José Castellani
O APOSTOLADO

 
 

 

 
Fatos da Independência do Brasil

O Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz foi instalado a 2 de junho de 1822 e o príncipe-regente, D. Pedro, que tomara parte na reunião de fundação, foi eleito seu chefe, por proposta de José Bonifácio, com o título de Arconte-Rei, tomando posse na reunião seguinte, a 22 de junho.

Era uma organização nos moldes da Carbonária européia, cuja atuação Bonifácio bem conhecera, durante os anos em que permaneceu na Europa. O corpo principal da entidade era a Palestra e seus membros também adotavam nomes simbólicos, ou heróicos, como os maçons. Os integrantes do Apostolado, que se tratavam como camaradas, dividiam-se em quatro categorias, que eram, em sentido ascendente: a dos Recrutas, a dos Escudeiros, a dos Cavaleiros e a dos Apóstolos. Os profanos eram chamados de paisanos.

Posteriormente, o Apostolado resolveu se dividir em três Palestras: "Independência ou Morte", "União e Tranqüilidade" e "Firmeza e Lealdade". Os neófitos prestavam o seguinte juramento: "Juro aos Santos Evangelhos guardar escrupulosamente os segredos de meu grau, não comunicando a pessoa alguma Paisana, qualquer coisa que, na qualidade de Recruta, me for confiada, nem tão pouco instruir a alguém do sinal da Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, toque, senha e contra-senha correspondente. Juro, finalmente, promover, com todas as minhas forças e a custo da minha vida e fazenda --- a Integridade, Independência e Felicidade do Brasil, como Império constitucional, opondo-me tanto ao despotismo que o altera, como à anarquia que o dissolve. Assim Deus me ajude".

O Livro das Atas do Apostolado, como comprova Rio Branco, em notas à "História da Independência do Brasil", de Varnhagen, figurou na Exposição de História do Brasil, de 1881, sob o nº 6.986 do catálogo, junto com um outro volume, que trazia o juramento e as assinaturas de cem membros da sociedade; as quatro primeiras, principais, eram as de D. Pedro, José Bonifácio, Nóbrega e Gonçalves Ledo. O Livro de Atas contém as atas das sessões de 2 e 22 de junho, 5, 9, 17, 24 e 31 de julho, uma sem data, 10 de agosto, 7, 12 e 18 de dezembro de 1822, 2 de janeiro, 2, 7 e 22 de fevereiro, 1 de março, 1 e 21 de abril, 6 e 15 de maio de 1823.

Em 1823, o Apostolado seria fechado pelo imperador D. Pedro I. O Apostolado e o Grande Oriente --- fundado a 17 de junho de 1822 --- viriam a representar facções diferentes, politicamente, da Maçonaria brasileira, a primeira sob a direção de Bonifácio e a segunda, de Ledo, ambas defendendo a emancipação política do país, mas sob formas diferentes de governo e maneiras diferentes de encarar a questão. O grupo de Ledo defendia o rompimento total dos laços com a metrópole portuguesa e um regime que o aproximasse mais daquele dos demais países latino-americanos, que, paulatinamente, iam conseguindo a sua independência da Coroa espanhola. O grupo de Bonifácio, presente no Grande Oriente, mas encastelado no Apostolado, pregava a união brasílico-lusa, ou seja, uma comunidade luso-brasileira de países autônomos, que englobasse as colônias e não admitisse a escravização dos negros.

 
Notas

1. A Carbonária, de tão grande atuação política na Europa, era também chamada de Maçonaria Florestal, porque suas iniciações eram feitas no recôndito das florestas. O nome Carbonária (do italiano : carbonaro = carvoeiro) se deve ao fato de a sociedade ter sido criada pelos carvoeiros de Hanover (cidade do Estado da Baixa Saxônia, capital do dostrito de Hanover, do reino de Hanover, anexado à Prússia, em 1866). Cada integrante da administração da Carbonária era tratado como Bom Primo, seguido do título de seu cargo (exemplo : Bom Primo Presidente), enquanto os membros de fora da administração eram os Bons Primos Rachadores. Os cargos principais estavam associados às árvores das florestas (carvalho, choupo, etc.). A sociedade, instituída em Hanover, no final do século XV, era, a princípio, uma simples associação de defesa de classe, a qual, depois, viria a adquirir caráter político-social, marcadamente depois da Revolução Francesa. Com grande atuação e prestígio, principalmente na Itália, na França, na Espanha e em Portugal, durante todo o século XIX, entraria, depois, em franco declínio. Em cada um dos países citados, a organização era semelhante à da Itália: a Alta Venda era o corpo deliberativo máximo, formada por um delegado de cada uma das Barracas, as quais eram compostas por delegados de cada uma das Cabanas, sendo, estas, por sua vez, constituídas por um delegado de cada uma das Choças, que eram as células básicas da instituição. Acima da Alta Venda, havia um comando máximo, composto por três membros destacados e que tinha o título de Jovem Itália. Na época da campanha pela unificação da Itália --- concluída em 1870 --- esse triunvirato era composto pelo conde de Cavour (que, falecido em 1861, não chegou a ver a obra completada), por Giuseppe Mazzini (que foi o fundador da Associação Jovem Itália, a Carbonária italiana) e por Giuseppe Garibaldi, o herói de dois mundos.

2. Alguns autores --- como Teixeira Pinto e Nicola Aslan --- pretendem que a Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz era a que foi fundada a 2 de junho de 1822 e que o Apostolado era outra entidade, oriunda da primeira, a partir de 2 de fevereiro de 1823. A afirmação, sem comprovação, tem sido feita mais no sentido de tentar provar que Ledo, Nóbrega, cônego Januário e outros próceres do Grande Oriente não pertenceram, na realidade, ao Apostolado, mas, sim, à primeira sociedade, o que, além de um exercício de imaginação, é preocupação irrelevante, já que os citados maçons, assim como Bonifácio, nunca compareceram às reuniões da sociedade, desde o dia 22 de junho de 1822, quando foram empossados seus dirigentes. Rio Branco, em notas a Varnhagen, é preciso e esclarecedor: "D Pedro pertencia, como ficou dito, a uma sociedade secreta, a Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, denominada Apostolado. Pelo livro de atas que S.M., o Sr. D. Pedro II possui e figurou na Exposição de História do Brasil (nº 6.986), sabe-se hoje que essa sociedade, fundada por José Bonifácio, começou a funcionar em 2 de junho. D. Pedro era, com o título de arconte-rei, o chefe do Apostolado, sendo José Bonifácio seu lugar-tenente. Pelo livro do juramento, também exposto em 1881, ficou patente que Gonçalves Ledo e Nóbrega também pertenciam ao Apostolado".

 
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