TITO LIVIO ZAMBECCARI
B.'. P.'. ZATTI

 

 

 

 

 
- Parte III -    

"Prisioneiro a 4 de outubro (1836), com Bento Gonçalves, o cirurgião Gaspar Francisco Gonçalves, o médico francês dr. Paul e Onofre, Zambeccari foi metido, com o último na fortaleza de Santa Cruz, onde a sua delicada saúde muito sofreu.

Ainda que sempre adoentado, não se lhe quebrou o ânimo, porém, nem a nobre atividade, que era dos seus hábitos. Desenhou e fez litografar o seu mapa, e traduziu para o português as 'Paroles d'un croyant', de Lamennais e os 'Saggi di economia politica', de Sismondi, livros que vertidos lhe serviam para o ensino a que se dedicou, de seus correligionários, presos como ele, ad instar do que fizera Antonio Carlos, nas masmorras da Bahia, depois de 1817. Ao mesmo tempo prosseguia a seu modo na campanha liberal, escrevendo em horas vagas, para as folhas da oposição, no Rio de Janeiro, diz-se.  Esta procurou ampará-lo, sempre que teve ensejo, afim de que lhe fosse restituída a liberdade. Proposta a troca do conde por Antero de Brito, aprisionado em Itapevi o governo do Império recusou, alegando não tratar com rebeldes. Não era o verdadeiro motivo, como sucessos posteriores o patentearam: é que dominava ainda, nas altas esferas, a doutrina pregada pelo filho de Bento Manuel, no 'Justiceiro', segundo a qual a benevolência era razoável com os 'desgraçados' que haviam seduzido à insurreição; mas, de modo nenhum com 'os influentes da anarquia', 'um sanguinário Zambeccari, um pérfido Hermano, e outros marcados pela opinião pública com o ferrete da ignomínia e da execração'. Com esses 'as leis sejam inexoráveis', bradava o redator da folha, bem certo de que nenhum dos dois estrangeiros merecia a pecha que lhes irrogava, mas empenhado em que os poderes superiores do Império não consentissem na volta à província, de elementos políticos da ordem dos que menciona, se acaso fosse possível captura-los. Mais ativos que os pregadores do implacável castigo, labutavam, entretanto, os apóstolos da clemência.

Malogrados os esforços deles, ainda em 1838, quando o generoso chefe do exercito republicano soltou a numerosa oficialidade prisioneira do 30 de abril, fazendo-lhes o pedido, de que interviessem junto da regência, em favor do encarcerado de dois anos antes; por fim José Calvet e outros, especialmente aquele, conseguiram mover os ministros de Inglaterra e Espanha, o próprio núncio da Santa Sé, em favor do perseguido, cuja prisão, depois do combate do Rio Pardo, ainda se tornara mais dura e severa.   O ministério mostrou-se inclinado a atendê-los, mas veio a ceder à opinião contrária do conselho de estado. Não durou, todavia, a resistência; muito embora os elementos conservadores lhe fossem de todo adversos, mais tarde Zambeccari pode sair dos horridos calabouços, em que, enfermiço ou enfermo, jazera mais de três anos: foi possível converter a prisão em desterro, graça que obtiveram os seus amigos, pelo aniversario do imperador, em 1839.  

Zambeccari, da prisão, nunca mais escreveu a seus amigos do Rio Grande, do que se queixa Almeida, em carta a José Calvet, e isto me o fizera supor magoado com eles, por insciente dos passos infrutíferos que davam, para libertá-lo ou melhorar sua condição.(*) Creio hoje que foi medida de prudência, informado como estaria, de que uma carta de Ulhôa Cintra, que lhe era dirigida, tinha ido parar ás mãos do governo imperial: epístola sua, extraviada, podia de certo agravar-lhe a situação. Que se conservou fiel aos amigos do sul, (**) que fazia justiça aos magnos esforços que empregavam, há vestígios em palavras dele, e nas que traça o biógrafo a quem confiou as reminiscências de suas campanhas políticas, no continente americano. Este diz que, seguindo para a Europa, foi 'a seu pesar que Zarnbeccari abandonou os seus amigos'.  

(*) - Os republicanos tudo fizeram em benefício de Zambeccari, enquanto esteve preso; sempre, entretanto, infelizes, em todos os seus esforços, por que até compatrícios do conde se incumbiram de malográ-los. Um deles, André Rini, que se apresentou ao governo da República, dizendo-se em condições de conseguir a evasão de Zambeccari, recebeu 200 patacões, para levar-lhe outros 2.000, e fugiu com a soma. 3.000 foram enviados depois por mão de Paulino A. Aguirre, mas ninguém mais soube do portador. (Carta de Modesto Franco, para Almeida, de 25/03/839)  

(**) - Vide o cit. artigo no "Cidadão". Consta ele de uma alegoria, em que o autor busca enquadrar em diversas fases, as vicissitudes do mundo coevo e o feliz desfecho a que se encaminhavam as coisas. Há neles referências veladas que se tornaram mais claras, com as anotações ulteriores de Zambeccari. Percebe-se no escrito que a campanha difamatória de que foram vítimas os 'farrapos', o velho companheiro vislumbrava a verdade, a respeito deles, através das grades da sua prisão onde tinha consciência de que o evangelho que ajudara a pregar, não fora esquecido, nem mistificado ou sofismado. Depois de mencionar o sacrifício que fazia a ambição para impor-se dominadora no Rio Grande, e as monstruosidades efetuadas na Bahia, diz que 'se resgatou o negro lençol de nuvens, que envolvia a vastidão dos céus, e do lado do sul brilhou uma estrela em cujo centro se lia - Amor, Fraternidade, Humanidade: PIRATINY'.

Também disse que o consolava dessa dolorosa imposição das circunstâncias, o desejo de rever a pátria. Embarcado no postal inglês 'Lyra', 45 dias depois chegava a Portsmouth, de onde partiu para Florença, com alguma demora em Londres e Paris.   Ao chegar ás fronteiras do torrão natal, vedaram-lhe a entrada, aliás com felicidade para ele, porque logo depois chegavam ordens do governo pontifício, não só para impedir-lhe o acesso, também para que o prendessem. Havendo retrocedido para Florença, negaram-lhe ali a hospitalidade, o que não sucedeu em Lucca, ducado para onde se dirigiu. Pouco duraria o vexame, todavia, porque seus numerosos amigos não descansaram em Roma enquanto lhe não abriram as portas de Bolonha: reentrava ele na sua querida cidade, em 1841, depois de um peregrinar de 18 anos.

(VARELA, Alfredo. "Revoluções Cisplatinas". Chardron. Porto. 1915)  

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