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Luís Reis - Editor TriploG
Carta a um(a) leitor(a) triste
Não encontro no meu PC as cores do rio; nem sei se consigo dizer com palavras a cor. Verdade que é azul. Um azul móvel e inquieto, como se estivesse também triste. Parece apressar-se em direcção ao mar. E no entanto os pássaros não parecem deixar-se contagiar por esta tristeza ou por esta pressa, porque voam em bandos relativamente lentos em sentido exactamente contrário.
Quer dizer que hoje o mar dos pássaros está para o outro lado, o que deixa alguma esperança de que tu o encontres também aí onde estás, em qualquer outro lado em que tu estejas, porque ele está com certeza dentro de ti.
Ontem mandei-te uma estrela, repito. Mandei mesmo. Antes de adormecer na esperança do veículo do sonho. Os sonhos são um meio de transporte razoavelmente bom para as estrelas. Os e-mails não sei se são assim tão bons para transportar o rio. Mas se chegar aí a ideia de que eu estou aqui a olhar o rio e a imaginá-lo através dos teus olhos… talvez os teus olhos venham cá ou o rio chegue aí ou se encontrem a meio caminho, o que me parece razoável. No fundo o que eu gostava era que conseguisses saborear a tristeza, porque se ela está aí é porque precisa, ou tu dela, mas poderás vesti-la com roupagem mais atraente. Com cor de mar, talvez. Ou de fogo, que é uma bela cor. Ou de dourado, como o astro em cujo cenário te imagino sempre.
Volto a olhar o rio. Menos azul, mais cinzento, mais luzes do outro lado. A água (ou é ilusão?) parece mais parada. Mais calma.
E tu? Com mais luzes? Como está agora o teu azul? De que cor está a tua tristeza?
De que cor será a minha vontade de te aproxi(mar) do mar?
De onde vem, para onde vai a tristeza?
Eu hoje vesti-me cor de fogo para ouvir dizer coisas bombásticas e verdadeiras com o ar de nunca terem sido ditas por ninguém e de serem ditas só para mim. Hoje disseram-me que a nossa natureza é essencialmente trágica e que nós todos, toda a humanidade, sem excepção, somos uns heróis. Que não há nenhum que seja mais herói do que outro. Eu acho que é verdade. Só pelo simples facto de existirmos já somos heróis. Todos. Mas mesmo sabendo isso e acreditando nisso alguns aparecem aos meus olhos mais heróis do que outros. Eu sei que é aparência, mas se eu o viver como tal sabendo que o é, não é tão grave. Tu, que às vezes te cruzas comigo, és um dos heróis (uma das heroínas) da minha vida. Ocasionalmente, um herói triste. Acontece. E passa. Mas enquanto não passa deixa que te console. Privilégio meu.
Um abraço extenso que atravesse todos os planos a planar, como sobre um mar.
Risoleta C Pinto Pedro - risoletacpintopedro@gmail.com - risocordeluz
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