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Ideias para Portugal precisa-se

January 28th, 2008 by Estela Guedes - Editor TriploG

O PÂNICO que se instalou nas bolsas mundiais, e a repetição agressiva da palavra recessão, prometem um 2008 de asperezas e dificuldades, que nem a eleição de um novo Presidente americano suaviza. Portugal não está ao abrigo destes ventos e alterações climáticas da economia. Sócrates e o seu Governo têm tido o mérito da coerência e do empenho reformista. Mas, e há sempre um mas, uma parte da acção do Governo tem criado uma nova classe proletária, a baixa classe média, e exigido sacrifícios extremos às bolsas dos portugueses, onde há mais tempo que nas bolsas mundiais se instalou o pânico. Em Portugal, a maioria vive acima das possibilidades e vive endividada. Se a economia recuperar, estas dívidas recuperam-se, se não recuperar, e é provável que não recupere, afundamo-nos tristemente. A crise do subprime, a impossibilidade de famílias com menores rendimentos pagarem as hipotecas e a falência das instituições credoras, demonstram que, quando os pobres não podem pagar o que devem, os ricos não gozam de boa saúde. Em alturas de crise mundial, é preciso saber que o nosso país tem meia dúzia de governantes e de políticos da oposição que sabem o que andam a fazer e que não se reduzem à caricatura. É preciso saber que o principal partido da oposição existe. Quanto pior for a oposição, pior e mais descarada será a governação.

Luís Filipe Menezes conseguiu que Marques Mendes parecesse um político razoável, e todos sabemos que é um político medíocre. O Miguel Sousa Tavares comparou a personalidade gigante de Churchill com a miséria dos nossos políticos, os políticos que temos, e nem seria preciso ir tão longe. Churchill corresponde a uma personagem que projectou uma sombra total sobre todos os primeiros-ministros que se lhe seguiram. Ninguém que seja alguém na política inglesa deixa de olhar para o retrato de Churchill e medir-se com ele, de Thatcher a Blair. E Churchill ganhou o malvado concurso, todos os consideraram o maior britânico de sempre. The Great Briton. Em Portugal ganhou Salazar. Como diria o Miguel, é o que temos.

Se olharmos para as eleições americanas, vemos no Partido Democrata dois exemplos, e mais existem, do que é uma carreira política escorada no sentido da missão, da comunidade e do serviço público. Tanto Hillary Clinton como Barack Obama têm duas autobiografias (e biografias) que mostram a escolha entre continuar a enriquecer no serviço privado e trabalhar quase sem remuneração no serviço público. Servir ou servir-se. A ambição e o poder não explicam tudo, neles persiste uma ideia que é tudo menos cínica. Lendo um livro e outro, o de Hillary e o de Obama, ou o do republicano John McCain, ou mesmo o de Giuliani, sobra-nos a indigência, a pobreza intelectual e moral dos políticos que temos. Nenhum deles conseguiria escrever um opúsculo sobre si mesmo, e se o escrevesse, de que trataria esse livro magro? Da arte de bem cavalgar toda a sela do pequeno poder e da arte de traficar favores e influências partidárias, à mistura com muita corrupção moral.

Que grande, que prodigiosa ideia para Portugal tem esta gente? Nenhuma. Desde Mário Soares que nem um político português teve, até hoje, uma só ideia para Portugal. Alguns tiveram ideias para se servirem a si mesmos, não vale a pena citar nomes, e outros tiveram ideias de enriquecimento sem causa. Outros ainda, recusaram a política para melhor poderem enriquecer nos conselhos de administração das empresas privadas que beneficiaram enquanto eram servidores públicos. Não vale a pena citar nomes. Mas vale a pena fazer a lista mental daqueles que reputámos de “muito inteligentes” e prometedores e ver a obra pública. Os chefes-de-fila deste movimento são Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, que passam por ter um pensamento quando mais não fazem do que defender agendas políticas pessoais, com mais perfídia ou simpatia. O país nada lhes deve. Nunca tomam posições incómodas que ameacem o poiso televisivo ou a necessidade de agradar para manter o lugar. Uma ideia política, algures? Não se vê. Estes Dupont e Dupond, contratados para serem os gémeos que falam, ilustram bem o que temos. Eles são o protótipo do bloco central e dos seus vícios e inércias de pensamento e de acção. De troca de favores, convites e galhardetes. Pareceres e opiniões. Quando descemos para casos mais banais, de pura ambição narcísica ou carreirista, não vale a pena citar nomes, a depressão instala-se. O país não tem quadros políticos ilustres, não tem think-tanks, não tem governantes suplentes, não tem dirigentes. Tem Sócrates e tem Cavaco. A Casa Branca pode ser o maior posto político do mundo, é também o mais duro de alcançar. Ouvir um Clinton falar de política, ouvir Obama, dá-nos essa qualidade obscura que tinha Churchill e que têm os grandes políticos. A convicção do serviço público. Estamos entregues a meretrizes, e as meretrizes não podem atirar pedras às meretrizes do poder económico, com as suas reformas, manobras e golpadas de milhões. Enquanto as nossas bolsas e carteiras entram em pânico, eles enriquecem. E enriquecem. E enriquecem.

Clara Ferreira Alves

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