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O múltiplo e raro Raul Córdula

February 22nd, 2009 by Estela Guedes - Editor TriploG

O múltiplo e raro Raul Córdula
Dyógenes Chaves - Fonte: http://jornal.onorte.com.br/domingo/diogenes/
Sua ampla atuação projeta não apenas um multiartista, mas uma forma de vida, toda dedicada à arte

Neste ano de 2009, a Associação Brasileira de Críticos de Arte-ABCA comemora seus sessenta anos de vida. Uma série de eventos - palestras, debates, lançamento de livros e exposições - estarão acontecendo pelo Brasil, em especial em São Paulo, onde fica a atual sede da ABCA. Interessante notar a forte presença de estetas e artistas paraibanos nesta instituição, da criação à manutenção de suas ações em prol da reflexão sobre as artes visuais do país. Mário Pedrosa, um “quase” paraibano (ele nasceu em Timbaúba, Pernambuco, divisa com a Paraíba), aliado a figuras como Simeão Leal, Tomaz Santa Rosa e Antonio Bento foram imprescindíveis na história inicial da ABCA.

Da nova geração de críticos de arte paraibanos, especialmente, àqueles que ingressaram a partir dos anos 80 - deve-se citar José Altino, Chico Pereira, Eudes Rocha Junior e este articulista -, que continuaram a manter a tradição que sempre marcou a presença de estetas nordestinos no cenário nacional das artes visuais. Ao mesmo tempo, não se pode negar a reconhecida participação dos irmãos paraibanos Raul e Risoleta Córdula, esta, hoje radicada em Paris e membro da Associação Internacional de Críticos de Arte-AICA. Já Raul Córdula, artista atuante e sócio da ABCA há muitos anos, tem sido o responsável pela retomada da associação no âmbito da área nordestina ao insistir na proposição de novos sócios oriundos de nossa região. Como está programada uma exposição com todos os artistas premiados pela ABCA ao longo destes 60 anos - a acontecer em abril deste ano, em São Paulo - fui encarregado de escrever sobre Raul Córdula, o artista premiado em 2005, para publicação no catálogo do evento. O texto tem o título de “O múltiplo e raro Raul Córdula”.

“Acho, sinceramente, que a pintura de Raul Córdula extrapola o universo da arte. Ora, isso não é novidade para aqueles que conhecem a trajetória ininterrupta de quase cinqüenta anos deste artista parido na Serra da Borborema, pertinho das itaquatiaras do Ingá, no interior da Paraíba. Sua ampla atuação projeta não apenas um multiartista, mas uma forma de vida, toda dedicada à arte - como ele próprio reconhece: “Por puro sacerdócio” - e sempre direcionada para um desempenho multifário, da política à estética, da técnica à poesia, do caos à ordem. Raul é mesmo homem de todos os instrumentos: pintor, aquarelista, escritor, designer, consultor e pesquisador da cultura popular, esteta, fotógrafo, cenógrafo, administrador cultural, desenhista, gravador, programador visual, professor e sofisticadíssimo cuisinier. Ia esquecendo: é também um gentleman, galanteador e filósofo.

Raul Córdula já era uma lenda para os artistas de minha geração quando o conheci pessoalmente, no final dos anos 80, numa exposição no Museu Assis Chateaubriand, em Campina Grande. Dividimos o mesmo quarto de hotel, onde o escutei falar por horas a fio… Dentre outras coisas, disse-me ele: “Não temos tantos estetas atuando por estas bandas do Nordeste e, pior, os que escrevem bem moram agora no eixo Rio-São Paulo. Portanto, nós artistas precisamos exercer também a crítica de arte.” Anos depois, ele voltou ao mesmo tema na revista Galeria (nº 21, 1990): “Em uma terra onde o papel da crítica é substituído por um colunismo social a serviço da produção de pintura tradicional - que, na maioria das vezes, apenas se parece com uma produção de arte -, os artistas nordestinos engajados em uma produção ‘progressista’, além de ter que lutar por espaços expositivos, sofrem a carência de textos que teorizem sobre suas produções.” Por si sós, estas passagens já situariam Raul como raro artista engajado e preocupado com otras cositas más, além do “mundinho” restrito das artes, em que eu inocentemente acreditava. A partir daí, construímos profícua amizade, consolidada por uma série de trabalhos em colaboração.

Da empreitada de escrever sobre a obra de Raul Córdula, também já deram conta - e muito bem - as análises de Alberto Beuttenmüller, Paulo Klein, Paulo Sérgio Duarte, Eleine Bourdette, Chico Pereira, Risoleta Córdula, Marcos Lontra, Harry Laus, dentre tantos outros, inclusive sua diletíssima companheira, Amélia Couto, que pertinentemente afirmou: “Para Raul, a obra de arte não é apenas um objeto de troca, mas, acima de tudo, um signo de conhecimento e um repositório de emoções.” Reporto-me, ainda, a um coerente depoimento do próprio Raul, publicado em um jornal da Paraíba há mais de 30 anos: “Usando uma linguagem simbólica, parto para fixar segmentos do meio ambiente, numa estruturação geométrica de triângulos, quadrados e círculos. Esta linguagem particular atinge mais facilmente um público metropolitano do que um público de província. Como todo artista oriundo da década de 60, percorri caminhos vários, da vanguarda brasileira - quando, ao lado de Antonio Dias, Gerchman e Escosteguy, participei da mostra, Nova objetividade - à abstração lírica. Considero que estes caminhos refletem a procura do metier, a afirmação da linguagem e não depreciam a obra do artista, que só se afirma com muito trabalho. Hoje endosso as palavras do mestre [Domenico] Lazzarini, quando dizia que a arte é trabalho diário e persistente, e mesmo que não esteja pintando, o artista está vendo, intuindo, interpretando.”
Dyógenes Chaves, Artista Visual e Crítico de Arte membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte/ABCA

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