Luís Costa » Caderno de Buridan
Luís Reis - Editor TriploG
CADERNO DE BURIDAN: NÓTULAS CIRCULARES
1) Há dias atrás perguntavam-me: “ Mas quem és tu, Luís? “
Esta foi a resposta:
Essa é uma questão que tenho vindo a colocar a mim mesmo desde há muito tempo, e à qual tenho tentado responder de várias maneiras. É que, para uma tal questão, há muitas possibilidades de resposta. Contudo cheguei à conclusão que todas elas são falsas.
Octávio Paz, grande poeta e pensador mexicano, Prémio Nobel da Literatura, disse um dia que o EU não passa para lá de um enxame de ilusões. Isso é também o que nos demonstra o Budismo. Bom, talvez o Luís seja um mistério como todas as pessoas o são, embora pensando estas que sabem saber quem são porque nunca reflectiram profundamente acerca disso. O que talvez até seja melhor
2) “… poesia é a maior das orgias ao alcance do homem …” (andré breton) “… poesia é subversão do corpo …” (octávio paz) ( transcrito do facebook do Miguel de Carvalho )
Breton e Octávio Paz ( grande amigo de Breton ) sabiam bem o que diziam. Eu diria ainda : poesia é subversão do corpo e da alma até aos intestinos. A mudança começa por dentro e no princípio está sempre a impressão digital do Flash da poesia. E estou plenamente de acordo com Hölderlin, quando este diz ” É poeticamente que o homem habita o mundo. “
3) Uma casa só é uma casa completa se for habitada. O corpo é uma casa habitada por um enigma que se nomeia como sendo um: EU. As palavras afirmam esse EU, dão-lhe a possibilidade de se revelar ao mundo, mas não permitem desvendar esse EU. Pois que esse EU, embora, a nosso ver, não estando fechado em si próprio como Leibniz o queria, na sua teoria das monadas, onde não há interacção mútua, encontra-se todavia em constante movimento e transformação: O meu EU de ontem, já não é o meu EU de hoje, nem será o de amanhã, e por aí adiante.
A palavra, por seu lado, é sempre uma falsificação da “ realidade “ por ela nomeada. Pois que parte sempre de uma comparação. Por isso podemos dizer que falar é falsificar o real, E como poderia a palavra mostrar-nos a verdade se tudo se encontra em permanente transformação?
Talvez a mentira seja uma verdade envelhecida, como diria Kaváfis.
4) O único lugar onde a palavra é ela mesma será na poesia. Aí a palavra não falsifica, mas sim cria o mundo da linguagem na linguagem. A pedra do poema é a pedra do poema, aqui a metáfora já não é uma comparação mas sim a própria realidade da pedra no poema. O poema será então transparente como um ribeiro que corre porque corre e o leitor seguirá o curso desse ribeiro, livre de preconceitos, como um barco bêbado.
5) A armadilha da nudez: O espírito dionisíaco ou a forma mais concreta de rebentar os mármores e as armaduras com que cada homem cobre a realidade do mundo. A interpretação do sonho demonstra-nos que por trás da cultura há um homem nu. Mas será possível a um homem que nasceu e que foi educado dentro de uma determinada cultura - sonhar para além dessa cultura? Mostrar-se nu dentro do sonho?
Não será também o vestuário uma forma de nos mostramos nus? Uma análise detalhada do estilo e gosto de vestir de cada pessoa talvez nos mostrasse a “ verdade “ da pessoa por dentro. Os estudos de Baudelaire sobre o dandy demonstra-nos que o vestir do dandy era uma maneira de se estar nu no centro da multidão.
6) Homem Moderno: Abstracções são irrealidades. Reais são unicamente as coisas concretas, individuais.
Grego antigo: mas então o que é o plano genético que faz de um bezerro que nasce de uma vaca uma vaca? Não é este plano genético igualmente uma realidade? Não será este até a única realidade? Pois não é ele precisamente que faz” deste animal “ aquilo que chamamos uma vaca?
Moderador: para o antigo grego o pensamento, ou seja, a ideia, era a única realidade constante. A vaca, enquanto ser individual, nasce e desaparece, a única coisa que permanece é a ideia, ou seja a forma da vaca. Por de trás da confusão do concreto encontra-se a invariabilidade da forma eterna.
