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Com Picasso…

July 30th, 2009 by Luís Reis - Editor TriploG

Fez há dias 40 anos que o homem chegou à Lua.

Eu estava na Guiné entregue a uns momentos de folga entre incursões pelo mato que por vezes davam em combates.

Como ouvira a notícia num breve flash radiofónico, pus-me a olhar para o nosso satélite.

Estava nisto quando um acúmulo de nuvens veio e tapou o astro. Escuro sinal…

Era o destino a querer contrariar-me…estilo piadinha negra?

Não sei.

Se era isso, não me lixou por aí além. Com efeito, 30 anos exactos depois estava eu muito lampeiro em Paris, tendo até a dita de protagonizar a situação que se descreve no textinho anexo e que, hoje mesmo - quando a ida à Lua acaba de perfazer 40 anos… - um súbito pedido de colaboração do Edson Cruz (para o publicar numa revista da editora ”Escrituras”, de que agora é familiar) me deu ensejo de o recordar e epigrafar em letra de forma.

O destino, pelos vistos, se é que foi ele que se meteu na coisa, não tem sido muito mau para mim. Será talvez um pouco gozão, mas nada mais. O que obviamente me deixa consolado e um pouco, até, tranquilo.

Nicolau Saião 

LIVROS, ALFARRÁBIOS

Há um par de anos em Paris, numa bela manhã de sol, passando em frente da “Maison Georges Brassens”- pequeno centro cultural erguido em celebração da memória do grande cantautor - ofereci-me o prazer de durante uns bons minutos deambular pelo jardim próximo que é meio mercado de livros meio entreposto de curiosidades, cifrado nalgumas dezenas de padiolas onde se encontram resmas de fólios do quilate e género mais diversos, desde edições vulgares, ainda que interessantes, até relativas raridades.

  A certa altura, compreensivelmente surpreso, extraí de entre muitos outros um tomo que relanceei excitado: tratava-se de facto do célebre “Dessins” de Picasso, na exemplar edição de Albert Skira, impressa em Lausanne/1967 para a colecção por ele-mesmo estabelecida e dirigida, “Le goût de notre temps”. Com texto introdutório de Jean Leymarie, ostenta na capa encadernada em linho branco-mate um belo desenho a caneta, de linha clara, de uma mulher deitada no pleno ar livre de uma praia sugerida apenas por dois traços horizontais.

  Nunca fiquei indiferente ao seu método de renovação da visão, a essa sua realidade por detrás do aparente, essa que nele existe em todas as direcções. O que nele sobretudo distingo é que a imaginação se apoia no real quotidiano. Nesse que contudo é movediço e cuja face brilha sob mil luas diferentes.

  Nesta conformidade, um pouco trémulo preparei-me para esportular se necessário uma continha calada. Congeminei mesmo pedir o socorro da sua bolsa ao confrade que me acompanhava, caso o meu erário não fosse suficientemente poderoso… Mas tinha de ter aquele livro!

É que, bastantes anos atrás, eu escrevera num suplemento da capital lusa um textozinho precisamente assinalando a saída, de que tivera menção e notícia, desse mesmo livro que tinha nas mãos. Escrevera eu:

“A pintura, neste caso a pintura do mestre malaguenho, mais que antecipar-se ao tempo tenta a todo o custo ser um salvo-conduto para a grande viagem que não nos vincula às contradições da sociedade. E se as técnicas da pintura não devem interessar, a não ser para percebermos o como, também é evidente que muita coisa parte delas: uma leve inflexão faz-nos sentir o apelo do mar e da floresta, este violeta ou aquele amarelo deslocam-se com maior ou menor velocidade nas ruas de todas as pessoas, este traço convulso é o sinal de que num quarto dois seres se entregam ao amor que lhes é próprio, este anil ou este lilás são a presença de uma tarde soturna ou de uma manhã de sol ou dum campo ao anoitecer. E o claro-escuro proverbial do desenho, sob que égide deveremos colocá-lo?

Mas, vejamos, o jogo em Picasso é verdadeiramente sério. Como uma questão de alegria. De um riso desatado. Sim, o que se busca é o interior da beleza dessa natureza que jamais se entrega por fora, que nunca se revela inteiramente faça-se o que se fizer. Não o sabíamos todos nós já?

Então é preciso deformar, manchar e modificar, como a mão dum amante que tritura a carne com as carícias que fazem aparecer aqui o cinzento, acolá o branco, o escarlate, o azul. O comovido verde-rosa das visões e das amarguras transfiguradas.

Digo que este pintor, liberto do fardo da arbitrária semelhança, soube traçar insuperavelmente, sob o céu muitas vezes enegrecido do mundo, o perfil de algumas fogueiras estremecendo na frieza e na hostilidade da noite”.

Com alguma tímida esperança aproximei-me da vendedora, uma bela moça claramente chegada do Senegal ou doutra ex-colónia francófona. Inquiri do preço e, com a alma a cantar, fui informado de que custava…15 francos!

Paguei sem regatear.

Há pedaço, estive a folheá-lo pela enésima vez.

De tempos a tempos, volto a ele: não só as reproduções a tinta-china e a cores são belíssimas (fazem parte da Suite Vollard), como o prefácio é exemplar.

Nisto de convívio com os alfarrábios tenho tido, tempo fora, grandes desditas e fortes alegrias.

Esta, que aqui partilho convosco, foi uma das melhores e mais saborosas!

» Nicolau Saião

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