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Quando eu era português, por Nicolau Saião

August 30th, 2008 by Estela Guedes - Editor TriploG

QUANDO EU ERA PORTUGUÊS…

Como se calhar deve ter tido informação atempada e pública, neste momento já não sou cidadão luso - por ter abandonado a correspondente nacionalidade através dos naturais mecanismos humanitários, antecedidos do mais simples deles todos: o ter assumido a demissão interior dessa amena peculiaridade.
Entretanto, no último dia que passei possuindo essa triste sina, ainda prestei um último serviço ao país que me deu o ser (e o não ser), mediante dois textinhos económicos inseridos no consabido “Portugal Diário”, um dos poucos espaços nacionais onde ainda se pode falar como se fôssemos pessoas livres e com a cabeça no lugar (ou seja, sobre os ombros).
O primeiro texto consistiu na minha resposta à pergunta do PD, que rezava o seguinte:

“Polícia não pode disparar durante perseguição. Concorda?”

A minha resposta foi a que segue:

“A vida humana é sagrada, mas como dizia o Georges Orwell há algumas que são mais sagradas que outras…
Assim, o bom governo luso devia decretar que a polícia pode disparar contra cidadãos de bem. Ou seja: os criminosos, como bem nos demonstrou o regime nazi, fazem mais falta ao Poder, nomeadamente se ele é, como este nosso portuguesinho, oportunista e parlapatão. E porquê? Porque como dizia o doutor Goebbels, os criminosos são tipos decididos e corajosos, ao passo que o cidadão de bem só quer viver em paz - chegando ao ponto, mesmo, de não fazer mal a uma mosca!
Num estado tecnológico de ponta, isso é gente dispensável, são uns quadradões.
O gangster puro e duro é o que está a dar.
E o nosso belo Estado bem o percebe, senão veja-se o recente Código Penal.
Casque-se no cidadão impoluto. Honra ao criminoso - nomeadamente de colarinho branco imaculado.
E viva o nosso querido Governo, carago!”

O segundo texto, dado aí adiante, foi referente ao nosso estimado Presidente da República, o venerando professor Cavaco Silva, espelho de qualidades públicas que praticamente todos os portugueses admiram e que, muito ponderada e prudentemente, soltou em luzida cerimónia esta frase simultaneamente consciente e quase comovente na sua lapidar simplicidade: A violência é preocupante”.
Aqui o deixo, com uma vénia sincera e apreciativa ao conhecido estadista e algarvio de Lei – um dos políticos com que me habituara a contar – bem assim, congemino, como todos os cidadãos do bom e velho e antigo Condado Portucalense!

“Dá gosto ouvir o Sr. Presidente da República!
Das suas opiniões (não lhe chamemos críticas!) exala-se uma sensação de carinho, de bondade, de mansuetude que dá gosto.
Cavaco é um homem bom!
Não é um violento, como esses sarkozys, esses juans carlos, esses todos que só fazem críticas duras, exigindo, exigindo coisas dos seus governos quando, por incompetência ou desmazelo destes, os apanham a jeito!…
Cavaco é um homem terno, afectivo. Mas ponderado!!!
Vejam como ele diz virilmente, que e cito “a violencia é preocupante”…
Querem melhor posicionamento?
Para quem tivesse dúvidas, ele disse a palavra certa, definitiva, varonil: a violencia é preocupante!
Aprendam, portugas duma cana!
Com carinho, com equilíbrio, deu um conselho ao governo.
Que segue todos os seus conselhos - como se sabe!!!
Cavaco? Um homem como já vai havendo poucos neste tempo de contestação!!!
Eu acho que merece um prémio que galardoe a sua equanimidade.
Porque não atribuir-se-lhe a qualidade de Senhor da Cana Verde?
Ou outro qualquer que nos faça meditar na doçura que deve ter um alto magistrado?
Hein?”

Nicolau Saião
Esquire, antigo cidadão lusitano

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