Homem moderno: Mas então que função tem o indivíduo dentro deste plano genético? Será um simples títere nas mãos desse plano genético? O órgão reprodutor da ideia? Se assim for, poderemos então falar de liberdade individual?
Poeta: Chegados a este ponto cito Fernando Pessoa: “ não procures nem creias, tudo é oculto.” Por isso, homem, aprende a beber do cálix de Diónisos o puro sumo. Evoé!
7) Ontem, 14 de Novembro de 2009, numa pequena festa onde estive presente, reparei que, numa coisa, todos os homens (sejam estes intelectuais ou não, sejam estes pequenos ou grandes ) são mais ao menos iguais: gostam de ser aplaudidos e reconhecidos. Nestes momentos de reconhecimento sentem-se mesmo comovidos e até deixam correr algumas lágrimas (escondidas) pelas faces… Todo o Homem é um animal que precisa de carinhos e reconhecimento. Embora por vezes não o pareça .
8) Nessa mesma festa, onde as crianças cantaram, contaram histórias, lengalengas e recitaram alguns versos, perante um público leigo e pouco “ vocacionado “ para a poesia, reparei igualmente que, quando um jovem professor, que ali se encontrava, subiu ao pequeno palco com uma viola na mão e cantou a “ Pedra Filosofal “ (poema de António Gedeão), um maravilhoso silêncio tomou conta daquele espaço como se o mundo estivesse em suspenso, como se as pessoas se encontrassem em comunhão dentro daquele silêncio.
É esta a magia da poesia/ música, a sua capacidade de nos tornar irmãos (para além de todas as dicotomias e diferenças) na esfera do silêncio/ cântico.
Luís Costa
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November 20th, 2009 at 12:00 pm
Caro Luís Costa,
Congratulo-me contigo pelo erudito texto que aqui apresentas e onde fazes referência a uma festa portuguesa onde participei também. No mundo da normalidade factualfactual do dia a dia a festa nos liberta para descobrirmos a grandeza do ócio e da poesia. A festa pode ser um momento de rompimento com o ciclo vegetativo das estações repetitivas dos ciclos envolventes.
No mistério, o saber é estrela cadente com a dimensão da própria massa a incandescer o firmamento.
Todos somos estrelas cadentes no mesmo firmamento do mistério.A beleza do firmamento vem-lhe da poesia dos vários eus nas órbitas da relação.
Não fora o firmamento da própria poesia soletrado na palavra o espaço da cultura seria escuro como o breu do “buraco negro”.
A palavra cria a realidade, levanta a abóbada do espaço onde a letra é oxigénio. A palavra dá forma ao espaço para depois habitar nele. A palavra enche de luz a casa escura do nosso ser! A verdade é sonho, é firmamento escrito com as letras duma realidade sempre a acontecer.
Creio que, no vestuário da cultura se revela a nudez e solidão do grito saído do útero da vida à procura dum alfabeto, talvez à procura dum novo seio!
A procura, a crença é a tentativa de dar forma ao oculto.
O Homem nu, sem a roupagem da línguagem e da cultura permaneceria no estado parasidíaco vegetal, tal como acontecia antes do surgir da luz da razão em Eva.
No Homem, matéria e forma tornam-se parte essencial do ser, uma dança de luz e sombra no palco da vida.O que nos vale é a consciência de sermos parte do mesmo processo que observamos.
O aplauso e o reconhecimento são o tributo da procura do mistério formulada e petreficada numa crença, num aplauso, numa crítica num louvor! O carinho e o reconhecimento pretendem ser mais que o eco duma informação a passar no firmamento da panorâmica da órbita dum eu também ele a caminho no universo de galácias solitárias sempre em extensão.
Todos nós somos um universo de forças centrífugas e centrípetas em movimento de rotação, de translação e expansão. Nós somos saltimbancos a dançar nos limites dessas forças. O problema e a chance está no nosso ser de saltimbancos!
O desejo de individuação, o aplauso e o reconhecimento nos faz escrever!
Um abraço amigo
António da Cunha Duarte Justo