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O PRÍNCIPE DO LÍBANO
Para a protecção das rosas de Jericó: SC14
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Na Praça do Príncipe Real, em Lisboa, existe o jardim conhecido pelo mesmo nome, na realidade o Jardim França Borges. Várias espécies arbóreas de origem exótica lhe dão corpo, entre elas a Asvattha, Ficus religiosa ou Árvore Bô, mas a sua essência dominante é um cedro secular, tão frondoso que lhe ampara agora os ramos a bengala de uma estrutura circular em ferro forjado. A seus pés, uma lápide exibe um escrito de louvor à árvore, em cujo remate se roga aos passantes que não lhe façam mal.

Será o cedro do Jardim do Príncipe Real um emblema da Maçonaria Florestal Carbonária? E o príncipe real a que se refere o nome da praça será Hiram, o arquitecto que chefiou a construção do Templo de Salomão com os Cedrus libani oferecidos por Hiram, rei de Tiro?

A História prega-nos muitas partidas, e a casualidade ainda mais. França Borges, tal como Sousa Viterbo, dois dos escritores-jornalistas com estátua na Praça/Jardim do Príncipe Real, foi um notável conspirador e militante republicano. Do currículo de França Borges extraímos a nota de ter colaborado no jornal "O Neófito", por impor uma pergunta: que maçonaria lutava pela república, nesses tempos? Não certamente a da Pedra, sim a Florestal ou Carbonária. A comprová-lo, outra nota biográfica: com o célebre carbonário Heliodoro Salgado, fundador da loja "Obreiros do Futuro" (1), França Borges lançou o panfleto republicano "O Combate", que atingiu uma larga faixa da população.

Então parece que estamos assentes: o cedro é mesmo o do Líbano, Cedrus libani, e Hiram o Príncipe Real...

Algures, na Internet (http://www.inlisboa.com/BairroAlto/06.htm), diz-se que o "Jardim do Príncipe Real foi inaugurado em 1859, em homenagem a D. José, filho primogénito de D. Maria II". Bem, o primogénito da filha de D. Pedro I, imperador do Brasil, seria o futuro D. Pedro V de Portugal. Deve ser gralha, o príncipe em referência será talvez D. José primogénito de D. Maria I. Antes do que se festejou em 1859, já a praça existia, e já ali pontificava decerto o patriarca das árvores da zona, o cedro, vindo de navio de qualquer remota parte do mundo.

Este D. José, Príncipe da Beira e do Brasil (1761-1788), morreu de varíola ainda muito jovem. Registam certos sectores historiográficos que realmente foi assassinado. O Marquês de Pombal conspirava para que, invocando a lei sálica, a mãe fosse excluída do acesso à coroa, de maneira a passar directamente do rei D. José I para este príncipe, irmão do futuro D. João VI.

D. José é o príncipe em nome do qual os naturalistas do século XVIII partem para as viagens "flosóficas" às conquistas, sob a direcção de Domingos Vandelli, em 1783. É ele então quem está na sombra das jardinagens dos naturalistas dessa época, quase todos nascidos no Brasil, caso de Feijó, que explora Cabo Verde, de Galvão da Silva, que parte para Moçambique e Goa (mas antes faz um desvio até à Cachoeira da Bahia, em questa da mina que produzira a misteriosa pedra de cobre nativo de 1666, aliás 2666 arráteis), de António José da Silva em Angola, e de Alexandre Rodrigues Ferreira na Amazónia.

Em matéria de príncipes reais, estamos conversados, parece. E o cedro? Será um real, ou principesco, Cedrus libani?

Provavelmente, não. Provavelmente é aquilo a que Bedriaga chama, referindo-se a certas espécies, de preferência insulares, "rosas de Jericó" (2). As rosas de Jericó têm esta singularidade de nem serem rosas, nem de Jericó.'.

Noutro local da Internet (http://www.jf-merces.pt/patrim.htm), lemos que "O Jardim França Borges, assim designado em homenagem ao jornalista republicano do mesmo nome fundador do jornal "O Mundo", foi inspirado no modelo romântico inglês. Plantado entre 1859 e 1863, ocupa uma área de 1,2 ha e distingue-se pelo monumental e secular Cedro-do-Buçaco, com mais de 20m de diâmetro, ex-libris do jardim. Constitui a maior e mais bonita sombra natural de Lisboa".

O Cupressus lusitanicus, ou Cupressus lusitanica, consoante os autores, nome científico da rosa de Jericó, perdão, do cedro-do-Buçaco, não é, como poderia então parecer, nem um cedro do Líbano, nem um cedro de Portugal, e ainda menos um endemismo estrito do Buçaco. É uma gozação botânica de algum carbonário, pode ser que ainda venha a atravessar-se no nosso caminho e se chame, quem sabe?, Abade Correia da Serra.

Não nos deixemos iludir com patrióticos epítetos como "lusitanica". O cedro-do-Buçaco é uma árvore da América do Norte (3). Por casualidade, o botânico português Correia da Serra fez carreira diplomática nos Estados Unidos da América, onde, além disso, elaborou os estatutos de uma academia, e nesta época as academias eram todas maçónicas, no caso a das Ciências Naturais de Filadélfia. Aliás este nome, Filadélfia, traz a mesma assinatura.

Não ficámos a saber quem é o Príncipe Real, e a Cupressus lusitanica é uma grande barraca, não é verdade? Mas que árvores temos nós de amar e proteger? As tão raras e privativas que só existem no penico do imaginário científico, ou as banais, cosmopolitas e companheiras, que nos dão sombra, madeira, frutos, as que abrigam os ninhos e são berço dos ovos? Posta a pergunta dentro do actual paradigma das Ciências Naturais: vamos proteger e conservar as espécies oriundas de selecção natural, ou as que são fruto de selecção artificial ou humana?

Eu estimo as rosas de Jericó, sei que são espécies como as Tarentola borneensis de Cabo Verde, as Chioglossa lusitanica da Califórnia, as Cupressus lusitanica da América do Norte.'. Defenderei aquilo que sei o que é: as espécies introduzidas e seleccionadas. Em defesa daquelas cuja origem ninguém é capaz de garantir, não ofereço braço, escudo nem machadinha.

Stella Carbono14

 

(1) Veja "A bomba a serviço da revolução".

(2) J. Bedriaga - Remarques supplémentaires sur les Amphibiens et Reptiles du Portugal et de l' île de St. Thomé. O Instituto, 1894, 41: 286-348.

(3) Ver "Cupressaceae", neste directório.