CABO VERDE / Um erro de Deus
Germano Almeida (textos) e José António Salvador (fotos)
03-01-2004
Ilhéu Editora, Cabo Verde e Editorial Caminho, Lisboa
www.triplov.com

Previous Home Next

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12

duas

Um erro de Deus


Claro que há uma outra realidade, principal e determinante de tudo o que nós somos: a nossa pobreza! Desde sempre somos muito pobres! A Natureza foi diabolicamente madrasta para connosco, quando pensamos as nossas ilhas é difícil entender por que terá ela sido tão pródiga com os demais e tão perversamente avara para nós outros. Há aliás uma lenda maldosa mas terrivelmente verdadeira a nosso respeito e que ajuda a entender-nos naquilo que acabámos por conservar de mais profundamente enraizado e que de alguma forma nos pode caracterizar como um povo que se recusa a deixar-se matar: um profundo instinto de sobrevivência!

Segundo essa lenda, Deus já tinha dado por terminada a semana de trabalho que dedicara à criação de tudo quanto achou que valia a pena existir, isto é, o céu e a terra, e as águas que separam as suas partes secas, e os animais que as povoam, e inclusivamente já distribuíra todas as riquezas com que decidira beneficiar cada parcela da humanidade, florestas aqui, ouro acolá, petróleo mais além, peixes em cada mar, chuvas quanto baste, quando reparou nas suas mãos ainda com pequenos restos da massa que tinha estado a espalhar.

Deus estava contente com aqueles dias de labuta e o trabalho realizado e preparava-se para um merecido sabbath, dentro do princípio que desde logo queria estabelecer como regra universal: trabalharás seis dias e no sétimo descansarás! De modo que sacudiu as mãos encardidas, ao acaso no espaço, num gesto indolente de quem diz, «tudo está consumado, nada mais resta fazer!», porém, para logo ver brotando perto da África pequenas ilhas de dentro do grande mar que viria a ficar com o nome de Atlântico.

Ah, chamaram a atenção de Deus os seus ajudantes, acaba de criar por aí mais umas terras! Deus viu que era verdade. Sim, isso é bom, respondeu, um poiso seguro em pleno alto mar dá sempre jeito a qualquer navegante. Só que já não tem nada com que dotar esse novo lugar, disseram-Ihe, nem riquezas, nem água doce, nem plantas, nem nada.

Deus teve que se calar. Na verdade não tinha sido sua intenção criar mais coisa alguma, de modo que ao ver a asneira que acabava de fazer deve ter-Ihe ocorrido que afinal das contas até os deuses erram. Bem, isso já não tem solução, mas também não tem grande importãncia, terá respondido encolhendo os ombros, com a quantidade de boa terra que espalhei por aí, todas elas devidamente providas não só de víveres como de riquezas de toda a espécie em abundância, seja em animais viventes seja em árvores de fruto e outras farturas, estou convencido de que, por mais empenho e vigor que os humanos venham a pôr na minha ordem de crescerem e se multiplicarem, nunca irão encher a terra a ponto de se lembrarem de habitar essas rochas que por culpa do acaso vão ficar para sempre escalavradas.