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"Livio Zambeccari nasceu em 30 de junho de 1802. Mui cedo órfão, os parentes o matricularam na escola de diplomacia, da famosa universidade local, colhendo-o nos bancos acadêmicos, as primeiras preocupações cívicas, que depois o celebrizaram entre os fautores do Ressurgimento. Filiado ás lojas conspiradoras aos 19 anos, teve comissões reservadas, no cumprimento das quais despertou suspeitas a polícia, em 1823. Recebido aviso de que ela seguia seus passos, Zambeccari fugiu para a Espanha, onde se encontrou em face de uma enérgica fermentação política, que logo lhe interessava sobremodo, apresentar-se a Riego, em Sevilha. O inditoso brigadeiro o nomeou ajudante de ordens, no seu estado maior; pouco depois designado para uma comissão em Gibraltar; Zambeccari aí estava em outubro, quando teve notícia do fuzilamento do ilustre chefe liberal, com quem servia, e do triunfo completo da reação. Inútil, quanto perigosa, a sua permanência na península, partiu para Londres e viajou na Inglaterra e em França, exclusivamente entregue a estudos mineralógicos, até 1826, ano em que embarcou direto ao Rio da Prata. Ao chegar a Montevidéu, encontrou-a em assédio, posto pelas tropas dos patriotas, sublevados contra o Império (do Brazil). Como era de prever em homem de suas tradições, não se deixou atrair pelos encantos da feiticeira cidade: passou ao campo dos libertadores, apresentando-se no Serrito, a dom Manuel Oribe, chefe do sítio, que o fez seguir imediatamente à presença de Lavalleja, no Duranzo. O glorioso oriental, certificou-se logo de que tinha consigo um indivíduo de variado preparo científico, mui satisfeito do advento de quem lhe apareceu poder suprir a falta que estava padecendo, de oficiais de artilharia, propôs-lhe a nomeação para o comando geral dessa arma. Dotado de uma natureza ingênua, franca e leal, Zambeccari não escondeu a sua inexperiência da guerra, e preferiu recusar o posto, a investir-se de funções para que se não julgava apto ainda. Acompanhou o general, entretanto, por dois meses, e depois, tomando um navio na Colônia do Sacramento, foi aportar em Buenos Aires, onde, como na Espanha, como no Uruguai, achou em ensaios, para tremenda luta, que duraria mais de um quarto de século, os espíritos liberais e os asseclas de um despotismo que já negrejava, para as bandas do Pampa meridional. Faltam dados quanto à existência de Zambeccari, pelos anos de 27 e 28, na capital das Províncias Unidas, mas, consta de sua copiosa documentação biográfica, ter corrido às armas quando a metrópole argentina se viu ameaçada pelos federais, em 1829; como todos os portenhos, os italianos se apresentaram a defende-la, formando uma legião, para a 6ª companhia da qual foi eleito o conde, no posto de superior comando. Ele, porém, declinou a honra, não só pelas razões expostas antes a Lavalleja, em caso parecido, como porque se havia já alistado nos 'Usares republicanos', de que era chefe o coronel Zenon Videla, obtendo o seu batismo de sangue nas circunvalações da capital, em combate de 26 de abril. Triunfante a política de Rosas, Zambeccari para fugir às perseguições da incipiente ditadura, dirige-se ao Rio Grande, 'onde tinha muitos amigos', por serviços que a vários prestara, no decurso da guerra da independência oriental. Mui bem acolhido pelos liberais da província, tudo fizeram para que ficasse entre eles, mas tendo de liquidar negócios do seu interesse, em Buenos Aires, onde o governo se tornara mais moderado; regressou para ali e esteve de malas prontas para tornar à Itália, onde pensava intervir na grande conspiração carbonária existente, quando chegaram folhas noticiando o malogro dos esforços regeneradores da 'Jovem Itália'. Isto o fez acudir aos instantes reclamos dos seus correligionários rio-grandenses. Tornou a Porto Alegre, onde teve comissão para proceder, com outros, as medições que se faziam, de lotes urbanos e ruas, na colônia de S. Leopoldo; depois entregue, o conde, em absoluto, a seus estudos geográficos, de história natural, e à vida de imprensa. Estreiou-se nela em 'O Continentino', que 'advogava moderadas reformas'... e pouco depois vinha à luz o 'Republicano', campeão de novas e mais audazes máximas, como suficientemente explica o nome com que se anunciava o novo peródico. Zambeccari foi um dos seus mais ativos colaboradores. As novas idéias pregadas pelo Republicano encontraram eco, no seio das camadas populares. Além disso, a má administração do presidente imperial Fernandes Braga chegava fogo à isca, e tanto assim que toda a população de Porto Alegre se sublevou a 20 de setembro de 1835. 'Zambeccari como um dos principais atores no movimento revolucionário, autor do programa que tinha servido como base das operações, havia tomado, com patriotas, as oportunas medidas, para que as coisas se não reduzissem a uma mera representação cênica'. Fugido Braga, 'a Revolução (continua Enrico Spartaco) era um fato consumado. O Rio Grande conquista a sua liberdade. Mas para fazer perigar o novo estado de coisas surgiram dissensões, entro os dois principais cabos da Revolução, Bento Gonçalves da Silva e Bento Manuel Ribeiro, o qual dali a pouco ergueu novamente o estandarte do Império, conduzido talvez a isso pelas manobras e intrigas do presidente Araújo. Então começou a guerra civil'. Zambeccari, como secretário e chefe do estado maior de Banto Gonçalves, tomou parte nos vários choques anteriores ao Fanfa, combate que foi fatal à sua liberdade e à causa a que servia. 'Malgrado a derrota (prossegue o biógrafo), os republicanos não perderam o ânimo, e enquanto tratavam de organizar novas tropas, para resistirem com vantagem, proclamava-se a República em Piratiny, cidade do coração do Rio Grande'..." (VARELA, Alfredo. "Revoluções Cisplatinas". Chardron. Porto. 1915) |
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