TITO LIVIO ZAMBECCARI
B.'. P.'. ZATTI

 

 

 

 

 
- Parte II -    

(Em carta de 10 de dezembro de 1838 dizia Domingos de Almeida, a propósito de certo coronel espanhol e de outro baiano, que se haviam apresentado às forças da República: "Não é fácil encontrar muitos Zambeccaris, Rossetis e Garibaldis").  

"Estrangeiro como Ruedas, como ele um generoso voluntário da liberdade, o conde Livio Zambeccari, natural de Bolonha, filho do conde Francisco, aeronauta que pretendeu dirigir balões por meio de remos e morreu naquela cidade a 12 de maio de 1812 em uma desgraçada ascensão; Livio Zambeccari herdou com o nome da família o título do pai, o amor aos trabalhos científicos e às empresas temerárias. Daquele deixou em nossas bibliotecas um atestado valioso, em um mapa que compôs, do Rio Grande do Sul, um dos melhores que temos possuído e que serviu aos chefes da Revolução, para o norteio das operações, como para o estabelecimento dos movimentos de vulto que efetuaram.

Maior seria a sua contribuição, se a conjura revolucionária e a guerra subseqüente o não desviassem das investigações de história natural. Ainda existe, à rua Nova, de Porto Alegre, no ponto em que se reúne a Ladeira, quinta do sul, uma velha casa, que ele habitou e onde guardava as suas coleções, dispersas ou destruídas, como parece que foram as de Bompland, em São Borja... O que nos resta é o que consta de seus 'Cinque quadri dei prodotti vegetali usati nell'economia e medecina domestica brasiliana', que constituem uma sinopse, certo composta de memória, e publicada no ano de 1843, em sua cidade natal.

Os serviços deste homem notável ao Rio Grande, não se limitam a labores científicos; ganhou um lugar de honra, na galeria dos amigos do país, com o benemérito apostolado em que obteve o máximo realce, pensando alguns que foi ele o verdadeiro pai espiritual da Revolução de 20 de Setembro...  

'Zambeccari, filiado desde logo aos Continentinos e talvez seu instituidor, disse Assis Brasil, era assíduo a todas as sessões, onde lia memórias e pregava em repetidos discursos idéias abertamente republicanas. Muitas vezes, contrariado por alguns dos seus confrades sustentou polêmicas doutrinárias. Na imprensa jornalística, onde continuamente apareciam artigos seus, eram, com as necessárias reservas, os mesmos princípios que pregava. Levado por esse sentimento quase fanático de cosmopolitismo que foi tão comum aos homens daquela época e que também dominava Garibaldi, Rossetti, Griggs e tantos outros que estrangeiros que serviam à República Rio-Grandense, Zambeccari fez-se amar de todos os patriotas do Rio Grande, e pode ser considerado o seu verdadeiro e real diretor mental. Assim explica-se o influxo que exerciam no Rio Grande as doutrinas da Jovem Itália': ... (Tenho motivos para supor que houve relações diretas do próprio chefe deste grêmio, ao menos com um dos revolucionários de 1835. Indício me parece o que passo a reproduzir. É uma cópia de carta de Almeida, a Garibaldi, em data de 20 de junho de 1859, em a qual o ex-ministro, depois de dizer que pelas folhas acaba de ver que o sublime guerreiro está ao lado do 'imortal Victor Manuel'; lhe dá os parabéns e acrescenta: 'Para recomendar-vos a vossos concidadãos, relevareis que ajunte a vossa ordem-do-dia, de 13 de abril de 1839, com o acréscimo do que mais fizestes, a prol da Liberdade Americana. Se forem vivos Mazzini, Zambeccari, Anzani, Castellini, abraçai-os por mim'.

Se Almeida apenas conhecesse o célebre agitador, através dos patriotas italianos, ou das suas publicações, não lhe dispensara uma prova de carinho que pressupõe grande intimidade, como a que tivera com os três últimos; e note-se que a dispensa no papel em que dá tratamento cerimonioso a Garibaldi, seu ex-subordinado).  

Zambeccari pertencia à vasta associação dos carbonários, cujo distintivo, um anel de ferro, nunca lhe saia da destra. A tal circunstância se deve, creio, o sistema análogo adotado na conjura rio-grandense, que se fez em lojas admiravelmente organizadas, de certo pelo próprio naturalista. O segredo absoluto com que os trabalhos se fizeram, a reserva mantida com escrúpulo ainda muito depois que o mistério das reuniões se tornou compreensível no desdobramento dos sucessos; comprovam a severidade dos votos e a disciplina revolucionária que se difundira. Em todas elas os verdadeiros iniciados no plano fundamental da conspiração penso que formavam escasso número, operando, esses, em capítulos de poucos, à sobra de associações que funcionavam nos termos legais do estatuto maçônico. Outros círculos da mesma natureza existiam dentro de clubes 'moderados', criação de Evaristo da Veiga, as 'Sociedades defensoras da independência e liberdade nacional'; chegando, nalguns casos, a absorvê-las, como no Rio Pardo.

Desconfiavam os retrógrados de quase todos estes grêmios, propalavam serem eles perfeitos conventículos sediciosos, acusadas sobretudo a loja maçônica do Rio Grande, a de Jaguarão e a 'Sociedade do continentino', mas o recato era tão absoluto, que desnorteava os denunciantes. A derradeira, por exemplo, mantinha um gabinete de leitura e uma aula de ensino, tendo como sócios contribuintes alguns absolutistas de nota, e, entretanto, abrigava no seio um grupo de conjurados, assim labutando em condições da mais completa segurança, - não só com a total ignorância daqueles, como até mesmo de conhecidos farroupilhas, membros ativos da casa.

Era um desses Antonio Alvares Pereira Coruja, o qual me afirmou que a loja maçônica Philantropia e Liberdade (a que funcionava à sombra daquela), não pertenceu Zambeccari, e contava, entre verdadeiros liberais, indivíduos que o não eram, corno Barreto, Rodrigo Pontes, etc.. Ora, é unânime a tradição legalista no garantir que a sociedade que qualificavam de 'Maribondina', era o teatro dos trabalhos subversivos, o que me faz crer que o agitador bolonhês, João Manuel, José Mariano, Pedro Boticário, e outros, operavam, como já disse, em grêmio oculto dentro da mencionada loja, como esta se recatava com o nome da primeira a que me estou referindo. Aliás, este sistema não constitui uma novidade: na organização carbonária, que floresceu em França, além de que os membros de uma 'venda desconheciam os de outra', eram elas, todas manejadas pelas que tinham a categoria de 'vendas grandes', sem lhes comunicarem estas o segredo de suas deliberações, simplesmente transmitidas às primeiras, para observância geral, quando isto convinha aos interesses da 'ordem'."

VARELA, Alfredo. "Revoluções Cisplatinas". Chardron. Porto. 1915)    

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