL GOMES DA COSTA |
Dival Gomes da Costa |
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